LEITURAS DE ÉPOCA
Teló, BBB e os conceitos sobre cultura
Por Sylvio Micelli em 10/01/2012 na edição 676
Os assuntos mais discutidos na primeira semana de 2012, ao menos nas redes sociais (que hoje pautam muita coisa), versam sobre a capa da revista semanal Época com o cantor (?) Michel Teló e sobre o início de mais uma edição do Big Brother Brasil transmitido pela Rede Globo de Televisão. Por sinal, apenas para constar, Época e Globo pertencem à mesma organização.
O paranaense Teló foi parar na capa da publicação por ser o “cantor, compositor, multiinstrumentista” que mais tocou nas rádios em 2011. Sua música (?) “Ai Se Eu Te Pego” vendeu horrores. Ele fez centenas de shows, ganhou um bom dinheiro e a segunda revista semanal mais vendida do Brasil achou por bem colocá-lo na primeira capa do ano. Mais que isso: destinou 12 páginas, isso mesmo, 12 longas páginas, e o apresentou como a tradução de “valores da cultura popular para os brasileiros de todas as classes”. Teló está na dele. Não tem culpa nenhuma.
O Big Brother Brasil, por sua vez, completa 10 anos de transmissão e chega à sua 12ª edição. A temática é mesma de sempre, em que pese a produção do programa tentar dar uma reciclada. Trancafia pessoas dentro de uma casa. Elas deverão viver e conviver com as diferenças ao longo das semanas. O jogo vai se desenrolando. As máscaras caem e o mais forte, ou o mais popular, ou o que der mais retorno de mídia, sagra-se o campeão. Tem gente que fez carreira artística e até política no jogo.
Para o paredão
Vamos, enfim, aos fatos.
Inicialmente, fico numa enorme sinuca de bico. Porque se eu elevar Teló e o BBB à condição de “cultura” irei contra tudo aquilo que suponho ser cultura e estarei a nivelar, por baixo, o que efetivamente entendo que seja cultura. Se eu chamar o músico e atração global de subcultura, os patrulheiros de plantão (e eles sempre estão presentes) vão me chamar de preconceituoso, quiçá burguês, e de desrespeitar a cultura, que eles assim entendem, diversificada e multifacetada do meu país. Então sobram duas óticas: Teló e BBB são estratégias de marketing para ganhar dinheiro. E muito dinheiro. Simples assim.
No caso do cantor, você pega um rapaz do interior do Paraná, jovem e simpático, que cai no gosto de jovens iguais a ele. Cria uma música (?) de pouquíssimos versos e de letra paupérrima, põe uma pegajosa melodia e usa de todos os métodos para que isso vire um hit. O resultado é infalível. Não é a primeira vez que acontece e também (infelizmente) não será a última. O Brasil passará por Teló, como já passou pelo Tchan, Créu, dancinha da garrafa e tantas coisas efêmeras que depois apodrecem nos sebos da vida.
O BBB é a catarse humana em versão compacta. Da mesma forma que se coloca uma dúzia ou mais pessoas dentro de uma casa, para que se suportem – mas no fundo sendo todos inimigos e buscando o prêmio ou fama (ou ambos) – também em nosso dia-a-dia lidamos com diversas pessoas que adoraríamos mandar para o paredão (e vice-versa), mas que a santa hipocrisia social nos (os) impede.
Três questões
Há, ainda, uma outra ótica. Essa muito mais perigosa e é dela que devemos (ou deveríamos) nos reguardar. Teló e BBB são braços fortes da grande mídia, em busca da hegemonia na comunicação, como nos ensina o mestre Vito Giannotti do Núcleo Piratininga de Comunicação. Quando a Época decreta que Teló traduz “valores da cultura popular para os brasileiros de todas as classes”, ela quer dar hegemonia ao Brasil. Dizer que somos todos felizes como os smurfs e que a música de Teló, que faz sucesso com a doméstica e com o empresário, acaba por aproximar todos nós. Olha que lindo! Um país sem preconceitos, onde todos somos rigorosamente iguais.
Por outro lado, o BBB, que (lembrando) pertence ao mesmo grupo de Época, mostra que, sob confinamento, vence o mais forte ou o que cai no gosto da população. Dessa mesma população hegemônica que discutirá nas próximas semanas quem deve ir para o paredão e ficará a bisbilhotar se um novo casal é feito na casa (e, certamente, dois são desfeitos fora). Então, todas as terças à noite, o mercador de ilusões Pedro Bial, de forma histriônica, unirá um país de norte a sul porque todos estarão (assim eles querem que seja) interessados em descobrir quem se dará mal naquela semana.
