GREVE DA PM BAIANA

Segurança pública e as greves

Por George Felipe de Lima Dantas em 07/02/2012 na edição 680

Quando a polícia desaparece das ruas, o resultado é a instalação da barbárie. Isso é bem conhecido no Brasil de hoje, depois dos movimentos paredistas policiais das décadas de 1990 e 2000 (incluindo Minas Gerais e Pernambuco). Em tais circunstâncias, os homicídios aumentaram subitamente, junto com outros crimes violentos, caso de saques e várias outras atividades ilícitas ocorridas na esteira das oportunidades resultantes da ausência do “braço armado” do Estado, que é a polícia. É um “Deus nos acuda”.

Nos dias atuais, movimentos paredistas estão se sucedendo em alguns estados como Maranhão, Ceará e, mais recentemente, Bahia. A situação na Bahia fica ainda mais crítica, já que se aproxima o “carnaval baiano”, mega evento que atrai milhares de turistas do Brasil e do restante do mundo. Esse grande espetáculo público depende fortemente da manutenção e mesmo incremento das atividades das instituições da “lei e ordem”. A polícia baiana, tal qual a categoria no Brasil em geral, vive um momento de distensão política típico do clima instaurado após o chamado “regime militar”. Parte dessa distensão inclui poder reivindicar salários condignos e melhores condições de trabalho e é forte a instrumentação disso por “operadores políticos” das mais diversas intenções e matizes político-partidários.

Enquanto isso, a polícia, tanto na Bahia como em outras unidades federativas, segue como instituição cada vez mais necessária, ainda que longamente negligenciada em suas demandas por condições de trabalho mais dignas e justas para essas centenas de milhares de profissionais. O próprio legislativo federal desde há muito tempo vem tratando, sem maior prioridade, de uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) visando a estabelecer um piso nacional mínimo de remuneração para a categoria policial do país como um todo. O impasse, portanto, não é maranhense, cearense ou baiano. O impasse é nacional... Impera o “Estado Democrático de Direito” a todas essas.

Nuvens escuras no DF

Mas também prevalece no país alguma “condescendência política” das forças dominantes “da situação”, com ações inequivocamente ilegais de grandes movimentos sociais. Ao que parece, deixou de estar clara, no ethos (ética, caráter, valores etc.) da nação, e mesmo de seus líderes, a diferença entre ilegalidade e reivindicação justa e legítima. Talvez na consciência dos movimentos reivindicatórios dos policiais baianos e do restante do país, seja esperado que “o pau que dá em Chico também bata em Francisco”. Será? O melhor caminho, nesse caso, parece ser o da “lógica da conciliação” (e não da radicalização...).

Nos Estados Unidos da América, ainda em 1919 e em um momento semelhante ao de hoje na Bahia, o então governador de Massachusetts, Calvin Coolidge (que depois viria a ser presidente da República), cunhou uma citação que ficou clássica naquele país: “Não há nenhum direito, por parte de ninguém, em nenhuma hora e em nenhum lugar, de fazer greve contra a segurança pública.” Moderação, portanto, tanto em 2012 no Brasil, quanto nos EUA de 1919, parece ser algo necessário – por todos os lados. Pairam nuvens escuras também sobre a segurança pública do Distrito Federal...

***

[George Felipe de Lima Dantas é professor, Brasília, DF]

Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade e a pluralidade de idéias e de pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem a intolerância ou o crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Mensagens que não atendam a essas normas serão deletadas - e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.

ATENÇÃO: Será necessário validar a publicação do seu comentário clicando no link enviado em seguida ao endereço de e-mail que você informou. Só as mensagens autorizadas serão publicadas. Este procedimento será feito apenas uma vez para cada endereço de e-mail utilizado.

Nome

  Sobrenome
 
     
E-mail   Profissão
 
     
Cidade   Estado
 
     
Comentário   Confirme o código da imagem

1400
 
Recarregar imagem
   
   
   

 

