MÍDIA DIGITAL

Perfil do novo jornalista vai além do jornalismo

Por Cleyton Carlos Torres em 17/01/2012 na edição 677

Não há um novo jornalismo. O que há são novos hábitos de consumo informacional e, consequentemente, novas formas de se produzir um conteúdo relevante, o que resulta em novos modelos de produção, distribuição e interação quanto ao jornalismo propriamente dito. O conceito do jornalismo como função pública não mudou, mas o profissional de jornalismo vem sofrendo mutações significativas.

O perfil dos novos jornalistas – profissionais que produzem informação para um público com novos hábitos de consumo informacional – é profundamente diferente dos velhos colegas de profissão, acostumados com uma única via de comunicação. Não basta mais o domínio – ou a familiaridade – do assunto em questão; os novos jornalistas devem possuir profundos conhecimentos sobre mídia digital. Entender sobre mídia digital atualmente é quase tão importante quanto deter faculdades suficientes para trabalhar uma pauta vigente. Possuir conhecimentos sobre mídia digital engloba ter ciência sobre mercado, programação, ferramentas, técnicas de produção, fotografia, ilustração, infográficos, gestão da comunicação, marketing, entre outros fatores. O jornalista de hoje não só escreve, mas coordena todo um processo informacional.

Desde bagagens suficientes para realizar entrevistas ou produzir um artigo muito bem elaborado, o jornalista atual deve ter em mente qual o público que pretende atingir. Conhecimentos básicos sobre SEO auxiliam o profissional da imprensa a otimizar um artigo para que mecanismos de buscas, como o Google, consigam rastreá-lo. É necessário ter em mente que, uma vez aberto esse canal de comunicação, nunca mais ele se fechará. Feedbacks constantes devem ser esperados.

Profissional mais completo e curioso

O jornalista não vive só mais da escrita. Programadores e designers andam cada vez mais lado a lado com quem produz a notícia. Por isso é de fundamental importância que os jornalistas comecem a destrinchar mundos que até então eram abominados. A programação já tem sido trabalhada como parte básica das atividades dos novos jornalistas. Ter conhecimentos básicos sobre o tema ajuda o jornalista a não ser tão dependente de um programador, pelo menos em um primeiro momento.

Dependência que também deve ser exercida no campo do design gráfico. É cada vez mais comum encontrar jornalistas que produzem e realizam sozinhos todo o trabalho de diagramação e até mesmo arriscam ilustrações na reportagem. O necessário não é saber diagramar, mas ter noção de estética textual na hora de se produzir o conteúdo. Design, códigos e um bom texto nunca caminharam tão próximos.

Em um mundo cada vez mais conectado, todo jornalista deve ter em mente como funciona uma mídia digital no quesito mercado. É preciso ter noções administrativas para então enxergar todo o processo. A complexidade com que uma informação hoje é produzida é tão alta que jamais se pensou como os jornalistas iriam ter a necessidade de desenvolver características próprias em segmentos que até então eram campos obscuros e inexplorados. O perfil do jornalista atual é um profissional mais completo, que deve ser curioso e ter facilidade para se adaptar em diferentes contextos.

Metamorfose ambulante

O fascinante novo mundo que os jornalistas atuam pode ser analisado através dos currículos de tais profissionais. Ao analisarmos os perfis desses profissionais observamos que muitos trabalham diretamente com marketing, outros atuam no campo de análises de mercado, alguns se dedicam a estudar os impactos do digital na profissão, e ainda há aqueles que são tão complexos que mal conseguem se definir.

Assim como uma nova mídia incorpora características da mídia até então predominante, os jornalistas estão absorvendo propriedades das mais diferentes áreas, criando um perfil profissional transitável em praticamente qualquer campo. Desde a coordenação de um MBA em marketing até o trabalho exclusivo com programação, o jornalista tem sido um dos profissionais mais “mutáveis” da atualidade.

O novo perfil do jornalista vai muito além do jornalismo. As possibilidades de atuação são tão inúmeras que chegam a nos dar a sensação de infinitude. Aos que possuem sede por conhecimento, o campo é mais do que fértil. E ainda há aqueles que dizem que o jornalismo é uma profissão em crise. Crise? Que crise? A crise é com as empresas de comunicação e seus modelos de negócio. Já o jornalista como profissional deve continuar sendo essa metamorfose ambulante.

***

[Cleyton Carlos Torres é jornalista, pós-graduado em assessoria de imprensa, gestão da comunicação e marketing e pós-graduando em política e sociedade no Brasil contemporâneo]

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 Felipe Sabbado
 Enviado em: 20/01/2012 09:20:15
Essa necessidade do jornalista entender sobre todas estas etapas técnicas da produção da notícia não são novas exigências da profissão. São exigências do "mercado", ou seja, de patrões que desejam diminuir custos contratando menos funcionários. O jornalista de hoje tem que concentrar tanto suas energias em aprender todos esses processos técnicos de produção da notícia que acaba não tendo tempo ou esquecendo das coisas básicas da profissão, de fazer um bom jornalismo. A premissa do seu artigo é até interessante, mas acho que há um exagero de otimismo quanto ao "novo profissional".
 Jean Frederic Pluvinage
 Enviado em: 20/01/2012 10:02:33
Jornalismo, design e programação são realmente indissociáveis na mídia digital. Os leitores querem uma narrativa imersiva, que integre texto, imagens e arquivos multimídia. E construir essa narrativa exige todas essas competências.
 Ibsen Marques
 Enviado em: 23/01/2012 15:46:28
Imagino mesmo que o profissional, seja ele de qual área for, deve ter uma visão geral de todo o processo que envolve seu trabalho. Ter uma visão geral e saber navegar pelas diversas áreas relacionadas diretamente com sua profissão é coisa absolutamente necessária sempre, mas o autor parece querer substituir outros profissionais e colocar o jornalista como um faz tudo. Depois ficam irritados quando se libera a profissão a profissionais de outras áreas. Ora, se hoje já se produz um jornalismo da pior qualidade, imagino quando este quiser "abarcar o mundo", mas como disse o Felipe, isso é necessidade de mercado. Discordo quando o autor diz que não há um novo jornalismo. Há sim, hoje o jornalista já não é mais o "dono da notícia", o sabedor da verdade. A informação hoje circula em forma de avalanche e ninguém é capaz de dominar todos os assuntos de maneira que os leitores já não são tão somente leitores, mas também ajudam a compor a própria notícia com informações relevantes e muitas vezes desconhecidas pelo jornalista. Mas o autor tem certa razão, porque o principal do jornalismo não mudou, são ainda as grandes empresas de mídia que impõe a nós o "agenda setting", isto é, sobre o que vamos discutir e é óbvio que essa agenda não é isenta, mas atende a interesses bem específicos e outros que não o de manter o cidadão bem informado.

Cleyton Carlos Torres

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