GRANDE IMPRENSA

O complexo de Carolina

Por Washington Araújo em 03/01/2012 na edição 675

Não faz tanto tempo assim, mas é fato que a grande imprensa celebrava do nascer ao pôr do sol e madrugada afora o fato de o Brasil ocupar a oitava posição dentre as maiores economias do mundo. Nas últimas semanas de 2011, ficamos sabendo, pela mídia internacional, que nossa posição avançou rumo ao topo: o Brasil já é a sexta maior economia do mundo.

Ultrapassou nada menos que o Reino Unido, aquele antigo império “em que o sol nunca se põe”, e que nunca deixava de estar hasteada, ao longo das 24 horas, a bandeira da Union Jack – da Europa à África, da Ásia à América, passando pelos chamados protetorados no Oriente Médio.

O Reino Unido comandou com mão de ferro a Índia, a África do Sul, Hong Kong... e é bem longa a lista. Apropriou-se da culinária mundial, sem ao menos dar o crédito aos seus verdadeiros donos: quem não consome diariamente a batata inglesa, o chá inglês, a casemira inglesa?

A partir de meados do século passado teve início a derrocada do iImpério: foi obrigado a deixar a Índia com os indianos, em 1947, e a fazer reverências a seu líder maior, o Mahatma Gandhi; nos anos 1990 testemunhou o fim do odioso regime por ele mesmo implantado na África do Sul – o apartheid –, vendo surgir após 27 anos de cadeia o seu líder natural, Nelson Mandela; e, já no finalzinho daquele século, devolveu Hong Kong à China, por força de cláusulas contratuais em tratado firmado pelas duas nações.

Sem ver

Com cenário tão instigante, tão rico em história e em simbolismo, ainda assim nossa imprensa mais vistosa preferiu repercutir o feito de maneira tímida, quase que envergonhada, como se não passasse de reles disparate, de algo inconcebível a um país talhado para ser não mais que uma invenção do futuro – bem ao estilo da expressão de Stefan Zweig – aquele inatingível e fantasioso “País do Futuro”.

Isso demonstra à larga que não decorreu tempo suficiente para mudarmos nossos conceitos sobre o Brasil, seu potencial, sua importância geopolítica, suas riquezas naturais e humanas. Ficamos como que aprisionados à ideia romântica do Brasil festejado em nosso hino, o Brasil “deitado eternamente em berço esplêndido”.

Acostumados a explorar mazelas de todos os povos e países como invenções absolutamente nossas – corrupção, narcotráfico, malandragem, “jeitinho”, a noção nefasta da Belíndia –, a grande imprensa teve que engolir em seco seu olhar míope e acostumado em criar sua realidade paralela, aquela do país que não tem com dar certo e que precisa se acomodar, mesmo que seu pé seja tamanho 42 em sapato tamanho 36. Isso, segundo nossos oráculos de Delfos, que desde a manhã até à noite não param de azucrinar nossos olhos e ouvidos com presságios cada vez menos críveis, dando conta que o Brasil precisa urgentemente de uma primavera árabe, de um movimento ao estilo “occupy Wall Street”, e de fartas imagens tão artificiais quanto patéticas de vassouras limpando a nódoa da corrupção das nossas grandes cidades.

E a grande imprensa, mais uma vez, erra – e feio – ao querer importar de outros países uma realidade que não é a nossa: por que uma primavera árabe se temos eleições universais, diretas e livres a cada dois anos? Por que ocupar a Bolsa de São Paulo ou o Banco Central em Brasília se nossa economia, ao invés de gerar desemprego em massa, inflação apontando no horizonte e estagnação e colapso financeiro iminentes, encontra-se – nas palavras de nossos filhos – “bombando” e com viés de alta? Por que apoiar o movimento das vassouras quando existem vassouras demais, vistosas demais, novas demais, uniformes demais, fashion demais, coreografadas demais e poucos (ou quase nenhum) vassoureiro para empunhá-las?

