GREVE DA PM BAIANA

O dia em que a internet parou Salvador

Por Ana Spannenberg em 07/02/2012 na edição 680

Dois de fevereiro é dia de Iemanjá. Salvador para para reverenciar a rainha do mar. Mas neste 2 de fevereiro foi diferente. A cidade literalmente parou para fugir de uma suposta onda de violência manifestada por arrastões em diversos pontos da cidade, o comércio de rua dispensou seus funcionários mais cedo e fechou as portas em plena tarde, shopping centers encerraram seu funcionamento antes do anoitecer, escolas e faculdades suspenderam suas atividades.

Encastelados, usuários das redes sociais anunciavam: “Arrastão na Lapa!”, “Evitem passar pela Avenida Paralela!” e, para comprovar, fotos e vídeos postados a cada minuto mostravam as ruas da cidade vazias ou pequenos grupos de pessoas correndo. Volta e meia surgia um depoimento de alguém que pouco antes conseguira escapar ileso de um arrastão ou tentativa de assalto. A hastag #grevepmba chegou a ocupar o primeiro lugar no Trending Topics nacional do Twitter. A soterópolis vivia, sem dúvida, em estado caótico.

Apesar de parte da corporação da Polícia Militar estar em estado de greve desde a noite de 31 de janeiro, uma sensação de esquizofrenia midiática tomou o leitor, que procurou nas páginas dos principais jornais e sites noticiosos informações mais precisas sobre o que estava ocorrendo. Poucas ou nenhuma palavra a respeito. Durante a madrugada anterior, quatro agências bancárias haviam sido atacadas, nenhum ferido, nenhum furto. Ao final da tarde, alguns veículos começaram a noticiar a “onda de boataria” que apavorou a população e fez com que o governador do estado pedisse reforço da Força de Segurança Nacional e do Exército.

Ainda assim, os registros policiais do dia demonstram a disparidade das informações: o número de homicídios, quatro, foi menor do que em outras quintas-feiras do mês anterior (só no dia 12 de janeiro haviam sido registrados 11 casos), assim como o número de veículos roubados, sete (em 19 de janeiro foram 21 registros e, na quinta-feira seguinte, 18). E, diferente das semanas anteriores, no dois de fevereiro não houve tentativas de homicídio ou furtos a coletivos registrados. A soterópolis vivia um dia comum.

Tratamento diferenciado dos fatos

Fez-se a dúvida. A greve existe, é real e ocorre desde a última terça-feira, apesar de ter sido declarada ilegal pela Justiça e de abarcar apenas parte da corporação. A estratégia da PM baiana de declarar greve às vésperas de eventos que reúnem milhares de pessoas e movimentam financeiramente a cidade não é nova e tem sido recorrente. Embora nos movimentos anteriores os policiais preferissem ficar aquartelados e deixar a cidade sem policiamento, enquanto este ano as notícias demonstraram que a estratégia foi gerar o pânico, através de ações como trancar as principais vias da cidade com ônibus “tomados por homens armados” e espalhar boatos. O que chama a atenção aqui, contudo, é a ação da mídia, tanto dos veículos jornalísticos, quanto, principalmente, das redes sociais.

É preciso cuidado ao observar a situação pelos olhos da mídia, qualquer que seja ela, porque além de existirem diversos interesses político-partidários por trás desta agitação em pleno ano eleitoral, que não são o ponto principal da questão aqui, existe também um histórico da imprensa baiana em tentar gerar tumultos. Em 1919, quando os oposicionistas do governo seabrista perceberam que perderiam a eleição, qual foi a estratégia adotada e idealizada pelos jornais? Insuflar os coronéis do interior e dar início a uma “guerra sertaneja”, sobre a qual até hoje não se sabe quanto havia de realidade e quanto de criação. A população da capital ficou em pânico com as manchetes dos impressos de que tropas de sertanejos invadiriam a capital, o comércio fechou as portas e o governo pediu uma intervenção federal. A situação só se acalmou com a chegada de tropas do Exército. Ao ler os jornais de oposição e situação nos dois meses em que o movimento perdurou, mais uma vez a sensação de duas cidades distintas.

