PROGRAMAÇÃO REGIONAL

O Brasil na TV

Por Laurindo Lalo Leal Filho em 21/02/2012 na edição 682

Reproduzido da Revista do Brasil, fevereiro/2012, apud agência Carta Maior, 13/2/2012;

O Brasil que se vê na TV está restrito ao Rio e à São Paulo, salvo raras exceções. Exibem-se nas novelas e nos telejornais lindas paisagens e graves problemas urbanos dessas metrópoles para todo o país. Fico a me perguntar o que interessa ao morador de Belém o congestionamento da Marginal do Tietê, exaustivamente mostrado pelas redes nacionais de TV? Não haveria fatos locais muito mais importantes para a vida dos telespectadores do Pará do que as mazelas da capital paulista?

No entanto, o conteúdo que vai ao ar não é determinado pelos interesses ou necessidades do telespectador, e sim, pela lógica comercial. Para o empresário de TV local, é mais barato e mais lucrativo reproduzir o que a rede nacional de televisão transmite, inserindo alguns comerciais da região, do que contratar profissionais para produzir seus próprios programas. Para as grandes redes trata-se de uma economia de escala: com um custo fixo de produção, o lucro cresce à medida que os anúncios são veiculados num número crescente de cidades.

Isso ocorre porque, como qualquer outra atividade comercial, a lógica do capital é a da concentração, regra da qual a televisão, movida pela propaganda, não escapa. Só que a TV não é, ou não deveria ser, apenas um negócio como outro qualquer. Por transmitir valores, ideias, concepções de mundo e de vida, ela é também um bem cultural, e não uma simples mercadoria. Daí, a necessidade de ser regulamentada e ter os seus serviços acompanhados de perto pela sociedade.

Novas tecnologias abrem brechas

Como concessões públicas, as emissoras têm obrigação de prestar esses serviços de maneira satisfatória, atendendo às necessidades básicas de informação e entretenimento a que todos tem direito. Caso contrário, caberiam reclamações, processos e punições, como ocorre em quase todas as grandes democracias do mundo. Aqui, além de não existirem órgãos reguladores capazes receber as demandas do público e dar a elas os devidos encaminhamentos, não temos uma legislação capaz de sustentar esse processo. Por aqui vale tudo. E quem perde é a sociedade, empobrecida culturalmente por uma televisão que a trata com desprezo. Diretores de emissoras chegam a dizer, preconceituosamente, que “dão ao povo o que o povo quer”.

Um caso emblemático da falta que faz essa legislação é o da produção e veiculação de programas regionais. Se o mercado concentra a atividade televisiva no eixo Rio-São Paulo, cabe a lei desconcentrá-lo, como determina artigo 221 da Constituição, até hoje não regulamentado. Sua tramitação é seguidamente bloqueada no Congresso por parlamentares que representam os interesses dos donos das emissoras de TV. Em 1991 a então deputada Jandira Feghali apresentou um projeto de lei estabelecendo percentuais de exibição obrigatórios para produção regional de TV no Brasil. Doze anos depois, em 2003, após várias concessões feitas para atender aos interesses dos empresários, o texto foi aprovado na Câmara e seguiu para o Senado, onde dorme um sono esplêndido até hoje.

São mais de vinte anos perdidos não apenas para o telespectador, impossibilitado de ver o que ocorre na sua cidade e região. Perdemos também a oportunidade de abrir novos mercados de trabalho para produtores, jornalistas, diretores, atores e tantos outros profissionais obrigados a deixar suas cidades em busca de oportunidades limitadas nos grandes centros. Mas se os interesses empresariais das emissoras bloqueiam esse florescimento artístico e cultural, as novas tecnologias estão abrindo brechas nessas barreiras. O barateamento e a diminuição dos equipamentos de captação de imagens impulsionaram o vídeo popular e a internet vem sendo um canal excelente de divulgação desses trabalhos.

Programação regional

Combina-se a vontade e a capacidade de fazer televisão fora das emissoras tradicionais com a necessidade do público de acompanhar aquilo que acontece perto de sua casa ou de sua cidade.

O que não descarta a necessidade da existência de programação regional nas grandes emissoras, como forma de tornar o Brasil um pouco mais conhecido pelos próprios brasileiros.

***

[Laurindo Lalo Leal Filho, sociólogo e jornalista, é professor de Jornalismo da ECA-USP e autor, entre outros, de A TV sob controle – A resposta da sociedade ao poder da televisão (Summus Editorial). Twitter: @lalolealfilho]

Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade e a pluralidade de idéias e de pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem a intolerância ou o crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Mensagens que não atendam a essas normas serão deletadas - e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.

ATENÇÃO: Será necessário validar a publicação do seu comentário clicando no link enviado em seguida ao endereço de e-mail que você informou. Só as mensagens autorizadas serão publicadas. Este procedimento será feito apenas uma vez para cada endereço de e-mail utilizado.

Nome

  Sobrenome
 
     
E-mail   Profissão
 
     
Cidade   Estado
 
     
Comentário   Confirme o código da imagem

1400
 
Recarregar imagem
   
   
   

 

 SHEILA FEYTS
 Enviado em: 25/02/2012 01:13:00
A questão é a seguinte: A mídia dá ao publico não aquilo que ele quer ver, mas a melhor forma de lucrar em cima de uma informação que gere repercussão nacional ou internacional. Dessa forma o brasileiro só estará informado se ele souber o que está ocorrendo em São Paulo e no Rio de Janeiro, as maiores metrópoles do pais e o que ocorre na sua região ou cidade talvez não é relevante para a indústria do consumo. Ou seja, o cidadão pode não saber nada sobre o que acontece em sua cidade ou região, mas se ele souber algo sobre os estados citados então estará bem informado. Onde está a democracia midiática?

Laurindo Lalo Leal Filho

TV POR ASSINATURA

Vale a pena pagar para ver TV?

Laurindo Lalo Leal Filho | Edição nº 694 | 15/05/2012 | 0 comentários

TV PÚBLICA

O desmanche da TV Cultura

Laurindo Lalo Leal Filho | Edição nº 691 | 24/04/2012 | 3 comentários

TV CULTURA & TV FOLHA

TV Folha privatiza espaço público

Laurindo Lalo Leal Filho | Edição nº 686 | 20/03/2012 | 0 comentários

REGULAÇÃO EM DEBATE

Lei de meios precisa de apoio popular

Laurindo Lalo Leal Filho | Edição nº 685 | 13/03/2012 | 0 comentários

POLÍTICA NA TV

Minutos preciosos

Laurindo Lalo Leal Filho | Edição nº 684 | 06/03/2012 | 0 comentários

Ver todos os textos desse autor