CUBA
Yoani Sánchez, a direita e a esquerda
Por Eugênio Bucci em 21/02/2012 na edição 682
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 9/2/2012; intertítulos do OI
A blogueira cubana Yoani Sánchez, também colunista do Estado de S.Paulo, virou uma celebridade mundial. A imagem da dissidente que jamais conseguiu autorização de seu governo para sair do país, nem mesmo uma viagem de poucos dias, virou um símbolo eloquente do limite estreito, muito estreito, que confina as liberdades individuais em Cuba. Nessa condição, ela é manchete permanente. Como se sabe, todas as manchetes servem a interesses e Yoani Sánchez também serve, mesmo que involuntariamente. Ela tremula como um estandarte nas mãos dos opositores do regime dos irmãos Castro, principalmente dos opositores de direita – pois é também possível uma oposição à esquerda, como logo veremos.
Com frequência os relatos sobre as desventuras da blogueira vêm junto com um discurso que procura caracterizar a ditadura cubana como a tragédia inevitável, fatal, de qualquer sonho socialista. Esse discurso se vale de Yoani para mentir, o que é bem fácil constatar. Todas as mudanças sociais vieram embaladas por ideais de igualdade, como a Revolução Francesa, ou de igualdade de oportunidades, como a Revolução Americana. Mesmo agora, a partir do final da 2ª Guerra, inúmeros governos declaradamente socialistas se sucederam na Europa, em perfeita convivência com a sociedade de mercado, sem que isso acarretasse uma degeneração de corte totalitário. Tanto é assim que, no mundo contemporâneo, o ideário socialista de perfil não autoritário foi acolhido como proposta legítima e até mesmo necessária à normalidade democrática.
Portanto, é falso o discurso direitista que atribui os padecimentos (reais) do povo cubano ao DNA de qualquer projeto de sociedade sem pobreza. A construção da tirania em Cuba não tem origem na rebeldia dos que se insurgiram contra a ditadura de Fulgencio Batista, mas na conformação do Estado aos moldes ditados pela União Soviética.
Presentes de tecnologia digital
Fora isso, o autoritarismo em Cuba tem sua origem na esquerda, sem dúvida, mas, em matéria de autoritarismo, a direita delinquiu muito mais em outros países. Avesso a essa ululante evidência, o discurso direitista instrumentaliza a figura de Yoani Sánchez para alardear que toda plataforma socialista está fadada ao totalitarismo e à escassez – e que só há liberdade num ambiente baseado mais no mercado do que na justiça social, mais na ostentação do que na dignidade humana.
Oportunista, esse discurso nunca menciona o bloqueio que os Estados Unidos impuseram à ilha há exatos 50 anos (ele teve início no dia 5 de fevereiro de 1962). A própria Yoani, é interessante notar, não vai por aí. Em mais de uma ocasião ela pediu em seu blog a suspensão desse embargo “absurdo”. Ao mesmo tempo, ela cuida de alertar para algo que é profundamente verdadeiro: o bloqueio pune o povo, é verdade, mas, perversamente, convém aos irmãos Castro, que se valem dele para culpar os Estados Unidos por tudo o que acontece de ruim. Tanto que, para ela, o fim do embargo seria “o golpe definitivo contra o autoritarismo sob o qual vivemos”.
Há poucos dias, uma vez mais, Yoani teve negado o seu pedido para viajar para o Brasil (pela 19ª vez, segundo sua contagem). De novo, foi notícia. Ela queria vir ao lançamento do documentário Conexão Cuba-Honduras, de Dado Galvão, em que aparece como entrevistada. Sem a presença de sua convidada mais ilustre, o lançamento foi adiado.
Enquanto isso, a injustiça prolonga-se em Havana. Muitos, hoje, no Brasil e em Cuba, apoiam a ditadura cubana. Até mesmo no caso de Yoani, a quem acusam de ser remunerada por organizações de direita e de ganhar de presente recursos avançadíssimos de tecnologia digital para fazer contrapropaganda. Logo, não movem uma palha pelos direitos dela.
Opositores defendem Yoani
O curioso é que, mesmo se fossem verdadeiras, as acusações não poderiam justificar o arbítrio. O direito de ir e vir é um direito fundamental da pessoa humana, e não apenas de quem concorda com o governo. Em qualquer democracia os direitos fundamentais de um cidadão não estão condicionados às opiniões dele. Em Cuba, porém, é assim que funciona. E ainda há os que, em nome dos ideais de esquerda, batem palmas para a opressão, dizendo que na ilha não há fome, não há morador de rua, todos têm escolas e hospitais à vontade e que, diante disso, a falta de liberdade é um reles detalhe. Outra vez: mesmo se aceitarmos como verdadeira essa afirmação – e não há comprovações empíricas de que ela seja realmente verdadeira –, mesmo assim ela não tem validade política, pois o suposto atendimento das necessidades materiais não compensa a falta de liberdade. Aliás, lá mesmo, em Cuba, na prisão americana de Guantánamo, os prisioneiros fazem suas refeições diariamente, entre uma tortura e outra, além de contarem com médicos e dentistas de plantão. Isso não significa que vivam “numa sociedade justa”. Eles vivem encarcerados, isso sim. Comida, cama, escola e hospital não são suficientes para que se tenha justiça social, paz e democracia. E sem liberdade constituem a negação dos ideais de igualdade.
