MÍDIA & GEOPOLÍTICA

Uma primavera norte-americana?

Por Fábio de Oliveira Ribeiro em 31/01/2012 na edição 679

A mídia repercutiu intensamente o discurso do candidato a candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, Newt Gingrich, de que os EUA deveriam patrocinar uma “primavera cubana” na ilha de Fidel. O anticastrismo tem sido um elemento vital da vida pública norte-americana. Republicanos e democratas ainda se posicionam em relação a Cuba como se estivéssemos em plena Guerra Fria, como se Che Guevara estivesse perambulando as florestas latino-americanas para fomentar focos de resistência e guerrilhas comunistas. O mais interessante do discurso de Gingrich, entretanto, é o que ele nega e o que ele esconde.

Disse Gingrich que os EUA deveriam patrocinar uma “primavera cubana”, como se isto não estivesse sendo feito desde o princípio do bloqueio comercial imposto a Cuba. Bloqueio que, aliás, ainda está em vigor apesar do fim da Guerra Fria. De fato, a resistência ao bloqueio norte-americano parece ser um elemento essencial ao regime cubano. Povos oprimidos por outros povos tendem, naturalmente, a fortalecer sua própria estrutura política preservando-a mesmo depois que a mesma se torne anacrônica. Se a Casa Branca já tivesse normalizado a relação entre os dois países é bem provável que Cuba adotasse medidas liberalizantes inspiradas na China, onde os norte-americanos fazem excelente negócios desde os tempos de Deng Xiao-ping.

Portanto, o discurso de Gingrich nega que os EUA já têm tentado, sem sucesso, produzir uma “primavera cubana”. Também nega que esta tem sido uma excelente forma de revitalizar o castrismo na ilha. O discurso de Gingrich também tem o efeito de esconder algo ainda mais relevante para os norte-americanos.

“Cubanização da vida norte-americana”

As notícias que vêm da América não tem sido boas: crise financeira, desemprego, desespero, aumento da distância entre ricos e pobres, cidades caindo aos pedaços e até removendo postes – porque não conseguem pagar iluminação pública –, escolas públicas sem papel higiênico, inexistência de um sistema de saúde descente, a estatal venezuelana de petróleo distribuindo óleo de calefação gratuitamente para os pobres durante o inverno na região norte dos EUA. Tudo isto amplificado pelo aumento crescente e consistente de despesas militares – mesmo após o corte anunciado por Obama, os EUA continuarão gastando mais com os militares do que gastava ao fim da Guerra Fria. A precarização da vida de milhões de norte-americanos é um fato evidente e tem sido relatado diariamente pela mídia dentro e fora dos EUA. O sonho americano virou pesadelo e há uma verdadeira cubanização em andamento dentro dos EUA.

Portanto, ao invés de tentar produzir uma “primavera cubana”, Gingrich, que é candidato a presidente dos EUA, deveria dizer que defende uma “primavera norte-americana”. Mas ele não faz isto. Ele apenas esconde a sujeita norte-americana debaixo do tapete apontando para Cuba. Tudo bem pesado, o discurso de Gingrich sobre a “primavera cubana” é apenas uma maneira indireta de preservar a “cubanização da vida norte-americana”.

O povo nas praças

O que os norte-americanos precisam neste momento? Fortalecer o regime castrista em Cuba insistindo numa política externa que já provou não dar resultados, ou mudar sua política interna? Uma “primavera cubana” ou uma “primavera norte-americana”?

Os EUA são capazes de sustentar duas guerras que produziram benefícios duvidosos e manter mais de 600 bases militares fora de suas fronteiras. Mas não são capazes de colocar papel higiênico nas suas escolas públicas, manter postes de luz nas ruas, fornecer óleo de calefação para os pobres no inverno e criar um sistema de saúde decente para seu próprio povo. A “primavera norte-americana”, pelo tom dos debates republicanos, não vai chegar tão sedo, nem será proporcionada pelos políticos ávidos para produzir primaveras alhures. Pelo jeito, o próprio povo norte-americano terá que ocupar suas Praças Tahrires.

***

[Fábio de Oliveira Ribeiro é advogado, Osasco, SP]

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