FORMAÇÃO PROFISSIONAL
Restabelecer a exigência do diploma é a saída
Por Valério Cruz Brittos e Eduardo Silveira de Menezes em 21/02/2012 na edição 682
O fim da exigência de diploma para o exercício da profissão de jornalista, conformado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em junho de 2009, atende aos interesses de uma minoria, contribuindo para a flexibilização das relações de trabalho e, em decorrência, o aumento do desemprego. Recentemente, o jornal Folha de S.Paulo demitiu dezenas de profissionais, sob o pífio argumento de que precisaria enxugar seu quadro funcional. Segundo o Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, a alegação é injustificada, pois o faturamento daquela empresa só tem aumentado nos últimos anos.
Estas práticas contribuem para a fragilização da categoria, propiciando aos empresários da comunicação realizarem acordos trabalhistas cujo interesse é assegurar lucros crescentes. O piso salarial do jornalista, no estado de São Paulo, corresponde a R$ 1.940,00 reais, por cinco horas diárias de trabalho. Se tal valor é baixo, a incorporação de freelancers e a utilização de estagiários implicam uma economia ainda mais significativa nos gastos com mão de obra qualificada. Obviamente, isto não atende aos interesses da população, pois é reforçada a massificação desta atividade, cada vez mais menosprezada pelos donos da mídia.
Mudança de foco
O discurso hegemônico procura introjetar no senso comum a ideia de que, como todos são livres perante a lei, não pode haver restrições quanto à produção de conteúdos. Segundo esta perspectiva, qualquer tentativa de cercear este direito seria uma afronta à liberdade de expressão e de imprensa, o que evidencia apenas o que há de superficial neste debate. Os jornalistas profissionais não são contrários à livre produção de conteúdos, sobretudo considerando a crescente popularização da internet e a pluralidade de blogs e plataformas de distribuição de vídeo, que, em alguma medida, contribuem para democratizar a comunicação.
Acontece que muitas produções pretensamente alternativas apenas reproduzem a lógica da indústria cultural, sem romper com seu discurso e reafirmando seu padrão tecnoestético. Já a luta pelo retorno da exigência do diploma pode contribuir para assegurar o contrário, legitimando um grande número de profissionais que participa de projetos comunitários e emprega sua força de trabalho na produção de conteúdos verdadeiramente alternativos e na formação de repórteres populares. Isso busca subverter a pseudoverdade absoluta vendida pela grande mídia e apresenta um olhar diferenciado dos fatos.
Formação em série
É importante salientar que a formação superior precisa ser apurada, inclusive em comunicação. Dados do Indicador de Alfabetismo Funcional (INAF) indicam que, em 2009, 15% dos jovens brasileiros não tinham habilidades de leitura e escrita coadunadas com as exigências de suas respectivas escolaridades. Por isso, a necessidade de formação acadêmica, considerando seus problemas e perspectivas, abrangendo a discussão dos princípios do Jornalismo, que, se conduzida por profissionais sérios e comprometidos com os desafios da comunicação, pode incentivar o desenvolvimento da criatividade e da prática investigativa.
Nesse sentido, é preocupante perceber que a proposta dos empresários, permitida pelo STF, está embasada na possibilidade de formação fornecida pela empresa. Os próprios “manuais de redação” representam meras cartilhas de uniformização e regramento, as quais precisam ser seguidas pelo “jornalista”, ao produzir uma matéria. Não obstante, ser jornalista é mais do que isto. Assim, quando os empresários da comunicação colocam-se frontalmente contra a exigência do diploma estão contribuindo para a manutenção do discurso único, mesmo ao tergiversarem e insinuarem que estão agindo em nome do interesse público.
