MÍDIA & ÉTICA

Globo partidariza notícia e descumpre princípios editoriais

Por Rogério Tomaz Jr. em 07/02/2012 na edição 680

Reproduzido do blog do autor,2/2/2012; intertítulos do OI

Em agosto de 2011, as Organizações Globo lançaram, com grande estardalhaço, um documento intitulado “Princípios Editoriais”, contendo as “normas e condutas que os veículos do grupo devem seguir para que seja cumprido o compromisso de oferecer jornalismo de qualidade”, conforme noticiou o G1, portal do grupo. Caricatura do que representa a TV Globo.

Quem conhece minimamente o histórico dos meios de comunicação da família Marinho – no conjunto da população brasileira, é um contingente ínfimo de pessoas – sabe que os tais “princípios” não passam de alegoria, balela, conversa pra boi dormir, (mais uma) tentativa de iludir ou enganar incautos sobre a verdeira natureza do grupo Globo: uma instituição política disfarçada de empresa de informação e entretenimento.

Indo ao que interessa, na edição do Jornal Nacional – principal produto jornalístico da Globo, que é assistido todas as noites por dezenas de milhões de pessoas em todo o Brasil – de terça-feira (31/1), foi exibida uma reportagem sobre a visita da presidente Dilma a Cuba. A abordagem da emissora, que considera Cuba uma ditadura onde a liberdade é sufocada e o povo vive oprimido, não espanta e nem sequer incomoda muito, embora a parcialidade se transforme muitas vezes em desonestidade. “O diabo está nos detalhes”, diz um célebre ditado inglês.

No encerramento da matéria, o apresentador William Bonner leu nota que seria uma manifestação da Comissão de Direitos Humanos (CDH) da Câmara Federal. Para isso o JN recorreu ao 2º vice-presidente do órgão. “Sobre as declarações de Dilma, o vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, Arnaldo Jordí, do PPS do Pará, lamentou que o governo brasileiro tenha deixado a garantia dos direitos individuais fora da pauta de discussões em Cuba. O deputado disse ainda que a comunidade internacional não aceita mais a privação de direitos como a liberdade de expressão e de organização política” (William Bonner, JN, 31/01/2012).

Ética global

Curioso a emissora ter recorrido à terceira pessoa na hierarquia da CDH – a presidenta é a deputada Manuela D’Ávila (PCdoB-RS) e o 1º vice-presidente é o deputado Domingos Dutra (PT-MA) – apenas para garantir a manifestação de um deputado que faz oposição ao governo federal, embora apresentado como porta-voz de uma instituição especializada nas questões de direitos humanos. Questionei a deputada Manuela D’Ávila pelo Twitter e ela confirmou que não foi procurada pela reportagem, como eu suspeitara. E falei por telefone com o deputado Dutra, que também não foi contatado pela Globo.

O fato grave, gravíssimo, é que a emissora, ao ignorar a hierarquia institucional da Comissão de Direitos Humanos, apenas para emprestar à sua reportagem um ar de isenção e legitimidade que o órgão reconhecidamente possui, desrespeitou o órgão e, assim, assinou o atestado de partidarização da pauta, o que fere os seus princípios editoriais (leia abaixo). Pior ainda, pregou uma peça em toda a audiência do telejornal, que saiu com a impressão de ter ouvido uma declaração da Comissão de Direitos Humanos criticando o governo.

Essa é a ética da Rede Globo. Esse é o respeito pelos princípios editoriais que os herdeiros de Roberto Marinho assinaram, em nome dos seus filhos e netos. De Manuela D’Ávila e de Domingos Dutra, a Globo jamais arrancaria uma crítica à postura do governo de não abraçar a pauta da oposição, que só fala de direitos humanos em países inimigos dos EUA: Cuba, Irã, Venezuela, entre outros.

“Isenção, correção e agilidade”

Jamais você vai ouvir alguém do PSDB ou do DEM (ou algum veículo da Globo) falar – talvez algum político do PPS fale – sobre as violações de direitos humanos no Iraque, no Afeganistão, na Arábia Saudita ou mesmo nos EUA, que tem extensa folha corrida de desrespeito aos direitos básicos da sua própria população. Para a Rede Globo, prisões em massa na ocupação de Wall Street não são violações de direitos humanos. Daí a forjar uma manifestação da Comissão de Direitos Humanos da Câmara é uma prática típica dos assassinos que dizem, com as mãos ensanguentadas diante da vítima: “A culpa é do punhal.”

Seria muito importante, a bem da verdade, que a Comissão se pronunciasse a respeito dessa fraude político-jornalística. Lamentável. Mas não surpreendente. Mais uma vez, a Rede Globo mostra – ainda que sutilmente – a sua verdadeira natureza: uma organização política.

