JORNAL DA MANHÃ

Educação nas mídias locais

Por José Alexandre da Silva em 31/01/2012 na edição 679

A educação é uma área que desperta muitos interesses – e não me refiro ao interesse dos pais por verem seus filhos e filhas escolarizado(a)s. Na grande mídia, não se poupa matérias nem reportagens para se difundir os interesses de grandes grupos que também atuam no setor educacional. A visão de educação por eles difundida é extremamente utilitarista e equivocada e, mesmo sendo hegemônica, não se trata da única. Felizmente, ideias que dificilmente teriam espaço nessa grade mídia dispõem da internet para a difusão de peças como a entrevista, realizada com Miguel Sanches Neto, pelo Jornal da Manhã. O entrevistado, além de professor universitário na Universidade Estadual de Ponta Grossa, nos últimos anos vem firmando um nome respeitável na literatura brasileira.

Para Sanches Neto, nunca se deu importância à educação como o momento em que estamos vivendo. O que não significa em nosso país ela ser prioridade, ao contrário de atividades que definem a personalidade do brasileiro como “...ir ao bar, é jogar futebol, é carnaval”. Um elemento essencial, na visão do autor, é a valorização do professor. “...A condição do professor no Brasil é quase uma condição de pária social. Toda vez que você fala em professor, você fala de um indivíduo sofrido, das más condições de trabalho, de baixos salários, de atraso de salário, do desrespeito que ele sofre na sala de aula. Quando um grupo de alunos desrespeita um professor na sala de aula, não é que os alunos não sejam educados, não é que eles não gostem do professor; os alunos refletem o olhar que a comunidade tem do professor. [...] Estão dizendo [...] o que a sociedade pensa sobre ele.”

Uma saga literária

A afirmação de Sanches Neto é correta; a profissão não tem valor em nossa sociedade. Outro elemento que chama atenção na entrevista “...é que a escola tem que ser um lugar mais atraente. Vivemos a era do entretenimento, seja nos jogos eletrônicos, seja na televisão, e tudo isso tem um poder muito grande para fisgar a atenção dos jovens. Enquanto isso, a escola funciona no velho modelo, como um depósito de alunos entediados. No geral, é um lugar materialmente precário, feio, que não tem nenhum outro atrativo a não ser aquela pessoa que vai lá passar o conteúdo”. Nem sempre os alunos são apenas entediados; por vezes também são também violentos tornando os professores vítimas de maus tratos físicos.

Sanches Neto também toca numa questão triste ao afirmar que “... boa parte dos professores de literatura não são leitores”. Infelizmente, é verdade e não vale apenas para a literatura. Incentivado pelo entrevistador, o escritor prossegue após dizer que o que vai afirmar é polêmico: “... Eu acredito que para ser professor de Literatura você não precisa ser formado em Letras. Precisa, antes de tudo, ser leitor. Aliás, não precisa ter nenhuma formação universitária. A principal ferramenta didática para formar um leitor literário – aquele que lê romance, crônica, poesia – é o entusiasmo pela leitura. Não é uma ferramenta técnica, é sangue correndo nas veias em um outro ritmo, é o desejo incontido de comunicar um prazer conquistado. E qualquer ser humano, qualquer profissional, qualquer pessoa alfabetizada que leia, e que tenha esta chama literária, pode ser um grande incentivador da leitura, um grande formador de leitores.”

Certamente, a declaração acima pode desagradar muitos professores de Letras, inclusive colegas do entrevistado, tendo em vista que se trata também de um professor acadêmico. Mas não deixa de fazer algum sentido, muito embora seja uma punhalada naquilo que talvez seja uma das únicas coisas que os professores pensam possuir: o seu saber, ou fazer aquilo para que foi treinado. A afirmação do autor, nesse sentido, põe em evidência a encruzilhada em que os professores se encontram: profissionais desvalorizados, cujas práticas são desacreditadas mesmo por aqueles que os defendem. Enfim, sujeitos dignos de uma saga literária.

***

[José Alexandre da Silva é professor de História e mestrando em educação, Ponta Grossa, PR]

Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade e a pluralidade de idéias e de pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem a intolerância ou o crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Mensagens que não atendam a essas normas serão deletadas - e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.

ATENÇÃO: Será necessário validar a publicação do seu comentário clicando no link enviado em seguida ao endereço de e-mail que você informou. Só as mensagens autorizadas serão publicadas. Este procedimento será feito apenas uma vez para cada endereço de e-mail utilizado.

Nome

  Sobrenome
 
     
E-mail   Profissão
 
     
Cidade   Estado
 
     
Comentário   Confirme o código da imagem

1400
 
Recarregar imagem
   
   
   

 

Nenhum comentário.

José Alexandre da Silva

DE FRENTE COM GABI

A apresentadora e o padre peão

José Alexandre da Silva | Edição nº 680 | 07/02/2012 | 3 comentários

CINEMA & EROTISMO

A imagem sexuada do professor

José Alexandre da Silva | Edição nº 651 | 19/07/2011 | 0 comentários

Ver todos os textos desse autor