PESQUISAS ELEITORAIS

Por que Datafolha esconde líder da pesquisa em SP?

Por Ricardo Kotscho em 31/01/2012 na edição 679

Reproduzido do blog do autor, 30/1/2012; título original “Por que Datafolha esconde líder da pesquisa em SP?”, intertítulos do OI

Há modos e modos de se divulgar os resultados de uma pesquisa. Cada um escolhe a que mais lhe convém. Como nas decisões judiciais, convencionou-se dizer que critérios editorias não se discutem, em nome do direito sagrado da liberdade de imprensa.

Tudo bem, mas também não é preciso exagerar nem achar que ninguém vai perceber a manipulação.

“Disputa pela prefeitura segue estável, diz Datafolha”, informa o título da matéria publicada pela Folha de S.Paulo no domingo (29/1). O subtítulo acrescenta: “Maioria dos paulistanos desconhece os principais nomes à sucessão municipal”.

O principal destaque do texto é sobre um não candidato: Serra é o tucano mais bem posicionado, mas possui rejeição alta e tem dito a partido que não é candidato.

E daí? Até este ponto, o leitor ainda não foi informado quem é o líder na pesquisa sobre a disputa eleitoral na maior cidade do país. Este detalhe só vai aparecer no terceiro parágrafo da matéria assinada por Uirá Machado de uma forma bem enigmática:

“Um dos que apresentam melhor desempenho continua sendo Celso Russomanno (PRB), que oscila de 17% a 21 % e lidera quatro dos cinco cenários pesquisados”.

Sujeito oculto

Quais são estes cenários? Os leitores da Folha não têm o direito de saber? Deve ter sido a primeira vez, desde a criação do instituto, em 1983, que o jornal publica uma pesquisa sobre intenções de voto sem nenhum gráfico mostrando os resultados nos diferentes cenários possíveis.

Ao lado da matéria publicada discretamente na dobra inferior da página A8, aparecem apenas duas tabelas com o grau de conhecimento e o índice de rejeição dos 14 candidatos pesquisados, além da “força dos padrinhos” (49% votariam num candidato apoiado por Lula e 34% pela presidente Dilma).

Aos mais curiosos, o jornal explica: “No único quadro que Russomanno não lidera, ele fica atrás apenas de José Serra (PSDB), que aparece com 21%. O tucano, porém, tem dito a seu partido que não quer concorrer à prefeitura”.

Tem dito, não. Serra comunicou oficialmente ao PSDB, na semana passada, antes que os pesquisadores fossem a campo, que está fora da disputa eleitoral deste ano.

Um dos motivos é seu alto índice de rejeição, que oscilou de 35% em dezembro para 33% agora. Só é menor que o de Netinho de Paula (PCdoB), que foi de 32% para 35%.

Abaixo de Russomanno, se a disputa segue estável, conclui-se que surgem os candidatos Netinho de Paula e Soninha (PPS), cujo nome nem foi mencionado na matéria. Os nomes do candidato do PT, Fernando Haddad, e dos pré-candidatos do PSDB (Bruno Covas, José Anibal, Ricardo Tripoli e Andrea Matarazzo) continuam patinando na faixa de um dígito.

O único que cresceu, dentro da margem de erro, segundo o Datafolha, foi Gabriel Chalita, do PMDB, cujos índices variam entre 5% e 9% das intenções de voto.

Na análise do diretor geral do Datafolha, Mauro Paulino, publicada junto com a matéria da pesquisa, sequer é mencionado o nome de Celso Russomanno. É verdade que a eleição só acontece daqui a oito meses, e tudo pode mudar, mas se a pesquisa não serve para nada agora, melhor seria não publicá-la.

Quem é

Sem novidades sobre a eleição municipal, a Folha preferiu dar em manchete outra pesquisa, mostrando que “Polícia na cracolândia é aprovada por 82% em SP”.

Principal tema da disputa entre PT e PSDB até agora, com os dois principais partidos se atacando mutuamente em torno desta questão, a ação policial na Cracolândia ainda não mostrou efeitos na disputa eleitoral.

Nem que fosse por curiosidade, os editores da Folha poderiam ter dado um Google para informar aos seus leitores quem é, afinal, este Celso Russomanno, que lidera as suas pesquisas desde dezembro.

Celso Ubirajara Russomanno, 56 anos, é advogado e jornalista que se tornou conhecido quando apresentava um quadro no programa Aqui Agora, no SBT. Participa atualmente do programa Balanço Geral, da TV Record.

Deputado federal por quatro mandatos, destacou-se na área de defesa do consumidor. Começou no PFL, mudou para o PSDB, passou pelo PPB e estava no PP de Paulo Maluf, antes de se transferir para o PRB no ano passado. Em 2010, disputou a eleição para governador pelo PP e ficou em terceiro lugar.

***

[Ricardo Kotscho é jornalista]

Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade e a pluralidade de idéias e de pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem a intolerância ou o crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Mensagens que não atendam a essas normas serão deletadas - e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.

ATENÇÃO: Será necessário validar a publicação do seu comentário clicando no link enviado em seguida ao endereço de e-mail que você informou. Só as mensagens autorizadas serão publicadas. Este procedimento será feito apenas uma vez para cada endereço de e-mail utilizado.

Nome

  Sobrenome
 
     
E-mail   Profissão
 
     
Cidade   Estado
 
     
Comentário   Confirme o código da imagem

1400
 
Recarregar imagem
   
   
   

 

 luiz roberto silva
 Enviado em: 01/02/2012 11:29:33
O colunista "esqueceu" de dizer que o Sr. russonano é candidato do lider de uma seita religiosa. E por esse motivo não deve ter seu nome citado na grande midia. Medida essa que deve ser apoiada por qualquer cidadão de bem.
 william costa
 Enviado em: 03/02/2012 13:07:04
as informações do livro " a privataria tucana" também estão pesando.
 Ibsen Marques
 Enviado em: 04/02/2012 02:39:14
A política anda mesmo de mal a pior. Normalmente a gente deveria admirar alguém que a grande mídia execra ou oculta, mas nem isso dá mais. Celso Russomanno era um jornalista sensacionalista e se tornou um político populista. Só que a questão aqui não é de análise política, mas a falta de compromisso da imprensa com o bem informar. O slogan da imprensa deveria ser mudado de liberdade de expressão para liberdade de manipulação; corresponderia mais à realidade.

Ricardo Kotscho

MÍDIA, DEMÓSTENES & CACHOEIRA

Viúvas de Demóstenes na imprensa choram por ele

Ricardo Kotscho | Edição nº 689 | 11/04/2012 | 15 comentários

DIREITO DE RESPOSTA

Não é censura, é conquista

Ricardo Kotscho | Edição nº 685 | 16/03/2012 | 4 comentários

ALBERTO DINES, 80

Mestre Dines faz 80 anos e 60 de jornalismo

Ricardo Kotscho | Edição nº 684 | 06/03/2012 | 1 comentários

CASO JORNAL PESSOAL

Somos todos Lúcio Flávio

Ricardo Kotscho | Edição nº 681 | 15/02/2012 | 2 comentários

REGULAMENTAÇÃO PROFISSIONAL

Por que não criar um CNJ para a imprensa?

Ricardo Kotscho | Edição nº 680 | 07/02/2012 | 11 comentários

Ver todos os textos desse autor