Essa hegemonia, meus caros, é o nosso grande problema. O Brasil deveria buscar a discussão de assuntos de mais importância. Claro que devemos ter lazer. Claro que o lúdico, mesmo de gosto duvidoso, é importante. E aqui não reside nenhum preconceito da minha parte. É que a hegemonia faz com que boa parte dos cidadãos acredite que tratar de temas polêmicos não lhes pertence. Mas pertence, sim. Só nesta semana posso destacar três: as questões que envolvem o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e a tentativa de abertura do Poder Judiciário, as chuvas que voltam sempre em janeiro (a natureza é perfeita) e o pouco que se fez desde a desgraça do ano anterior e as eleições de 2012 que chegam logo, e há muito que mudar.
Conceitos de cultura
Enquanto deveríamos gastar nosso tempo com isso, e reitero que não se trata de discussão de elites, a mídia hegemônica nos impõe coisas “desimportantes”. E isso também não é novidade. É o “velho e bom” panis et circenses com que a Roma Antiga brindava seu povo. A única diferença é que os gladiadores de hoje não derramam uma gota de sangue sequer.
Ao final de tudo, mantenho a esperança de que dias melhores virão. Sempre acredito que o Brasil, enquanto sociedade, ainda é novo e devemos passar por tudo isso para que possamos amadurecer e chegar, um dia, aos conceitos de cultura de países nem tão longínquos daqui como a Argentina ou o Chile.
Já estaria feliz.
***
[Sylvio Micelli é jornalista]
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| Ricardo Oliveira |
| Enviado em: 10/01/2012 12:50:41 |
| Teló é uma expressão de momento, efêmera, que a mídia se apropriou. Como é mediocre e sem conteúdo interessa as empresas dos marinhos, sempre empenhados em formatar gostos e opções de nossa sociedade. Fatos similares já ocorreram em outros países em épocas passadas próximas. Quem não se lembra da canção/dança macarena, que surgiu nos EUA, e fez com que idiotas ficassem dançando como idiotas ? O mesmo foi a mediocridade do tchan e seus similares. Teló foi cooptado pela mídia, resta seber se será enquadrado e descartado como outros incautos que se julgam artistas. Já o bbb se consagrou como a diarréia do verão, agora pelo décimo p?imeiro ano |
| josé juraski |
| Enviado em: 10/01/2012 18:13:14 |
| Não sei como vim parar nesse blog desinformado. O Michel Teló é aqui da terrinha, mas já faz muitos anos que ele faz sucesso com o grupo Tradição. Acho que antes de se falar mal de alguém, de tentar desmerecer esa pessoa, se faz necessário buscar Mais informações. O Teló foi lider de um dos mais populares grupos do Brasil, o Tradição. Foram muitos anos, acho que uns 10. Então como a pessoa responsável por este post dá a fórmula " No caso do cantor, você pega um rapaz do interior do Paraná, jovem e simpático, que cai no gosto de jovens iguais a ele. Cria uma música (?) de pouquíssimos versos e de letra paupérrima, põe uma pegajosa melodia e usa de todos os métodos para que isso vire um hit. O resultado é infalível. Não é a primeira vez que acontece e também (infelizmente) não será a última. O Brasil passará por Teló, como já passou pelo Tchan, Créu, dancinha da garrafa e tantas coisas efêmeras que depois apodrecem nos sebos da vida."...se essa é a fórmula, porque vc não usa pelo menos pra ganhar um dinheiro?^O Teló fez sucesso por ser do Sul, loiro. canta muito, têm experiência e cativa no palco. Essa é a formula. Por ter esses quesitos, foi bem aceito na Europa racista. E são pessoas de todas as idades que gostam dele. Não são parecidas com ele em nada. |
| larissa mineyah |
| Enviado em: 11/01/2012 12:51:51 |
| Já falei aqui em outra ocasião, que ELES acham que o que dá retorno, feed back, dinheiro é só isso mas existe aquele velho ditado : " Cachorro gosta de osso, mas oferece um filé pra ver se ele não troca?!" |
| Ricardo Gioia |
| Enviado em: 11/01/2012 16:29:16 |
| Concordo em gênero, número e grau, Sylvio. Parabéns pelo texto! |
| Geraldo Silva |
| Enviado em: 11/01/2012 16:36:01 |
| Caro, Sílvio. Acho que você não está acompanhando o noticiário. Pois essa questões que você destacou estão todos os dias na mídia há muito tempo, e ocupando várias páginas. |
| Aliene Ribeiro |
| Enviado em: 12/01/2012 15:33:03 |