A verdade é que não temos nenhum brasileiro se imolando na Cinelândia carioca nem na Praça da Sé paulistana, muito menos na mineira Afonso Pena ou nas imediações do Pelourinho baiano. E não temos por vários motivos. Dentre estes podemos citar o fato de que desde 2004 o premonitório slogan “Orgulho de ser brasileiro” deixou de ser mero reclame institucional do governo federal para ser sentimento vivo, pulsação corrente no corpo do país. A Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016, as descobertas de vastas extensões de lençóis petrolíferos na camada do pré-sal, o Brasil já ser “a terceira maior economia europeia”, atrás apenas da Alemanha e da França.

E os brasileiros viram tudo isso acontecer em brevíssimo espaço de tempo. Mas nossa grande imprensa não viu e se recusa a ver. O que lhe interessa mesmo é explorar a doença e não a saúde, o veneno e não o antídoto, o retrovisor com as surradas visões do passado e não o espelho do presente e do futuro.

O tempo passa

Começa 2012 e logo no primeiro dia do ano entrou em vigor o novo salário mínimo, de R$ 622. Representa um aumento real (descontada a inflação) de 9,2% em relação ao mínimo vigente até 31 de dezembro de 2011, de R$ 545. O reajuste real do mínimo é o maior desde o ano eleitoral de 2006. E injetará formidáveis R$ 47 bilhões na economia neste ano, segundo estimativa do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Esta e várias outras notícias foram tratadas como miçangas nas editorias dos jornalões e dos telejornais de maior audiência da tevê aberta brasileira.

A quem interessa isso?

Cada povo tem o governo que merece. E também a mídia que merece. E enquanto atuar dessa forma tão seletiva de fabricar a realidade que melhor atenda a seus interesses, a verdade é que nem o país ultrapassando as economias da China e dos Estados Unidos juntas, nem se transferindo a sede das Nações Unidas para Manaus, nem a Europa adotando o real em lugar do euro, ainda assim não nos veremos estampados nas capas de jornais e revistas, na escalada de matérias do Jornal Nacional.

A nossa grande imprensa prefere ver o futuro com aquele olhar perdido de Carolina, a eterna moça sonhadora que ficava na janela (e na poesia de Chico Buarque) vendo o tempo passar. Minuto a minuto, hora a hora. E nisso passa por sua janela tudo do bom e do melhor, mas só Carolina não vê. Ou se recusa a ver.

Arrisco-me a inferir que nossa grande imprensa sofre do complexo de Carolina.

***

[Washington Araújo é mestre em Comunicação pela UnB e escritor; criou o blog Cidadão do Mundo; seu twitter]

