ESTADO DE MINAS
Que perfil encanta os olhos?
Por Rudson Vieira em 21/02/2012 na edição 682
“Em geral, quando escrevemos para uma publicação com a qual concordamos, pecamos por comissão, mas quando escrevemos para uma publicação de caráter contrário, pecamos por omissão” (Eric A. Blair)
A imprensa muitas vezes foge do desconforto, seja do repórter ou da fonte, mas o processo de informação exige desconforto para revelar dados além dos institucionalizados e das versões treinadas diante de espelhos. O repórter não é taquígrafo, como já disse Mauro Malin neste Observatório; todavia, às vezes o jornalista parece um cardíaco com medo da próxima emoção: a do fato revelado. Desta feita, sobram-nos pautas exageradas, como a cobertura do caso Eloá, que sem muita novidade se repete noticiário por noticiário.
A edição de quarta-feira (15/2) do Estado de Minas apresentou mais uma de suas ousadias de estrutura gráfica para tratar do cotidiano de forma fascinante, mas errou a mão. Com a bajulação ao jogador Neymar, a imprensa constrói um crack que não vicia, mas cansa. A capa do jornal trazia uma arte estilizada como um cartaz de filme (O Artista) e no caderno de esporte não economiza em mostrar o menino da vila como O Astro – artista da bola. É um produto do futebol moderno onde o talento cria mitos instantâneos e enaltece um potencial antes dele consolidar resultados (ao contrário da trajetória de Messi). A mídia precisa ser mais cautelosa ao traçar perfil de artistas, pois sua supervalorização tem sido corresponsável pelo surgimento de grossas biografias de celebridades com menos de 30 anos de idade.
Desconforto de pensar
Entretanto, alguns perfis resgatam a veia perceptiva do narrador. Na edição do dia 16/2, o mesmo Estado de Minas apresentou o perfil de um pasteleiro que trabalha próximo ao Hospital da Polícia Militar em Belo Horizonte. Uma história de superação, simplicidade e determinação, relatada de forma objetiva pelo repórter. Cidadania.
Se o futebol representa o Brasil volátil, da incoerência, o perfil do seu Zé apresenta o Brasil da persistência, que não se faz sob holofotes. A imprensa deveria instigar mais narrativas assim. Estampar um perfil que contribua para a reflexão humana e melhoria de caráter. Ler jornais deve ser mais do que apertar F5. Deve trazer de volta o prazeroso desconforto de pensar.
***
[Rudson Vieira é jornalista, Coronel Fabriciano, MG]
Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade e a pluralidade de idéias e de pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem a intolerância ou o crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Mensagens que não atendam a essas normas serão deletadas - e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.
ATENÇÃO: Será necessário validar a publicação do seu comentário clicando no link enviado em seguida ao endereço de e-mail que você informou. Só as mensagens autorizadas serão publicadas. Este procedimento será feito apenas uma vez para cada endereço de e-mail utilizado.
MEIO AMBIENTE
Rudson Vieira | Edição nº 694 | 15/05/2012 | 0 comentários
PUBLICIDADE & TRANSPARÊNCIA
Rudson Vieira | Edição nº 690 | 17/04/2012 | 1 comentários
MÍDIA & MEIO AMBIENTE
Rudson Vieira | Edição nº 687 | 27/03/2012 | 1 comentários
MÍDIA & SOCIEDADE
Rudson Vieira | Edição nº 684 | 06/03/2012 | 0 comentários
MANHATTAN CONNECTION
Rudson Vieira | Edição nº 682 | 21/02/2012 | 1 comentários
Ver todos os textos desse autor