Mais recentemente, em janeiro de 2002, parte da corporação da PM entrou em greve durante dois dias e permaneceu aquartelada, sob ameaça de parar durante o carnaval. Seis meses antes, em julho de 2001, uma greve havia paralisado a cidade durante vários dias, provocando ondas de saques e arrastões por falta de policiamento, o que deixou a população apreensiva. A mídia televisiva deu tratamentos completamente diferenciados aos fatos: na Rede Bahia, aliada do então governador, a paralisação só foi noticiada após o desfecho das negociações e apenas como uma “ameaça de greve contornada pelo estado”; já na Band, emissora fortemente vinculada às transmissões do carnaval e diretamente interessada no assunto, a notícia foi divulgada desde o primeiro momento, com diversas matérias informativas e até um editorial. Novamente, duas capitais eram apresentadas aos telespectadores.

A tragédia de 1971

Sem a pretensão de minimizar os transtornos causados por uma greve da Polícia Militar em qualquer situação ou local, em tempo de redes sociais – usadas como veículo de informação – é preciso saber ponderar sobre o que se lê e avaliar a subjetividade da informação recebida porque a maioria publica informações que vivenciou ou que ouviu de pessoas próximas. A maioria das informações que circula nesses canais não é filtrada de modo algum, não passa por verificação ou qualquer técnica de apuração jornalística (até porque, se hoje, no Brasil, não se exige diploma nem para trabalhar em jornal, o que se pode exigir dos usuários de redes sociais?). Entretanto, são consumidas como notícias e replicadas pelos usuários indiscriminadamente. Quando o fato é grave, como a paralisação da PM em Salvador, a distribuição é quase viral.

As redes sociais atingem, em questão de segundos, milhares de pessoas, provocam mobilizações, orientam (ou desorientam) multidões. Há décadas, o boca-a-boca fazia movimentos surgirem do nada, mas logo se observava o que era real e o que não passava de boataria. Em 1971, na inauguração do anel superior do Estádio da Fonte Nova, em Salvador, o boato é tido por muitos como um dos motivos possíveis da tragédia que, segundo números oficiais, deixou dois mortos e dois mil feridos. A edificação havia sido projetada para “balançar” ou seja, para se adequar ao movimento do público de modo natural absorvendo os impactos. Sem saber disso, com o estádio superlotado, alguém gritou “Está balançando, vai cair!” e o pânico se espalhou entre a multidão. Algumas pessoas se jogaram lá de cima e outras foram pisoteadas pela multidão que tentava sair do local rapidamente.

Agora, com Twitter, Facebook e outras mídias instantâneas, por via das dúvidas, não custa lembrar que caldo de galinha e uma pulguinha atrás da orelha não fazem mal a ninguém (com a colaboração do jornalista baiano Gabriel Guimarães).

***

[Ana Spannenberg é jornalista, mestre em Comunicação e Culturas Contemporâneas (UFBA), doutora em Sociologia (UFBA) e professora do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Uberlândia]

