STEVE JOBS (1955-2011)

A morte do deus tecno-humano

Por Raphael Tsavkko Garcia em 11/10/2011 na edição 663

Visionário, gênio, herói, semideus e mesmo um deus tecno-humano foram apenas alguns adjetivos usados pela mídia, por blogs e por indivíduos para descrever Steve Jobs, na quarta-feira (5/10), vítima de câncer, aos 56 anos de idade. De forma absolutamente irrestrita sua imagem foi vendida como a de um personagem irreal, saído da ficção direto para salvar a humanidade da inércia e da apatia. Seus iPods, iPhones e outros “i’s” se tornaram paradigmas supremos e símbolo da modernidade em que a tecnologia determina nossas vidas.

Mais do que um obituário, Steve Jobs obteve um case de marketing completo onde seus produtos foram vendidos sob o falso tom de jornalismo comprometido. Sua morte pareceu até mesmo um golpe de marketing. Apenas poucos dias após o anúncio de mais um novo produto, sonho de consumo em um mundo onde a posse de gadgets ultramodernos se tornou razão da vida de muitos, morre Jobs, sua marca foi exaltada e o e a compra do mais novo iPhone transformada quase em homenagem à memória do semideus.

Como de costume, a morte nos torna a todos perfeitos. Apaga nossas falhas, nossas contradições. Não há nenhum morto que não seja lembrado com alguma dose de... carinho, talvez? Mesmo os piores ditadores encontram conforto na memória de selecionados seguidores. Por que seria diferente com Jobs? Aos que se surpreendem com a comparação com ditadores, não se assustem. Jobs era líder de um império empresarial, capitalista por natureza. Não aceitava limites para sua criatividade ou para seus lucros. Contrário à lógica colaborativa e democrática que permeia a rede, preferia ter sob seu guarda-chuva os melhores, prontos a trabalhar por gordos salários, e mantendo preso sob contrato conhecimentos que poderiam ajudar no desenvolvimento de diversas outras ferramentas e produtos tecnológicos.

Pensamento único da mídia

Sua empresa, a Apple, estava envolvida em escândalos, como casos de trabalho escravo e mesmo suicídios em fábricas que produziam seus produtos na China, como a Foxconn, que logo ampliará suas garras até as terras brasileiras. Michael Moore já provou em seus documentários que os patrões normalmente sabem das condições desumanas a que são submetidos seus empregados, mesmo que em empresas terceirizadas. No Brasil, tivemos recentemente a cobertura do caso da Zara, cuja cadeia de produção incluía baixos salários e imigrantes em situação análoga à da escravidão. Neste caso, palmas para a mídia que teve a dignidade de ajudar na denúncia e na pressão.

No caso da Apple, toda e qualquer denúncia foi, agora, enterrada pelos louvores ao gênio precocemente falecido. Ditador em suas maneiras, frio nas suas decisões e interessado apenas na promoção pessoal e na de seus produtos, que só faltam ir ao mercado e fazer as compras pelo seu feliz dono. Apenas na internet, no ambiente em que a mídia ainda enfrenta dificuldades para impor sua ditadura do pensamento único, algumas vozes destoaram do coro ao semideus. Mas tímidas, localizadas e mesmo comportadas.

Estas foram ignoradas ou reproduzidas pela mídia com tom de descrença, quase de ofensa pessoal contra um herói que talvez tenha descoberto a penicilina ou a cura para o câncer, mas que foi vencido em uma batalha heroica.

A ditadura de pensamento único da mídia se perpetua e mantém vivo o alerta pela necessidade de uma real democratização dos meios de comunicação. E, acima de tudo, mostrou que, mais uma vez, a internet permanece como um dos únicos polos de resistência que, ironicamente, foi a casa do deus tecno-humano que faleceu.

***

[Raphael Tsavkko Garcia é jornalista, blogueiro e mestrando em Comunicação]

Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade e a pluralidade de idéias e de pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem a intolerância ou o crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Mensagens que não atendam a essas normas serão deletadas - e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.

ATENÇÃO: Será necessário validar a publicação do seu comentário clicando no link enviado em seguida ao endereço de e-mail que você informou. Só as mensagens autorizadas serão publicadas. Este procedimento será feito apenas uma vez para cada endereço de e-mail utilizado.

Nome

  Sobrenome
 
     
E-mail   Profissão
 
     
Cidade   Estado
 
     
Comentário   Confirme o código da imagem

1400
 
Recarregar imagem
   
   
   

 

 Ibsen Marques
 Enviado em: 11/10/2011 07:32:26
Nossa, finalmente um artigo lúcido. Custa-me crer que as pessoas acham realmente que foi Jobs quem "criou" seus mais avançados produtos. Parece que não há medida para o individualismo nesse mundinho capitalista tacanha. Esquecem-se que há toda uma equipe de genios do desenvolvimento e criação. Ele concentrou em si o marketing e a administração. Com isso consiguiu fazer crer essa imprensa de trabalho de jornalismo medíocre que ele ia da idéia ao último parafuso e toda a comercialização solitário. Querem nos fazer crer que uma gigante do capitalismo tecnológico poderia ser dirigida por apenas duas mãos e que seu principal objetivo era o bem estar das pessoas e não o de seu bolso!
 Gerson Chagas
 Enviado em: 12/10/2011 16:20:53
Partindo do pressuposto de que o marketing tem por finalidade divulgar mas também criar a demanda por um produto, Jobs foi seu aluno mais aplicado. E tal genialidade foi exercida dentro de um cenário capitalista, cujos valores seguem a cartilha da apropriação, da manipulação e do lucro ; ou seja, nada de novo no front. O problema maior fica por conta da imbecilidade consumista de seus clientes. Quanto à postura da mídia, também não surpreende, na condição de subserviente coirmã do marketing.
 Ângelo Luís
 Enviado em: 23/10/2011 20:32:31
"Não aceitava limites para sua criatividade ou para seus lucros. Contrário à lógica colaborativa e democrática que permeia a rede, preferia ter sob seu guarda-chuva os melhores, prontos a trabalhar por gordos salários, e mantendo preso sob contrato conhecimentos que poderiam ajudar no desenvolvimento de diversas outras ferramentas e produtos tecnológicos." Oh, nossa! Descobriu a América.

Raphael Tsavkko Garcia

LEITURAS DA FOLHA

Artigo questiona genocídio de armênios

Raphael Tsavkko Garcia | Edição nº 691 | 24/04/2012 | 2 comentários

MÍDIA LIVRE

Crítica à crítica (e aos críticos) da mídia

Raphael Tsavkko Garcia | Edição nº 683 | 28/02/2012 | 6 comentários

CASO PINHEIRINHO

Violência, desinformação, intimidação

Raphael Tsavkko Garcia | Edição nº 680 | 07/02/2012 | 1 comentários

CASO BBB

O show tem que continuar

Raphael Tsavkko Garcia | Edição nº 678 | 24/01/2012 | 1 comentários

MÍDIA & TRAGÉDIAS

Será que a chuva lavou a memória da imprensa?

Raphael Tsavkko Garcia | Edição nº 677 | 17/01/2012 | 5 comentários

Ver todos os textos desse autor