FIGURAS DE LINGUAGEM

A metáfora e outras tentações

Por Gabriel Perissé em 25/10/2011 na edição 665

Um dos (poucos) atrativos estéticos da leitura de textos jornalísticos reside nas figuras de linguagem e trocadilhos que surgem aqui e ali, dependendo do talento, da cultura literária ou do bom humor de autores e editores.

Para ficarmos em exemplos recentes, em O Globo (20/10), ao noticiar a prisão do traficante Alexander Mendes da Silva, mais conhecido como Polegar, o jornal carioca produziu título de gosto duvidoso mas pelo menos divertido “Polegar na mão da polícia”; na revista Veja desta semana (edição 2240), João Batista Jr. intitula como “Planeta dos cavalos”(brincando com o nome do inesquecível seriado e do filme) reportagem sobre um símbolo de status de certa categoria de ricos: belos equinos para comprar, cuidar e exibir.

Prato cheio para exercícios desse tipo, nos últimos dias, têm sido as suspeitas de corrupção no Ministério do Esporte. Para já, alvo fácil é o nome do ministro Orlando Silva, “xará do cantor das multidões” como lembrou (mas não foi o único) Ivan de Carvalho, na Tribuna da Bahia (17/10). Tentação maior, porém, está em outro campo, não musical.

“Orlando Silva leva um xeque” (não um cheque...)

Empregar linguagem futebolística para abordar escândalo no Ministério do Esporte parece absolutamente natural. Vejamos alguns títulos e nos detenhamos, por ora, em apenas uma imagem... que se repete:

** “Na marca do pênalti” – CartaCapital (nº 669).

** “Orlando na marca do pênalti” O Dia online (20/10).

** “Orlando Silva na marca do pênalti” A Gazeta (Vitória, 18/10).

Na revista Época desta semana (nº 701), em cuja capa, vermelhona, se brinca com a sigla do partido do ministro PCdoBolso , a última página, assinada por Ruth de Aquino, traz um texto em que a “marca do pênalti” aparece de novo, acompanhada por outras alusões (o título do texto é “O esporte mais popular do Brasil”):

Você achou que era o futebol? Não é. Nosso esporte mais popular é a corrupção. O time de maior prestígio e mais bem remunerado é o BCC, Brasília Corrupção Clube. [...] O “bicho”, nesse torneio, é a propina. Tem muito empurra-empurra. Já foram expulsos cinco neste ano da Seleção, e o sexto estava na marca do pênalti aguardando o apito da juíza.

Metáforas futebolísticas são de fácil apreensão, claro. Mas fica a sugestão de prestigiar outros esportes em futuras jogadas: “Orlando Silva leva um xeque” (não um cheque...), “Terá Orlando um revezador?” (na corrida).

***

[Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor; www.perisse.com.br]

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 Thalita Pacini
 Enviado em: 25/10/2011 09:29:29
Gabriel, acho ótimo devolverem piada com piada. Só acho ruim que a gente "aprende" a levar tudo na brincadeira, como se o sarcasmo salvasse a pátria. A linguagem jornalística que possuia um caráter denso e massante é hoje mais leve e descontraída. Acho justo, mas na medida certa. Sem que se perca a identidade/qualidade do serviço que é prestado. Paradoxalmente, rimos do absurdo. Um abraço, muito bom o texto e o tema.
 Ricardo Oliveira
 Enviado em: 25/10/2011 12:52:50
" Veja, globo, folha, estadão, band, partiram para o ataque. Com um esquema de jogo bem ofensivo encurralaram o adversário com um intenso bombardeio. Entretanto, devido a frágil capacidade dos atacantes, acabaram levando uma gigantesca goleada com bolas nas costas " É uma metáfora, que fala de ministro, imprensa, esporte e principalmente poder. Metáforas não são para qualquer um. É algo que requer talento, cultura, profundidade. A velha mídia, hoje, pensa que produz metáforas ou humor, entretanto o que faz é violência, manipulação e mediocridade. A corrupção não é um fenômeno novo, deste ou daquele governo. Também não aumentou no atual governo. A corrupção existe por que existem aqueles que lucram com ela e, quem mais lucra são os corruptores. Esses últimos, pagam generosas quantias para que tenham gigantescos lucros e, em nenhum momento são citados, mesmo em metáforas, pelos veículos de imprensa. Veículos de imprensa que se comportam como um time, com equipes, uniforme próprio e intensa participação no calendário anual. De supostos mediadores , ou árbitros, a velha imprensa, ao que parece de forma clara aos olhos de todos, está envolvida em um esquema de resultados para alterar o resultado do jogo, querendo , inclusive, retirar o time adversário, campeão do último campeonato, do campo de jogo. O caso pode acabar nos tribunais, com punições para todos os envolvidos. Novas equipes da imprensa, das divisões inferiores, vem realizando um bom campeonato e podem substituir os prováveis banidos do esporte.

Gabriel Perissé

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