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 fabio de souza souza santos
 Enviado em: 03/01/2012 15:34:28
Olha,o ufanismo bobo vindo de um cidadão comun de pouca instrução é perdoável.Agora , dizer que o Brasil superou a Inglaterra apenas vendo estatísicas sem olhar em volta , ignorar os analfabetos funcionais, a falta de infraestrutura(viajo o país inteiro e sei disso)com esgoto a céu aberto, falta de estradas; aeroportos, portos (aqui em Vitória não há um que seja bom) achar que bolsa família é tudo que o povo precisa junto com copa do mundo e olimpíada, que aliás ja esta pronta em tempo recorde em Londres com sobras de caixa enquanto lidamos com desvios de dirigentes e politcos desonestos, que trocam a palavra honestidade por ética.Continuar com esse papo de colonizado gestado nas universidades brasileiras é lamentável.O Canada, a Austrália, e os EUA foram colonias britânicas e ao invés de choramingar derrotados pra espiar a culpa , lutaram se organizaram e se impuseram fortes que comparar o Basil com eles daria vergonha.O nível de educação deles comparado ao nosso que cultiva figuras como um guerrilheiro e um ditador de um país tão bom que as pessoas fogem de tanto medo.Não podemos achar que em quase vinte anos( quase o tempo que a Coréia do Sul levou pra sair da idade média e passar a ser um gigante tecnológico)enquanto entupimos nossas ruas com carros de montadoras estrangeiras com a desculpa de manter empregada a nossa pouco educada mão de obra barata.Mediocre [ ] !
 Ricardo Pereira
 Enviado em: 03/01/2012 16:48:39
Meu caro Fabio, tudo que vc diz é de conhecimento do mundo mineral, como diz o Mino Carta. Achar que o articulista é cego ou um parente proximo da Poliana é ser muito ranzinza. A grande vantagem de ser de esquerda e conhecer o que se passa no país é que já estamos carecas de saber dos problemas e ja propomos soluçoes a muito tempo. O que o Washington quer ressaltar é que nosso potencial de crescimento ainda é grande, comparado com o estagio atual das economias europeias pós-crise de 2008. E só um avestruz que enfia a cabeça em buraco pra nao perceber que, apesar do enorme atraso causado pelo imobilismo das nossas elites preguiçosas e por uma estrutura social herdeira do patrimonialismo iberico, a dinamica do desenvolvimento está se acelerando. Assim, é mais provavel que nós possamos atingir ,daqui a um certo período que nao vou estipular, uma condiçao equiparavel à um país desenvolvido a partir de um projeto de inclusao social, que os países sob declinio consigam retomar a antiga condiçao de protagonistas mundiais. O fato atual é que, em termos de PIB, ultrapassamos o Reino Unido. Ninguem está afirmando que atingimos o estagio de desenvolvimento -indice Gini- maior que o britanico. Mas a gente vai chegar la, se os do contra deixarem...
 f souza santos
 Enviado em: 04/01/2012 14:17:05
Olha Ricardo concordo com você em parte.Só que temos de parar de olhar pra tràs, e pensar em aproveitar a grande quantidade de jovens que temos, educa-los exigindo o maior grau de preparo, criando pesquisadores,empreededores, (intencionalmente, o processo de preparo está demorando demais)independente do passado.O dia que isso acontecer não vamos mais nos sentir quintal de ninguém, até porque, imperialismo existe de esquerda e de direita.Ser quital dos EUA ou Rússia(lembra a cortina de ferro?)não nos interessa, precisamos de instituições fortes em todas as áreas e uma população educada pra não ser manipulada de forma alguma. A população européia está velha e o mercado saturado.Vem daí parte do nosso estado atual.Acho ingênuo falar em declínio americano, por enquanto.Temos que aproveitar pra crescer por nossa conta resolvendo o principal, o básico.Temos capital e energia do povo e isso deveria estar pronto à algum tempo.Ou vamos continuar entupindo as estradas esburacadas de carros pra salvar balanço de multinacionais, ao invés de aproveitar os recurços que temos(petróleo, aço etc)faze-los aqui, vende-los empregar trabalhadores daqui,criar tecnologia e usar nosso proprio conhecimento em favor da nossa gente.Senão o governo vai continuar gastando mais em propaganda.A China está ávida por uma colonia do tamanho do Brasil.20 anos são duas gerações FHC e Lula.Menos do que merecemos.
 Rogério Ferraz Alencar
 Enviado em: 04/01/2012 15:55:45
Gosto de ler Washington Araújo, mas se tem uma coisa que me deixa invocado é essa de dizer que cada povo tem o governo que merece. E, agora, tem também a mídia que merece? Em que se baseiam afirmações como essas?
 Diego Mascarenhas
 Enviado em: 04/01/2012 19:08:56
Precisa sua análise, nem + nem -. Quanto ao governo que merecemos e a midia que merecemos entendo como sendo um raciocinio linear, do tipo "temos a midia que merecemos" pela razão de que compramos revistas como Veja e Epoca, assinamos jornais como Estadao, Globo e Folha e assim ao pagar por esses "bens culturais", merecemos esse tipo de leitura retrograda da realidade, portanto, merecemos aquilo pelo qual pagamos, nao é isso Washigton?? Já o governo que merecemos é mais evidente ainda uma vez que votamos a cada 2, 4 anos para governador, prefeito e presidente, entao, os eleitos sao eleitos por nós, a maioria dos que neles votaram. Merecemos entao o governo que temos. As minorias esperneiam e reclamam até o boi dormir, pois nao sao as minorias que elegem os governos. Concordo totalmente com o autismo da nossa grande PIG: nada que eleva o Brasil merece ser noticiado, o Brasil entra sempre pelo cano em se tratando da grande midia.

Washington Araújo

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