RITMO & CREDIBILIDADE

O tempo na produção da notícia

Por Dirceu Martins Pio em 31/01/2012 na edição 679

Está mais do que na hora de as empresas de jornais impressos devolverem às redações o tempo, de cinco a seis horas, na média, que o processo industrial roubou do ciclo de produção da notícia. A devolução, difícil de ser empreendida, é essencial para que os jornais recuperem os antigos níveis de qualidade e possam sobreviver ao ataque impiedoso da web.

Ninguém observa, ao que parece, o quanto faz falta o tempo roubado. Jornais que fechavam à meia-noite são fechados hoje – e a toque de caixa – às 18 e 19 horas. Não há mais tempo – e nem recursos humanos – para agregar inteligência e reflexão à produção da notícia. Editores de todas as especialidades perderam suas equipes de apoio – copidesques e redatores, chefias de reportagens –, de modo que não dispõem mais de tempo para refletir sobre o que gostariam de publicar e nem sequer sobre aquilo que publicam. O repórter vem da rua e escreve diretamente na “forma digital” e o editor mal tem tempo de ler e corrigir aquilo que foi escrito. Nada mais natural que os jornais tenham se tornado rápidos, superficiais, burocráticos, redundantes – um em relação ao outro.

A escassez de tempo, por sua vez, tem roubado a capacidade das redações funcionarem como escolas de jornalismo que sempre foram. E isto é particularmente dramático: repórteres de trajetória já longa ainda não sabem apurar, entrevistar, escrever e têm uma pálida noção da hierarquia da informação, o que tem contribuído para que a qualidade dos jornais se deteriore cada vez mais.

Matérias especiais

O que fazer, então? Tornar tudo ainda mais simples e ainda mais superficial cedendo à tendência murdochiana de introduzir entretenimento nas mídias impressas ou acreditar nas qualidades intrínsecas do papel – portabilidade, credibilidade entre várias outras – e reagir e entregar ao público produtos de alta qualidade informativa? Já escrevi em artigo anterior que o papel não será vencido por obsoletismo, mas apenas por impropriedade de uso. O jeito, portanto, é mandar Rupert Murdoch às favas e acreditar que o papel é insubstituível na missão de prover conteúdos de qualidade e profundidade ao grande público.

São poucos os caminhos destinados a alongar o ciclo de produção da notícia em redações comprimidas e engessadas pela obrigação de entregar os jornais nas bancas e aos assinantes na madrugada do dia seguinte. Um deles, presumo (é o que eu faria se responsável fosse por uma redação hoje em dia, apesar de não ter mais essa pretensão), é o da divisão das redações em duas equipes – a primeira delas estaria voltada para preparar o jornal do dia seguinte; e a segunda seria incumbida de preparar os jornais dos dias seguintes. Esta segunda equipe não trabalharia sob pressão de tempo ou de fechamento e teria liberdade para queimar até uma semana, se for o caso, na preparação de uma reportagem ou de um assunto não perecível.

Algumas redações de grandes jornais já fazem isso, timidamente, tendo como meta engordar as edições dominicais com o chamado material especial. Minha proposta é, contudo, bem mais radical: fazer com que a “segunda equipe”, estabelecida dentro de um regime de revezamento para que todos os jornalistas tenham a oportunidade de trabalhar livres da pressão e no aprofundamento dos diferentes temas, produza matérias especiais para todas as edições, ininterruptamente, sob orientação de outros editores.

Transferência de conhecimento

A fase de implantação do novo modelo pode ser de aperto. A “primeira equipe” terá de se desdobrar para fechar as primeiras edições em novo regime até que a “segunda equipe” comece a irrigar as edições com seu material especial. Nada que não seja superável pelo armazenamento prévio de “matérias de gaveta” (não perecíveis) ou pela compreensão em geral de que os jornais impressos têm de reduzir fortemente seu atual posicionamento no hard news, a notícia quente do momento, a novidade, material muito mais adequado para a mídia digital e eletrônica. Há que se compreender ainda que, em busca da qualidade perdida, os jornais teriam de interromper esse longo e tenebroso ciclo de demissões e voltar a investir na informação. O novo regime talvez exigisse a contratação de alguns novos editores e repórteres.

A inteligência aplicada à produção da notícia iria aflorar, com certeza, dentro desse novo regime, que permitiria ainda que os mais experientes tenham tempo para transferir orientação e conhecimentos aos novos jornalistas. Os jornais perderam níveis extremos de qualidade desde que o regime de produção da notícia foi transformado nessa espécie de A Noite dos Desesperados.

***

[Dirceu Martins Pio é ex-diretor da Agência Estado e da Gazeta Mercantil e atual consultor em comunicação corporativa]

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 romildo guerrante
 Enviado em: 05/03/2012 16:46:15
Pio, você tocou na ferida. Pouco tempo depois de iniciada a informatização da redação do JB, no final dos anos 80, estava eu ao lado do colega Marcos de CAstro esperando matérias para ler, corrigir, reescrever, fazer título e retrancar. A editorsa mandou o Marcos fazer título para uma matéria lá. Ele abriu a matéria e começou a ler. Ela passou de volta e disse que não era para ler, era para fazer título. Marcos ponderou: mas como fazer título sem ler? E ela: então lê só o lide. Por ali eu vi que a coisa ia arrebentar. Descíamos matérias até 21h30. Passamos a descer às 19h30. E descer matéria daquele jeito, sem leitura, sem emenda. E se o título estivesse na verdade no terceiro parágrafo? Um horror.Você acertou: a oficina ganhou mais tempo que a redação no advento da informatização. E isso começou a matar os jornais.

Dirceu Martins Pio

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