LIVROS & LEITORES

O que o brasileiro leu em 2011

Por Deonísio da Silva em 03/01/2012 na edição 675

A média de venda em países desenvolvidos é 13 livros por ano, por habitante. No Brasil, há poucos anos era inferior a um livro por ano, mas depois que os governos passaram a fazer compras relevantes de livros previamente selecionados, este índice subiu para dois livros anuais por habitante. Em resumo, o brasileiro lê pouco. Mas há uma contradição nisso tudo: o mercado editorial brasileiro é um dos maiores do mundo.

Foi nesse contexto que, do ponto de vista dos negócios editoriais, o autor nacional foi um desastre para as editoras em 2011, especialmente os autores do que se entende por literatura – romance, contos, crônicas, poesia, biografia, ensaio.

No romance, gênero literário por excelência, a solitária exceção foi Jô Soares, com o romance As Esganadas (Companhia das Letras, 88.391 exemplares vendidos). Esse romance é sucesso, não pela qualidade literária inegável, com tramas muito bem urdidas, mas porque o autor é conhecido do público por causa da televisão.

O livro de qualidade pode vender pouco e isso não lhe tira os méritos. De modo análogo, pode vender bastante e ter ou não ter qualidade. Jô Soares concilia qualidade literária e desempenho comercial. Que editor não quer um autor com tal perfil?

Primeiro da lista

Nos romances vindos de traduções, houve também uma solitária exceção, a de Umberto Eco, comCemitério de Praga (Editora Record, 46.420 exemplares vendidos). O autor italiano é um fenômeno mundial desde que, ensaísta e professor universitário conhecido de poucos, ganhou a mídia internacional e a lista dos exemplares mais vendidos em todo o mundo com o romance O Nome da Rosa.

Vejamos o que ocorreu com as editoras que publicaram Umberto Eco e Jô Soares. No Grupo Editorial Record, que engloba diversas editoras, o destaque de vendas para escritores brasileiros foi A Riqueza do Mundo (7.984 exemplares vendidos), da romancista, poeta e cronista Lya Luft. Mas este seu livro, destaque em vendas, não é romance e, sim, um livro que mistura crônicas e ensaios, um dos quais dá título ao volume.

Entre os 59 livros mais vendidos do grupo, apenas 23 títulos tiveram desempenho de vendas acima de 2.000 exemplares. Em compensação, os dez livros mais vendidos da Record venderam no conjunto 299.546 exemplares, média de 30.000 exemplares por livro.

O campeão de vendas da Companhia das Letras foi Steve Jobs, de Walter Iaacson. A biografia do ícone de tablets e celulares de sucesso internacional vendeu 109.658 exemplares.

Sem anúncios

Em 2011, foram lançados no Brasil muitos livros de qualidade, de autores nacionais como de estrangeiros, mas não foi dada a devida atenção ao óbvio nos negócios: o marketing.

A mídia deu sua quota de colaboração nos tropeços ao esconder livros importantes, mas é preciso que jornais, revistas, tevês, rádios, blogues etc. sejam procurados, não apenas para solicitação de apoios gratuitos, mas como parceiros de negócios editoriais.

Ouvimos, vemos e lemos anúncios de cinema, de teatro, de músicas e até de telenovelas, mas livros só muito raramente são anunciados.

***

[Deonísio da Silva é escritor, doutor em Letras pela Universidade de São Paulo, professor e um dos vice-reitores da Universidade Estácio de Sá, do Rio de Janeiro, autor de A Placenta e o Caixão, Avante, Soldados: Para Trás e Contos Reunidos (Editora LeYa)]

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 Marcos Faria
 Enviado em: 03/01/2012 10:35:41
"Jô Soares concilia qualidade literária e desempenho comercial"? Bondade do articulista, né?
 Hélio Santos
 Enviado em: 03/01/2012 13:44:22
Concordo com o primeiro comentarista: dizer que Jô Soares concilia qualidade com vendagem é questionável. Quem vem primeiro, a qualidade literária de Jô ou seus índices de vendagem? Ou não será que uma coisa (a vendagem) puxa a outra (a qualidade)? No entanto, discutir qualidade literária não é muito minha praia e por isso gostaria apenas de comentar um assunto. O autor diz: "Em resumo, o brasileiro lê pouco". Ora, já está na hora de começar a questionar esse (quase) mito. Por que? Porque o brasileiro lê relativamente bem, embora lê poucos livros. Entendeu? Quando se diz que lemos pouco, deve esclarecer que tipo de leitura está se falando. O livro impresso não é o único meio para leitura. E, por isso, acredito também que índice de venda de livros não pode ser o único para medir a quantidade de livros lidos de fato e muito menos para dizer qeu lemos pouco.
 Dante Caleffi
 Enviado em: 03/01/2012 20:11:10
O articulista esqueceu de mencionar o recente fenômeno literário: "Privataria Tucana", pertencente ao estilo "reportagem investigativa político policial", fruto de pacienciosa coleta, por seis anos, de dejetos tucanos.
 Carla Lemos
 Enviado em: 03/01/2012 22:48:16
"Governos passaram a fazer compras relevantes de livros previamente selecionados"... Qual critério para selecionar? Qual o destino desses livros? Não entendi. Alguém me explica pra que serve isso? Aumentar índices?
 Rogério Ferraz Alencar
 Enviado em: 05/01/2012 23:54:28
A mídia realmente deu sua quota de colaboração nos tropeços ao esconder livros importantes, do que é prova o Privataria Tucana. O livro vendeu muito, embora escondido pela mídia e sem campanha de marketing.///Me impressionou a média de venda de livros nos países desenvolvidos, de 13 por habitante. Os EUA, por exemplo, têm 300 milhões de habitantes. Assim, lá são vendidos, por ano, três bilhões e novecentos milhões de livros, ou 3.900.000.000. É isso mesmo?
 Luiz Carlos Seara Appel
 Enviado em: 13/01/2012 21:24:59
A indústria de livros nos Estados Unidos vendeu 2,4 bilhões de livros em 2002.

Deonísio da Silva

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