| Caro Sylvio, Concordo com você em gênero e número, quanto ao grau, aprendi na faculdade de letras que, esse é invariável. A exemplo do que você coloca a nivel de Brasil, aqui no Pará, as coisas não são diferentes...enquanto as rádio bombam tocando músicas(?) como "...e treme, treme, treme..." e tantas outras que, me recuso a relatar aqui, os mestres da cultura popular, como o saudoso Mestre Verequete, Rei do Carimbó, morrem na miséria!!! |
| Matheus Souza |
| Enviado em: 12/01/2012 16:12:41 |
| Olá! Por favor, encaminhem o link abaixo para o autor do texto, Sylvio Micelli. Trata-se de um artigo, de minha autoria, publicado no jornal eletrônico "Brasil 247". Espero que possa dialogar com este artigo. Obrigado! http://www.brasil247.com.br/pt/247/cultura/35261/Um-cafezinho-com-Michel-Tel%C3%B3-Adorno-e-Horkheimer.htm. |
| Sarah Cunha |
| Enviado em: 12/01/2012 22:06:53 |
| "Deus do Céu"! Quem fez o comentário defendendo o Teló deveria pensar No seguinte : Se o teló é um músico tão interessante e cheio de qualidades, pq ele se sujeitaria a cantar uma "música" tão pobre? DINHEIRO. É uma pena que a arte esteja reduzida a isso. O dia que o povo tiver acesso ao filé (como disse o outro comentário) aí vai entender pq michel teló É OSSO. |
| danilo nogueira |
| Enviado em: 13/01/2012 08:32:45 |
| eu espero estar vivo para ver o brasil com a sociedade mais consciente,culta,que luta pelos seus direitos e q discutem e se ocupem com coisas importantes. |
| SIMONE PEREIRA |
| Enviado em: 13/01/2012 09:23:47 |
| creio que olhar francamente para o que se apresenta, seria um modo para revelarmos os sentidos e explicitar o que se é construído e para que. Concordo profundamente com o texto e penso que se acredito é porque ainda leio esse tipo de reflexão. |
| Kori Melo |
| Enviado em: 13/01/2012 18:38:17 |
| Os "gladiadores"contemporâneos não derramam gotas de sangue, mas a forma como expôem as suas vidas na TV, por dinheiro, mesmo quando apenas um vai levar o prêmio, é degradante e por isso tb uma forma de sangrar. Pois ao exporem suas vidas de forma tão sem conteúdo, mesmo fazendo disso um teatro, compactuam com algo q. quase nada acrescentam a quem os assiste apenas para receber migalhas de quem se locupleta com sua participação. São jovens e podem errar? Mas não deixam de ser fantoches do balcão de negócios do BBB. |
| Icaro Torres |
| Enviado em: 13/01/2012 20:58:21 |
| Infelizmente, a cultura - ou pelo menos o que é denominado como cultura - é pautada em grande parte pela mídia, que no Brasil é massivamente "representada" pela Globo. É por isso que Telós, BBBs, Neymares e tantos outros ainda vão surgir como "reis", "fenômenos", "imperadores", "gladiadores" e tantos outros termos imbecis que se possa imaginar. Enquanto houver audiência, haverá espetáculo. |
| RODOLFO FARIAS |
| Enviado em: 13/01/2012 22:45:46 |
| Só pra completar o texto,que falou da tentativa de união das classes. De onde vem o Teló mesmo?e pra que tipo de região é feito o BBB?ainda faço outra pergunta,será que tudo que no presta ou tudo que não sabe de nada,desenformados,está no nordeste mesmo?Perguntas que não quer calar! |
| Cicero Petracco Mabilde |
| Enviado em: 16/01/2012 03:37:06 |
| http://www.youtube.com/watch?v=lzefF9i_Ucw |
| André Gongora |
| Enviado em: 16/01/2012 16:51:09 |
| Sylvio, Vejo o atual cenário cultural brasileiro por uma ótica semelhante: nossa dita "cultura" tornou-se um apanhado de tendências pop importadas misturado com meia dúzia de estereótipos. A pobreza da produção "artística" é realmente assustadora: Neymar, Teló, BBB... Não culpo esses personagens, muito menos a "geração" atual (na qual me incluo: nasci em 1991); Como podemos escolher o "filé", como dito em um dos comentários, se todos nos dizem que o "osso" é melhor? A fraca natureza humana submete-se [quase] sempre à imposição do grupo que a rodeia. Grupo esse que é modelado por um cartel midiático, um oligopólio do capital, da informação, e, consequentemente, do poder. Eu pergunto, então: há esperança para nós? |
| José Ferraz |
| Enviado em: 16/01/2012 18:28:43 |
| O povo gosta de Teló, funk ou BBB porque a mídia oferece ou a mídia oferece porque o povo gosta de Teló, funk ou BBB? |
| Rosa Maria Brown dos Santos Fernandes |
| Enviado em: 17/01/2012 01:41:58 |
| Muito bom. Irei compartilhar. |
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