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 José de Almeida Bispo
 Enviado em: 07/02/2012 17:46:38
Subproduto do total descrédito da mídia. Ninguém acredita em nada de primeira, mesmo que assunto sem muita gravidade sem antes recorrer a uma segunda opinião. E essa opinião, em geral é a da autoridade no assunto. A mídia. Ocorre que as autoridades de governo mentem; a mídia mente... em quem o cidadão então confiar?
 Ozanir Silva
 Enviado em: 08/02/2012 18:30:23
Deus salve a Bahia e também o RN Quem é o culpado por tantas mortes, assaltos, enfim o caos na Bahia? O Estado que não investiu em educação, em Policia Civil, inteligência, perícia forense, ou um grupo de PMs que estão em greve exigindo o que lhe é de direito constitucional? A atitude do governo da BA com os PMs é muito parecida com a atitude de todos os governos estaduais quando os professores entram em greve. Manipulam as informações, usam a mídia para transformar os professores em monstros. Geralmente nas greves dos professores, estes retornam para as salas de aulas humilhados, achincalhados pelo Poder Público através da mídia, num processo que, ao longo dos anos, levou o professor a uma situação delicada em sala de aula. Hoje o garoto finge que aprende, o pai finge que se importa e o professor finge que ensina. O que está acontecendo na BA é o mesmo. A violência que a mídia diz que existe na Bahia não é culpa da PM que está em greve. A violência estava lá o tempo todo, aguardando a hora certa de estourar. E não foi a PM que fez a violência surgir. É errada esta conotação. O que fez a violência surgir, na verdade foram os sucessivos Governos da BA, inclusive do DEM e agora do PT, que não priorizaram investimentos em educação e em segurança de verdade. Se tivesse investido nestes dois setores, a PM certamente não estaria em greve. Não estariam primeiro porque certamente o governo estaria pagando salários dignos e oferecendo a estrutura necessária de trabalho. E segundo não estaria porque o Governo do Estado teria cumprido o que prevê a legislação brasileira. Então: hoje o policial finge que investiga, o cidadão finge que acredita e o governo aproveita esta indiferença para pintar uma delegacia, tirar uma foto e publicar numa matéria paga com dinheiro público para dizer que está investindo em segurança pública. Isto precisa acabar. O que o governador Jacques Wagner está fazendo na BA é um tremendo erro. Não deveria ter transformado em monstro os PMs que estão em greve. São estes PMs que em poucos dias vão trabalhar nas ruas fazendo o que faziam antes: garantir a paz a população. Se a PM representa o Estado na rua, o Estado está desmoralizando o Estado. Quem merecia prisão preventiva era o Governador Jacques Vagner e não os 12 PMs que convocaram a mobilização exigindo salário digno e estrutura de trabalho. O brasileiro precisa apreender (não sei como ensinar) que o governo só vai realizar uma gestão em benefício da população quando esta aprender o exercício pleno da cidadania, ou seja, votar, fiscalizar e cobrar seus direitos, como estão fazendo os PMs. O cidadão deveria está junto com os PMs, aos professores quando estes exigissem direitos assegurados em lei negado pelo Governo. Porque no final das contas, a exigência do policial, do professor, vai se reverter em benefício a população. Para o Estado está sendo mais fácil manipular a massa contra o professor, o médico, e o policial, do que usar este mesmo dinheiro público para evitar a greve do professor, do médico do enfermeiro, do PM, enfim, de todas as outras categorias. Deus salve a Bahia e o RN também.
 Ricardo de Almeida
 Enviado em: 09/02/2012 19:57:30
Ótima matéria. Mas, apenas como um 'upgrade' ao texto, uma boa checagem de fatos pode ser feita por profissionais com formação em pesquisa. Um bom pesquisador do CNPq (ou da CAPES, ou qualquer outra financiadora de projetos de pesquisa credenciada no país), em área conexa ao jornalismo, pode checar fatos com exatidão. Qualquer um que aprendeu a citar fontes, e a diferenciá-las, também pode fazê-lo. Mas uma coisa é certa: rede social não serve como fonte de informação. Isso não se discute.
 Djaman Barbosa
 Enviado em: 13/02/2012 21:22:01
Assim como a mídia tem interesses políticos, acredito que articulistas também. De que outra forma se explica querer negar o que as pessoas presenciaram e filmaram, tão somente pq houve uma divulgação mais rápida pelas redes sociais? Que temos várias cidades dentro de Salvador, não há dúvidas. Certamente a autora, não estava nos bairros periféricos, onde lojas foram saqueadas. Será que as câmeras que filmaram foram atingidas pela histéria da população? Certamente não passou pela Av. Centenário, onde um amigo passou 3 horas com os vidros fechados presenciando assaltos aos carros parados. Alucinação de todos aqueles motoristas? E os números de mortos e roubos de cartos anunciados nos jornais, reconhecidos pela SSP, são muito maiores do que apresentados pela articulista. Se a mídia mentiu, por que a SSP nunca desmentiu? Se espalhar boatos é perigoso, a operação abafa também é. Pode ser que não tenha acontecido tudo que se publicou , mas não venham me dizer que nada aconteceu.

Ana Spannenberg

MÍDIA & MMA

Telespectador nocauteado

Ana Spannenberg | Edição nº 686 | 20/03/2012 | 1 comentários

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