FINA ESTAMPA
A homofobia e o ator equivocado
Por Alexandre Vidal Porto em 17/01/2012 na edição 677
Reproduzido da Folha de S.Paulo [13/01/2012]; intertítulo do OI
Sempre houve gays caricatos, mas em que novela estão os homossexuais comuns, que têm relações estáveis e acordam cedo para trabalhar? Na década de 1920, a cidade de Berlim conheceu um dos períodos mais tolerantes da história em relação à homossexualidade. Casais do mesmo sexo eram tratados com respeito e a cultura homossexual era aceita sem constrangimentos. Essa situação propícia se manteve até a emergência de Adolf Hitler, que mandou dezenas de milhares de homossexuais para campos de extermínio, todos com um triângulo rosa no peito.
No Brasil, ocorre situação análoga. Lentamente, a conquista pela igualdade de tratamento para os homossexuais avança. Mas a luta é inglória. Quando se pensa que os avanços estão consolidados, surge um Silas Malafaia, um Jair Bolsonaro ou um Ives Gandra Martins para lembrar que a questão está longe de ser resolvida.
O último nessa linhagem de homofóbicos é o ator Marcelo Serrado, que interpreta o personagem homossexual Crô na novela Fina Estampa. Em entrevista à jornalista Mônica Bergamo, publicada na edição do último domingo deste jornal (8/1/12, “Arrasa, bii!”), Serrado expôs seu preconceito abertamente ao declarar que não gostaria de que a sua filha de sete anos visse um beijo gay na televisão. Em sua conta no Twitter, o ator negou que fosse preconceituoso. Como se não querer que uma criança assista a um beijo gay nada tivesse de discriminatório. Exatamente como a senhora que diz que não é racista, mas que preferiria que a filha não se casasse com um negro.
No armário
A maneira como Serrado educa a sua filha é problema dele. Não se condena o teor de suas declarações preconceituosas porque a homofobia ainda não é crime no Brasil. O condenável em sua atitude é a negação do óbvio. Ele tem o direito de educar a sua filha como quiser, mas não pode enganar a população tentando descaracterizar a natureza do seu preconceito. Ou seja, Serrado é um homofóbico no armário. Precisa sair dele. Serrado terá alcançado o auge da sua fama às custas da ridicularização dos homossexuais. Para ele, explorar a homofobia da sociedade brasileira deu certo. Para a Rede Globo, também, porque os índices de audiência da novela são altos. É triste, porém, que uma emissora de televisão preste tal desserviço à consolidação da cidadania.
A imagem desrespeitosa que a televisão brasileira difunde dos homossexuais pode dar lucro às emissoras e aos atores. No entanto, causa prejuízo ao Brasil como um todo porque solapa os esforços do governo e da sociedade no combate ao ódio e à intolerância. A caricatura homossexual que Aguinaldo Silva compôs e que Marcelo Serrado se presta a interpretar, por exemplo, levará anos para ser desmantelada no imaginário da nação. Produzirá discriminação e gerará violência. Em defesa da novela, poder-se-ia falar em liberdade de criação artística. No ataque, porém, é necessário recordar a noção de responsabilidade social que as redes de televisão têm o dever de preservar.
Homossexuais caricatos sempre existiram. Não temos de negá-los. Pergunto-me, no entanto, em que novela ou reality show estarão os homossexuais comuns, que têm relações estáveis, acordam cedo para ir trabalhar e levam uma vida convencional. Eles também existem. São muitos. Pagam impostos e exigem respeito.
Ah, e beijam-se também, Marcelo Serrado, como qualquer ser humano normal. Querer ocultar esse fato de sua filha ou de quem quer que seja constitui homofobia, quer você queira, quer não.
***
[Alexandre Vidal Porto é mestre em Direito pela Universidade Harvard, diplomata e escritor]
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| Luciano Milhomem |
| Enviado em: 17/01/2012 21:09:56 |
| Caro Alexandre, apenas em nome da fidelidade aos fatos, houve, sim, novelas que mostraram homossexuais comuns, com relações estáveis. Paraíso Tropical, de Gilberto Braga, por exemplo, tinha os personagens Tiago (Sergio Abreu) e Rodrigo (Carlos Casagrande). Não eram caricatos nem "panfletários". |
| Juca Serra |
| Enviado em: 18/01/2012 22:06:20 |
| Parabens Alexandre pela materia. Adorei o texto. |
| Aprigio Nogueira |
| Enviado em: 20/01/2012 17:25:54 |
| Só acredito em inclusão homossexual na mídia brasileira quando exisitirem personagens gays que não sejam apenas os caricatos, divertidos, simpáticos. Quero ver a vida real, onde, também entre os homo, existam os mau-caráter, os ladrões, os pobres, os cafonas, os adúlteros, etc. Vamos incluir sim, mas sem preconceito de ambas as partes. |
| Gerson Chagas |
| Enviado em: 21/01/2012 05:11:28 |
| Só uma pergunta : a rede globo faz alguma coisa além de prestar desserviço à Cidadania ? |
| Maria Theresa Heim |
| Enviado em: 21/01/2012 21:49:13 |
| Oi, Alexandre! Eu entendo a sua argumentação. Não consegui ler a entrevista na íntegra com o ator Marcelo Serrado, somente os trechos ressaltados na internet onde ele expõe sua opinião sobre o beijo gay e sobre homossexuais que levantam bandeiras. Os fatos estão aí expostos no que ele disse, não há como negar ou minimizar a situação. Quanto aos personagens "homossexuais comuns, com uma relação estável" que você diz não ver em dramaturgia, eu diria que você no mínimo deixou passar despercebido a Jennifer e a Eleonora de Senhora do Destino, do Aguinaldo, a Clara e a Rafaela de Mulheres Apaixonadas, o Sandrinho e o Jeferson de A Próxima Vítima e o Eduardo e o Hugo de Insensato Coração. Numa novela nada, por mais que se aproxime da realidade é totalmente verossímel. Sempre tem algo que foge do que gostaríamos de ver estampado para servir de exemplo como um comportamento respeitoso em relação esse ou aquele grupo. O beijo gay, por exemplo, até hoje só ocorreu entre duas mulheres (Calúnia; Georgia Gomide e Vida Alves e em Amor e Revolução; Luciana Vendramini e Giselle Tigre) e nem é tão difícil de ler nas entrelinhas o fator fetiche atrás da "aceitação" de ambos os lados. De mais a mais, um abraço! |
| sergio ribeiro |
| Enviado em: 22/01/2012 11:32:30 |
| Como dizem por aí, Serrado faz o máximo do mínimo: interpreta excelentemente bem o personagem, que é ridículo e constrangedor bajulando uma ricaça estúpida e criminosa. Acho pior para as crianças ver esse tipo de comportamento do que um beijo entre dois homens. |






