CASO BBB
Não vi e não gostei
Por Maria Aparecida Torneros em 31/01/2012 na edição 679
Como profissional brasileira do jornalismo há mais de 40 anos, já devia ter me acostumado com a face industrial que move a mídia ávida por faturamentos altos e gastos menores. O modelo BBB, copiado de outras redes espalhadas no mundo inteiro, tem sido alvo naqueles lugares de problemas com a justiça, tendo inclusive causado um suicídio nos EUA, de um dos seus participantes, o que resultou no estabelecimento de critérios mais rígidos e queda de audiência.
Em nossa pátria querida, ao se apresentar em sua 12ª edição, não me atraiu, nem tampouco as anteriores. Aliás, assisti, somente uma vez, à final da primeira versão, há muitos anos. Estava na casa de amigos em Campos do Jordão e me senti estranhamente bestializada pelo formato esdrúxulo daquela conquista milionária de um rapaz eleito pelas ligações pagas de um público que acompanhara a disputa do que eles chamam de “jogo”, cujas regras são baseadas em confinamento, pressão psicológica, sede de vencer e derrubar inimigos, muitas festinhas, intrigas, álcool liberado e camas para que casais “simulem” sexo, ou realizem Besteirol Bem Beatificado!
Entretanto, na semana passada, convidada a participar de um programa de uma rádio carioca de grande audiência, surpreendi-me com um dos temas daquela manhã: o tal do “suposto” estupro de vulnerável, que todos comentavam, e fui obrigada a dizer que me abstinha de opinar, pois nem vira nem acompanhara nada. Mas acrescentei que, no meu parco entendimento de ex-professora de teoria da Comunicação, considero este gênero de programação um “lixo” que nada acrescenta como exemplo de vida para uma população que, em média, tem baixo grau de escolaridade e que lhe é oferecido um conteúdo pobre – mas a indústria busca atingir seus propósitos e o faz com certa competência e enorme indignidade.
A oficialização do crime
A partir do dia dos debates, busquei ler a respeito, acompanhei então muitas opiniões e até programas específicos, um deles na TV Brasil, no domingo (22/01), todos, versando sobre a qualificação ou não da censura possível ou de algum controle consentido aos conteúdos de uma exposição de ideias, comportamentos e fatos que uma rede de televisão possa ter, considerando a tal “concessão” de serviços que lhe é facultada – e a legislação vigente, como sempre, sem regulamentação específica e com brechas mil para que se injete “lixo” na cabeça das massas, ou se dê a elas a remota chance de discernimento para escolhas educativas de qualidade.
Evidentemente que os chavões imperam nas análises, as providências legais são lentas, a emissora de TV tomou suas “medidas” paliativas e o BBB segue captando audiência do tipo “falem mal mas falem de mim”.
Lamentável ou não, o fato é que o assunto é a pauta do momento, pelo menos no que tange aos milhões arrecadados pela rede televisiva, não só com os anunciantes investidores no modelo de programa, um dos quais uma holding fabricante de bebidas, como também por convênio com operadoras de telefonia e a pontuação da audiência que cresceu a partir da repercussão do episódio, o chamado “babado forte” da sexualidade implícita na transmissão ao vivo e a cores, principalmente para aquele público pagante de pay per view, identificado em sua maioria como jovens que passam as madrugadas assistindo ao que “rola” na jaula dos BBBs.
Em torno de tanta celeuma, nem sequer tentei ver um programa. Não consigo mesmo, é uma repugnância pessoal e fisiológica; será, inclusive, objeto de questionamento ao meu terapeuta, logo que ele retorne das suas férias de verão. Pergunto-me se a mídia multifacetada, industrializada, manipulada ou manipuladora, ainda teria espaço para fatias ínfimas de um público alienado ao que se passa no seu conteúdo generalizado, do tipo que eu me considero agora... não vi e não gostei... e vou tentar não me abster da sintonia de viver num país onde a democracia da informação é conquista mas a oficialização do crime banalizado deve ainda ser investigada, apurada e punida, como li em manifesto assinado por um conjunto representativo de entidades femininas, direcionado ao Ministério Público.
***
[Maria Aparecida Torneros é jornalista, Rio de Janeiro, RJ]
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| Clodoaldo Cunha |
| Enviado em: 31/01/2012 19:31:27 |
| Sempre tentei me expressar com relação ao BBB, e nunca consegui de maneira clara, mas ....caríssima Maria Aparecida Torneros , você conseguiu dizer o que penso de maneira formidável. |
| Denise Balesteros |
| Enviado em: 01/02/2012 12:13:21 |
| O "formato" questionado, reality show, tem mil e uma maneiras de ser explorado. Acho impossível, com um pouco de boa vontade e ausência de preconceitos, alguém não se identificar com ao menos um deles. Muitos, são informativos, alguns levam a muitas reflexões e debates. Aliás, debate é uma coisa ótima e pouco aproveitada na internet. Acho que um reality, por mais bobo que seja, pode elucidar mais questões humanas do que a leitura, qdo não levada adiante, através da troca de ideias, de um bom livro. No caso do BBB, com o alcance que tem, vou ter que concordar em um ponto: o programa exibido pela Globo é um lixo. A edição é banal, simplista, novelística da maneira mais pobre possível. Mas o BBB não é apenas o que a Globo passa. E nesse tempo de convergência midiática, cada um vê o BBB que quer (ou pode). Se a Globo exibe o lixo que exibe (e escolhe as pessoas pouco autênticas que escolhe) isso se dá por dois motivos completantares: querer deixar o público ignorante e o público querer ser ignorante, não sendo nem um pouco exigido. Afinal questionamentos éticos e morais (e existem aos montes em realitys, óbvio) são muito mais chatos de ver que sarados dançando. (irônico da minha parte, claro, e assim, consigo ver um BBB bem diferente desse, graças a internet) |
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