 Teócrito Abritta
 Enviado em: 07/02/2012 17:08:44
Estes políticos ganham votos fechando os olhos para a criminalidade, milícias e malfeitos de seus correligionários para agora provarem o veneno de suas desonestidades e incompetências. Em um país sério, há muito o governo federal já deveria ter decretado uma intervenção na Bahia. Mas nestas horas o que vale são os “cumpanheiros” fieis! O que esperar de uma "presidenta" que nomeia ministros com longas fichas policiais?
 Ozanir Silva
 Enviado em: 08/02/2012 12:38:34
Deus salve a Bahia e também o RN Quem é o culpado por tantas mortes, assaltos, enfim o caos na Bahia? O Estado que não investiu em educação, em Policia Civil, inteligência, perícia forense, ou um grupo de PMs que estão em greve exigindo o que lhe é de direito constitucional? A atitude do governo da BA com os PMs é muito parecida com a atitude de todos os governos estaduais quando os professores entram em greve. Manipulam as informações, usam a mídia para transformar os professores em monstros. Geralmente nas greves dos professores, estes retornam para as salas de aulas humilhados, achincalhados pelo Poder Público através da mídia, num processo que, ao longo dos anos, levou o professor a uma situação delicada em sala de aula. Hoje o garoto finge que aprende, o pai finge que se importa e o professor finge que ensina. O que está acontecendo na BA é o mesmo. A violência que a mídia diz que existe na Bahia não é culpa da PM que está em greve. A violência estava lá o tempo todo, aguardando a hora certa de estourar. E não foi a PM que fez a violência surgir. É errada esta conotação. O que fez a violência surgir, na verdade foram os sucessivos Governos da BA, inclusive do DEM e agora do PT, que não priorizaram investimentos em educação e em segurança de verdade. Se tivesse investido nestes dois setores, a PM certamente não estaria em greve. Não estariam primeiro porque certamente o governo estaria pagando salários dignos e oferecendo a estrutura necessária de trabalho. E segundo não estaria porque o Governo do Estado teria cumprido o que prevê a legislação brasileira. Então: hoje o policial finge que investiga, o cidadão finge que acredita e o governo aproveita esta indiferença para pintar uma delegacia, tirar uma foto e publicar numa matéria paga com dinheiro público para dizer que está investindo em segurança pública. Isto precisa acabar. O que o governador Jacques Wagner está fazendo na BA é um tremendo erro. Não deveria ter transformado em monstro os PMs que estão em greve. São estes PMs que em poucos dias vão trabalhar nas ruas fazendo o que faziam antes: garantir a paz a população. Se a PM representa o Estado na rua, o Estado está desmoralizando o Estado. Quem merecia prisão preventiva era o Governador Jacques Vagner e não os 12 PMs que convocaram a mobilização exigindo salário digno e estrutura de trabalho. O brasileiro precisa apreender (não sei como ensinar) que o governo só vai realizar uma gestão em benefício da população quando esta aprender o exercício pleno da cidadania, ou seja, votar, fiscalizar e cobrar seus direitos, como estão fazendo os PMs. O cidadão deveria está junto com os PMs, aos professores quando estes exigissem direitos assegurados em lei negado pelo Governo. Porque no final das contas, a exigência do policial, do professor, vai se reverter em benefício a população. Para o Estado está sendo mais fácil manipular a massa contra o professor, o médico, e o policial, do que usar este mesmo dinheiro público para evitar a greve do professor, do médico do enfermeiro, do PM, enfim, de todas as outras categorias. Deus salve a Bahia e o RN também.
 Alexandre Luiz Silva
 Enviado em: 09/02/2012 15:04:37
Fico imaginando se eu ganhasse o que um Policial Militar ganha hoje. Fico imaginando se eu ganhasse o que um professor ganha hoje. Se perguntassem o que eu faria se eu fosse dessas classes tão honrosas e tão maltratadas, eu responderia como respondeu um dia o ex-presidente Figueiredo: eu daria um tira no coco!
 Renato Ribeiro
 Enviado em: 10/02/2012 21:34:55
Acho que não existe planos de governo e sim de poder. Fala-se mal da Globo mas quando convém apoiam-se nela como a mais justa emissora a bem da verdade. A Globo não está com Dilma, está com Cabral. Onde está a guerrilheira corajosa que enfrentava a "ordem e a moral" que eram impostas ao país nos anos de chumbo? Que imagem tem ela de Lamarca, João Cândido, Fidel Castro? Todos eles, incluindo ela, feriram a ordem, a moral e a disciplina em seus respectivos tempos. Sinto-me um bobo que a vida toda ajudou a eleger o PT, que defendeu com argumentos, que criou ilusões sobre pessoas e um partido que ouviria o grito dos oprimidos, que agora usa, quando conveniente, todas as armas e artimanhas da direita. Fica aqui o meu lamento.

George Felipe de Lima Dantas

OPERAÇÃO TARTARUGA

A metáfora pode não passar de ficção

George Felipe de Lima Dantas | Edição nº 689 | 10/04/2012 | 0 comentários

MÍDIA & VIOLÊNCIA

O veneno de “amigos”

George Felipe de Lima Dantas | Edição nº 685 | 13/03/2012 | 3 comentários

COMUNIDADES TERAPÊUTICAS

Em nome dos direitos dos dependentes químicos

George Felipe de Lima Dantas | Edição nº 675 | 03/01/2012 | 2 comentários

PESQUISA SANGARI

Mais de 800 homicídios por ano em Brasília

George Felipe de Lima Dantas | Edição nº 673 | 20/12/2011 | 0 comentários

ESTRANHO SILÊNCIO

Homicídios, violência e contradições brasileiras

George Felipe de Lima Dantas | Edição nº 671 | 06/12/2011 | 0 comentários

Ver todos os textos desse autor