Leia alguns trechos dos Princípios Editoriais da Globo, que rejeitam a partidarização do trabalho noticioso.

“(...) Um jornal de um partido político, por exemplo, não deixa de ser um jornal, mas não pratica jornalismo, não como aqui definido: noticia os fatos, analisa-os, opina, mas sempre por um prisma, sempre com um viés, o viés do partido. E sempre com um propósito: o de conquistar seguidores. Faz propaganda. Algo bem diverso de um jornal generalista de informação: este noticia os fatos, analisa-os, opina, mas com a intenção consciente de não ter um viés, de tentar traduzir a realidade, no limite das possibilidades, livre de prismas. Produz conhecimento. As Organizações Globo terão sempre e apenas veículos cujo propósito seja conhecer, produzir conhecimento, informar. (...)
h) É imperativo que não haja filtros na composição das redações.
i) As Organizações Globo são apartidárias, e os seus veículos devem se esforçar para assim ser percebidos;
As Organizações Globo serão sempre independentes, apartidárias, laicas e praticarão um jornalismo que busque a isenção, a correção e a agilidade (...).”

***

[Rogério Tomaz Jr. é jornalista]

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 Igor M. Rodrigues
 Enviado em: 08/02/2012 15:38:19
Eu concordo com o articulista que a Globo teve o intuito de manipular a notícia (novidade?) ao procurar o político (2° Vice-Presidente da CDH) que daria opinião que eles desejavam. Afinal, somente um incauto para cair no conto dos “Princípios Editoriais das Organizações Globo”. Todavia, há que se ressaltar que as opiniões da Presidente da CDH e do 1° Vice-Presidente provavelmente seriam partidárias (afinal, tem ideologia simpática ao regime cubano), no intuito de apoiar o silêncio da Presidente da República – que também o faz por questões puramente partidárias. O fato é que o Brasil, apesar de compor o Conselho de DH da ONU e ser signatário de diversos tratados e convenções sobre direitos humanos, é covarde nas críticas – e postura contra – às violações de direitos humanos no mundo inteiro (inclusive internamente). E no governo petista, há também seleção daquilo que é tratado como “humanitário” (Cesare Battisti, por exemplo) e o que não é (Manuel Juan Cordero Piacentini, também exemplo) de acordo com sua conveniência ideológica e partidária. Essa partidarização e falta de isenção, claro, até o articulista adepto do termo “presidenta” omitiu para o leitor em seu espaço...
 Leonardo Menezes
 Enviado em: 13/02/2012 12:58:04
Caros É sempre engraçados ler sobre partidariização da Globo vis um articulista partidarizado. É algo como ver um libertino defendendo a virgindade, ou um defensor da guerra pela paz. Macaco que só olha o rabo do outro fica com cara de hipócrita. Em tempo, defender Cuba não é defender a ditadura em Cuba. O governo de Cuba ainda é uma ditadura, ainda viola direitos humanos, e esquecer disso em favor de uma visão partidária é tão errado quanto a tal manipulação da Globo. Gostar de ditaduras não é coisa de amantes da democracia. Saudações
 João Pedro Bosco
 Enviado em: 14/02/2012 03:27:55
Eu até acreditei na credibilidade jornalística da Globo. Acreditei até ver essa matéria comprada: http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/videos/t/edicoes/v/milhares-de-estudantes-de-direito-estudam-para-passar-na-prova-da-oab/1791289/ É incrível saber que até o momento nenhum canal de televisão teve a coragem de mostrar as irregularidades feitas pela FGV/OAB na 2ª fase de Direito do Trabalho no V exame de ordem, na verdade, já é difícil acreditar que desde que o exame foi unificado (a partir de 2008) quando começou a ser FGV a banca examinadora, nenhum órgão fiscalizador, seja do governo ou paraestatal tomou alguma atitude mediante as contínuas reprovações irregulares a que a mesma submeteu seus examinados. Parece ser história de perdedor dizer “não passei porque a FGV corrigiu mal a minha prova”, ou então falar que “para passar na OAB hoje em dia é mais determinante o fator sorte do que conhecimento apreendido”. E é fácil saber o porquê disso parecer só uma desculpa de quem não foi aprovado. A maioria das pessoas que nunca se submeteu ao Exame acredita que o fato dele reprovar tanto decorre da simples dificuldade da prova, ou então da péssima qualidade das faculdades particulares e isso, os responsáveis por cursinhos preparatórios ao Exame, fazem questão de propagar (afinal é o jeito de eles angariarem mais e mais alunos).

Rogério Tomaz Jr.

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Rogério Tomaz Jr. | Edição nº 678 | 24/01/2012 | 0 comentários

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