PAQUISTÃO

TV reacende debate sobre regulamentação da mídia

31/01/2012 na edição 679

Há duas semanas, telespectadores do Paquistão assistiram a um programa inusitado no canal Samaa TV: um grupo de 15 mulheres estavam à procura de casais jovens que se comportavam de maneira “imoral” em um parque público em Karachi. Elas se aproximavam dos namorados com um verdadeiro interrogatório sobre o que estavam fazendo, se eram noivos e se os pais sabiam que estavam lá. Alguns reagiam com surpresa e iam embora; poucos respondiam. Quando um deles disse que eram casados, a apresentadora do programa, Maya Khan, pediu para ver alguma prova, como a certidão de casamento. Posteriormente, a apresentadora admitiu que ela própria não carrega a certidão de casamento, alegando que todos sabem que ela é casada.

O programa ao vivo, com uma hora de duração, provocou reações furiosas no país. Na internet e nos jornais, as táticas de Maya chegaram a ser chamadas de “caça às bruxas” e as mulheres, de “tiazinhas”. Os protestos chegaram à Suprema Corte, com um processo civil aberto por quatro ONGs locais contra a Samaa TV. “Jornalistas não têm o direito de se tornar uma polícia moral. É preciso estabelecer limites”, disse Adnan Rehmat, da Intermedia, uma das organizações que abriram a ação.

O caso reacendeu o debate sobre a regulamentação da mídia no país. A Autoridade Regulatória de Mídia do Paquistão, administrada pelo governo, mostra-se inefetiva. Por isso, as organizações de mídia querem ajuda do judiciário. No entanto, há aqueles que temem que uma intromissão judiciária possa abrir caminhos para a censura.

Disputa pela audiência

Nos anos 1980, durante a ditadura islâmica do general Mohammad Zia ul-Haq, policiais podiam pedir para ver os papeis de casamento – “nikkahnama” – de um casal, sob ameaça de prisão. A reação forte ao programa foi gerada pela preocupação de a mídia televisiva, vista na última década como uma ferramenta de força para a democracia e liberdade social, tenha se perdido por conta da disputa pela audiência. “É preocupante que a mídia esteja usando seu poder para invadir nossa privacidade, geralmente sem uma boa razão”, disse a blogueira Mehreen Kasana, que publicou uma mensagem de protesto contra o programa.

Desde a liberação do setor, em 2000, o setor televisivopassou de um canal controlado pelo governo para mais de 80 – 37 deles abordam temas nacionais ou locais. A revolução da mídia foi além das fronteiras políticas e sociais: em 2007, a cobertura jornalística desempenhou um papel central na retirada do presidente Pervez Musharraf do poder; nas últimas semanas, ajudou a proteger o país de um possível golpe militar.

Mas a TV é também um negócio lucrativo controlado por grandes e poderosas empresas. No ano passado, emissoras paquistanesas tiveram receitas publicitárias de mais de US$ 200 milhões (quase R$ 350 milhões) – 28% a mais do que o ano anterior. Entre a dura competição por telespectadores, os canais contam com medidas populistas – entre talk shows políticos desordeiros e programas “investigativos”. Alguns têm um objetivo nobre: monitorar ações de funcionários públicos, policiais e até mesmo de jornalistas. No entanto, outros seguem um estilo mais intrusivo e voyeur.

Maya defendeu-se e disse que o programa tinha o objetivo de chamar a atenção para os perigos que jovens desacompanhados enfrentam em Karachi. Ela ainda chamou os críticos de “elite que não assiste ao seu programa”. Diante de tanta polêmica, a Samaa TV emitiu desculpas formais e exibiu um vídeo da apresentadora afirmando não ter tido a intenção de ofender ninguém. Informações de Declan Walsh [The New York Times, 27/1/12].

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