VIDA DIGITAL
O fim da privacidade
Por Carlos Eduardo Lins da Silva em 31/01/2012 na edição 679
Uma das transformações radicais que a internet e seus subprodutos têm operado na maneira como as pessoas vivem e se relacionam se refere a um valor cultural que se estabeleceu por pelo menos dois séculos na maior parte das sociedades do mundo ocidental: o direito à privacidade.
As empresas que exploram o ciberespaço obtêm vantagens para ampliar seu faturamento em relação diretamente proporcional à sua capacidade de invadir a privacidade do maior número possível de pessoas, de modo a poder conhecer seus hábitos e lhes oferecer produtos.
Aliás, é curioso como o ambiente da internet continua sendo enxergado por milhões como o reino da liberdade, da quase anarquia, onde tudo parece ser de graça, em contraposição ao universo da cobiça, do lucro a todo custo que é a imagem dominante da chamada “velha mídia”.
A revelação do estilo de vida dos proprietários do website Megaupload, que permite que se baixem músicas, filmes e outros conteúdos sem pagar direito autoral, após sua prisão na Nova Zelândia há alguns dias, mostra que essa gente supostamente libertária sabe fazer dinheiro com grande competência, e eles nem estão entre os maiores magnatas desse mundo.
Garantia constitucional
Grande parte das pessoas nascidas a partir de generalização da internet – e em especial das mídias sociais – parece não dar a menor importância para a sua própria privacidade e está disposta a abrir mão dela por quase qualquer coisa: acesso a filmes ou músicas, cupons de ofertas, recomendações de produtos em geral ou mesmo a simples possibilidade de fazer novos contatos pessoais na rede.
Facebook e similares conseguiram conjugar exibicionismo e voyeurismo com tanta competência que milhões de adolescentes não demonstram mínima inibição ao expor a conhecidos superficiais, ou até a estranhos, intimidades em palavras e imagens sem medir consequências potencialmente nefastas para o seu futuro profissional, doméstico ou amoroso.
Esta naturalidade com que a exposição de intimidade é encarada sem dúvida recebe considerável reforço também de veículos de comunicação tradicionais, como as emissoras de TV que transmitem reality shows, uma versão turbinada do que se pratica nas redes sociais.
Quem abre mão de sua privacidade parece não entender que além das empresas que fazem dinheiro com as informações sobre si tornadas públicas, outras entidades – inclusive do Estado – podem ter acesso a elas por meio de várias formas de tecnologia.
Na semana passada, por exemplo, a Suprema Corte dos EUA decidiu que quando a polícia coloca um aparelho de GPS no carro de um suspeito para acompanhar seus movimentos, ela está infringindo o direito à privacidade, que naquele país é garantido pela Constituição, em sua emenda número 4.
Outra sociedade
O fim da privacidade – que se verifica diariamente nas mais diversas formas, como, por exemplo, na disseminação cada vez maior de câmeras de segurança em infindáveis locais públicos – é muitas vezes justificado como um preço a pagar pelo aumento da segurança pública.
Como já muita gente não dá a menor bola mesmo para a preservação da sua própria intimidade, mesmo quando a sua segurança não está em risco, é difícil que haja uma reação social significativa contra a audácia cada vez mais ousada de aparelhos do Estado para invadir a privacidade de cidadãos.
Não é possível prever que tipo de sociedade emergirá quando a maioria de seus integrantes for formada por esses que ainda são jovens e que decidiram que a privacidade não é um valor digno de ser preservado. Mas ela certamente será muito diversa daquela que existe agora.
***
[Carlos Eduardo Lins da Silva é jornalista]
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| marconi santiago |
| Enviado em: 02/02/2012 15:54:45 |
| esse comentário é em essência o teor da redação que eu fiz para o enem 2011. excelente artigo carlos eduardo. o espaço privado cada vez mais parece ser um conceito esvaziado. acontece que alguém sempre perde algo nessa estória.e nem sempre e "apenas" a privacidade. as empresas,o estado,todo dia nos monitoram cada vez mais. para quê? vejo com preocupaçao maior aonde isso vai parar. será até quando alguém nos tentar vender algum produto no nosso banheiro?ou um um auditor do imposto de renda aparecer no nosso aniversário? |
| Ibsen Marques |
| Enviado em: 04/02/2012 02:07:03 |
| O que não varia nessa questão é a forma como somos manipulados. Nos sentíamos livres antes da Internet e agora, a nova geração sente-se livre com ela, mas antes e depois, sempre fomos e somos manipulados pelos esquemas de poder. Acho incrível que as pessoas não se deem conta de que nossa liberdade na rede está condicionada a mega-corporações. Mas para isso a própria "velha mídia" contribui ao glamorizar a ascensão de jovens despojados ao poder, dando a ele um falso sentido de "Yes, we can". Só que esse "we" se reduz, antes e agora, a meia dúzia de gatos pingados. |
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