LÍNGUA & LINGUAGEM
A perigosa transparência
Por Gabriel Perissé e Ana Lasevicius em 11/10/2011 na edição 663
Certas palavras e expressões ocupam mais espaço do que outras. Colam-se aos textos. Surgem aqui e ali, insistentes. “Faxina” ganhou popularidade nas matérias políticas. “Transparência” aparece a todo momento. Volta e meia vemos autoridades trocarem “afagos” – “PMDB troca afagos com Dilma”, “Dilma troca afagos com FHC”, “FHC e Marina trocam afagos”, “Dilma e Alckmin trocaram afagos publicamente”, “Alckmin afaga Aécio Neves”, “afagos entre a base governista e Kassab”... A quantidade de afagos só é comparável à de farpas, que os mesmos personagens acima costumam trocar em debates presenciais ou virtuais.
Analisemos a propalada e desejada “transparência”. A mídia exige que o governo tenha compromisso com a transparência. Queremos que “as coisas nos ministérios”, como disse um político, “possam ocorrer com a máxima transparência”. Um economista declarou em entrevista que “o Banco Central está mais transparente”. Em artigosobre a qualidade do ensino no Brasil, Gustavo Ioschpe defende que expor o Ideb na porta das escolas é “um simples instrumento de transparência”.
Perigosa transparência! E a etimologia nos ajudará a entender esse perigo.
Por trás da transparência
O que podemos ver se tudo estiver excessivamente transparente? A palavra chegou até nós pelo francês transparent, devedor do latim medieval transparens, em que temos a preposição trans- (“através de”) e o particípio presente parens, de parere (“aparecer”). Inicialmente, na transparência, a luz passa através, permitindo ver o que, na opacidade, fica oculto. Contudo, essa ênfase obsessiva à transparência, tal excesso de luz... leva a uma nova invisibilidade.
Uma ação tão transparente dilui o que aparece. O que aparece, e nos faz imaginar o que existe por trás, deixa de aparecer na transparência. Porque a aparência não engana! A aparência é o conjunto de indícios e sinais que temos de levar em conta para descobrir o encoberto.
Já a transparência impede a percepção dos fatos. O Ideb transparente impede-nos a percepção do que o Ideb não pode medir. O Ideb transparente rouba o espaço do visível. O Ideb não pode medir a desmotivação de alunos e professores, a violência dentro e fora da escola. O Ideb joga para a invisibilidade a desvalorização docente.
Tanta luz não consegue dar à luz o que está acontecendo. Por trás da transparência não há a velha e boa essência. A transparência é reducionista. Reduz tudo ao campo da imagem. Não precisamos pensar. Está tudo visivelmente invisível.
***
[Gabriel Perissé e Ana Lasevicius são, respectivamente, doutor em Educação pela USP e escritor (www.perisse.com.br); e graduada em Comunicação Social e escritora]
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| Gerson Chagas |
| Enviado em: 12/10/2011 16:07:28 |
| A irresponsabilidade e o cabotinismo deste Gustavo Iochpe parecem não ter limites. Da mesma forma que busca sempre culpar os agentes escolares, notadamente os professores, pelas mazelas da Educação Pública, nunca vi um artigo dele discorrendo sobre a precariedade administrativa das escolas, a começar pela absoluta falta de funcionários , sem o que os agentes pedagógicos não têm o suporte mínimo para desenvolver suas atividades. Cobrar da escola, sim, mas antes de tudo fornecer as condições mínimas para a realização das tarefas que dela se espera. Ao simplesmente afixar uma nota na porta de entrada é apenas referendar o descaso. |
| Lucio Mazzaro |
| Enviado em: 16/10/2011 23:03:53 |
| Caros Gabriel e Ana, parabéns pela análise. Não consegui deixar de relacioná-la à história da roupa do Rei: a "suposta" invisibilidade da roupa acaba por desviar a percepção de uma constragedora realidade: "o Rei está nu". E por falar em "suposta", esta é outra palavra que cada vez mais povoa nossa mídia; nesse passo, daqui a pouco os noticiários vão mudar de ramo: vão tornar-se programa de mexericos, pois ao invés de fatos, tratarão de boatos. |
| arnaldo garcia garcia |
| Enviado em: 18/10/2011 00:25:13 |
| Esse menino,Gustavo Ioschpe, é um personagem misterioso. Filho de uma casta nacional, estudou no exterior, nos melhores colégios e universidades. Deve ser talentoso e inteligente. Mas daí, na flor da juventude, passar a opinar sobre educação, é de fazer virar no túmulo o nosso grande educador Paulo Freire. Não há dúvida que o menino Gustavo está a soldo do capitalismo educacional, este que prolifera por aí à custa daqueles que, sem beira nem eira, tiveram de estudar nas nossas miseráveis escolas públicas, onde o tráfico, a bandidagem de toda sorte, se sobrepõe à educação. Como por natureza o ser humano busca uma vida melhor, a educação é o instrumento revolucionário para isso. Mas aí, essa população à margem de tudo cai nas garras fáceis do ensino mercadológico, verdadeiro caça níquel. Esperemos, pois, que dona Dilma coloque os dois olhos, as mãos, o coração e sua inteligência para ver que não há saída, sem uma revolução na educação, uma revolução cujas armas são o aprendizado, a alfabetização e a formação de uma geração que não seja esta que sai das escolas praticamente analfabetas. Aí, então, personagens como o jovem Gustavo não terão espaço para pregar o neoliberalismo no ensino como tábua salvadora de todos os males que herdamos como Brasil Colônia. |