As Propostas de Emenda à Constituição (PECs) que restauram a exigência de diploma de jornalista, em tramitação na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, constituem-se em movimentos de suma importância para o país. Várias cidades jáaprovaram projetos de lei que obrigam os órgãos públicos a contratar somente jornalistas com graduação na área para o exercício da profissão. Embora ainda seja pouco, estes movimentos sinalizam que a discussão pode acirrar-se. A batalha está só começando e, tal qual tem ocorrido com o debate sobre a criação de um novo marco regulatório para a mídia, está longe de se esgotar.
***
[Valério Cruz Brittos e Eduardo Silveira de Menezes são, respectivamente, professor titular no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos e mestre em Ciências da Comunicação pela mesma instituição]
Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade e a pluralidade de idéias e de pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem a intolerância ou o crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Mensagens que não atendam a essas normas serão deletadas - e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.
ATENÇÃO: Será necessário validar a publicação do seu comentário clicando no link enviado em seguida ao endereço de e-mail que você informou. Só as mensagens autorizadas serão publicadas. Este procedimento será feito apenas uma vez para cada endereço de e-mail utilizado.
| cacalo kfouri |
| Enviado em: 21/02/2012 09:23:33 |
| saída pra quê? pra mais semianalfabetos com paperzinho na parede? basta ler os jornais, os sites, é assustadora a quantidade de erros de português e de textos sem pé e nem cabeça. |
| Celso Contaifer |
| Enviado em: 21/02/2012 12:43:12 |
| Não vejo como a não-exigência de um diploma reforça a manutenção do discurso único. Vejo até o contrario: a existência de articulistas com formações diversas, representando todos os segmentos da sociedade, tende a diversificar o discurso. Acho que aqui falou mais alto o corporativismo. |
| Reinaldo Carneiro |
| Enviado em: 22/02/2012 11:11:42 |
| A exigência fere artigos constitucionais? Quais? O momento é de prudência e o povo não pode ser manipulado sobre esse delicado tema. Afinal, é preciso que a categoria mantenha diálogo constante sobre outros temas de maior relevância. Dizer claramente quais são as práticas ilegais e quem são os criminosos. |
| Sergio de A. |
| Enviado em: 23/02/2012 00:39:47 |
| 'Tô' com o Cacalo e não abro. |
| michel chad |
| Enviado em: 26/02/2012 10:30:02 |
| Ao comprarmos um jornal ou revista, nós estamos adquirindo informações que julgamos serem úteis. Passatempo, higiene mental,ampliação da nosso visão de conjunto do mundo são alguns dos objetivos dos leitores. O jornalismo impresso é antes de mais nada um bem de consumo que visa o lucro. Nada de errado nesse posicionamento, desde que respeite os valores éticos e legais que demandam a atividade. A informação gratuita on line é uma realidade sem volta que exige o filtro dos leitores na escolha dos sitios a serem consultados. Penso que o desejo da maioria dos leitores é que profissionais qualificados realizem as reportagens jornalísticas. Meu médico, meu dentista, meu advogado são formados. Por que deve ser diferente com o jornalista, que diretamente influência milhares de pessoas com seus artigos? |
| Luiza Sansão |
| Enviado em: 02/03/2012 10:51:38 |
| É justamente por estes motivos, muito bem colocados por Valério Cruz Brittos e Eduardo Silveira de Menezes, que defendo veementemente a exigência do diploma para o exercício do jornalismo e a regulamentação da mídia. Parabéns ao Observatório pela luta competente contra o mal jornalismo! |
LIBERDADE DE EXPRESSÃO
Dois pesos e apenas uma medida
Valério Cruz Brittos e Eduardo Silveira de Menezes | Edição nº 669 | 22/11/2011 | 2 comentários
TV & SOCIEDADE
Estereótipo e debilidade do humor televisivo
Valério Cruz Brittos e Eduardo Silveira de Menezes | Edição nº 663 | 11/10/2011 | 5 comentários
PLANETA DIGITAL
Sobre revoluções e democracias
Valério Cruz Brittos e Eduardo Silveira de Menezes | Edição nº 654 | 08/08/2011 | 0 comentários
Ver todos os textos desse autor