Por esse ângulo é que podemos entender o lugar de uma oposição de esquerda à tirania dos irmãos Castro, uma oposição que não se confunde com as causas da direita. Ela não se serve da falta de liberdade como pretexto, mas toma a liberdade como fim. Para ela, a livre comunicação das ideias, “um dos mais preciosos direitos do homem”, segundo a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, não é meramente um capricho liberal, mas uma conquista de toda a humanidade, na exata medida em que os direitos sociais não beneficiam apenas um ou outro sindicato, mas toda a sociedade. Ao romperem com a democracia, os ditadores em Cuba traíram o sonho que um dia representaram. Por isso, também os opositores de esquerda defendem os direitos de Yoani Sánchez.
***
[Eugênio Bucci é jornalista e professor da USP e da ESPM]
Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade e a pluralidade de idéias e de pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem a intolerância ou o crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Mensagens que não atendam a essas normas serão deletadas - e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.
ATENÇÃO: Será necessário validar a publicação do seu comentário clicando no link enviado em seguida ao endereço de e-mail que você informou. Só as mensagens autorizadas serão publicadas. Este procedimento será feito apenas uma vez para cada endereço de e-mail utilizado.
| fábio de oliveira ribeiro |
| Enviado em: 22/02/2012 08:28:08 |
| Qual é mesmo a importância desta moça? Cá tem sido fornecer combustível para a oposição brasileira. Nada mais. |
| Sergio Luiz Fernandes |
| Enviado em: 22/02/2012 17:51:32 |
| Ô, senhor Fábio... A falta de liberdade no ... dos outros é refresco? |
| José Cristian Pimenta |
| Enviado em: 24/02/2012 20:03:00 |
| Eu defendo o direito dessa agente da CIA permanecer em Cuba. |
| Sergio Luiz Fernandes |
| Enviado em: 27/02/2012 14:08:41 |
| Inacreditável! Em qualquer democracia as pessoas têm direito à opinião. Pode ser sobre um tema muito sério, como a implantação de um novo imposto ou uma abobrinha qualquer, sobre futebol, BBB ou uma fofoca televisiva. Em Cuba, se a blogueira Yoani Sánchez expressa uma opinião desfavorável ao maravilhoso, estupendo, magnífico e excelso regime cubano, pronto: é financiada por agentes estranhos a pacífica índole cubana ou apenas ponto de pauta para o momentos em que a imprensa tupiniquim está sem assunto. |
| Sergio Luiz Fernandes |
| Enviado em: 27/02/2012 14:11:53 |
| Retificando: os momentos |
| Ronan Costa |
| Enviado em: 27/02/2012 20:23:49 |
| Será que discutir como os direitos humanos são tratados em Cuba não direciona o debate para questões ideológicas? As prisões que os EUA mantém, as invasões ao Iraque, mesmo sem aprovação total da ONU, num movimento que não apresentou provas concretas sobre a ligação da Al quaeda com Sadam (fato tratado de forma bastante superficial pela grande mídia) não representa violação dos direitos humanos? O Brasil, com tanta discrepância entre pobres e ricos, de uma justiça morosa e leis flexíveis, também não são violação dos direitos humanos? O que dizer sobre o parecer emitido em abril de 2011, no site da Anistia Internacional (órgão que defende as liberdades humanas e que não é conivente com o regime cubano), que “no continente americano, o país que menos viola os direitos humanos ou que melhor os respeita é Cuba”? É complicado dar créditos a uma pessoa, ou jornalistas, ou a imprensa de uma forma geral, quando informações como essa do parecer da Anistia Internacional não são divulgados. A impressão que fica para aqueles leitores mais atentos, é que existe por trás desse alvorosso sobre a situação de Cuba, uma manipulação de fatos. Quero registrar aqui que não sou a favor de nenhum regime totalitário, mas não dá para discutirmos sobre direitos humanos em outros países se antes não atentarmos para nossa casa, nosso país. E DÁ-LHE |
| Cristiana Castro |
| Enviado em: 28/02/2012 02:56:50 |
| Cuba tem problemas como qq outro país do mundo e, talvez, até mais; é uma ilha que vive ( sobrevive ) sob embargo imposto pela maior nação capitalista do mundo. A democracia estadunidense, é uma imposição ao mundo; quem não quiser ser democrata nos seus moldes, sofra com guerras ou sanções econômicas. Cuba tem problemas, não na área de saúde e educação mas saneamento, habitação, transporte, baixos salários ( exceto o pessoal do turismo ) e aqui vale lembrar os atentados aos Meliah, visando desestimular o turismo a Ilha. Mas o assunto é Yoani Sánchez, a mulher que fala pela Cuba oprimida, via blog; a questão é, nenhum cubano, sequer, ouvir falar de Yoani Sánchez pq internet em Cuba é, praticamente, inexistente ( nos hotéis é caríssima até para os turistas ). Yoani fala por quem e para quem? Ela posta de dentro da ilha; é vendida pelo Ocidente como porta-voz de um povo que não a conhece e, em seu nome, exige benefícios para si própria. Liberdade de expressão, ela tem, aliás, creio ser Yoani, a única pessoa em Cuba a ter um blog e dinheiro para isso. Seria muito bom, que a porta-voz cubana, ouvisse o seu povo, andasse pelas ruas e mostrasse ao mundo, o que os cubanos precisam, de fato. Saneamento, agricultura ( logística e implementos, material de construção, produtos de toda a sorte... Yoani Sánchez fala por ela mesma e não por Cuba. Para |
PUBLICIDADE OFICIAL
Eugênio Bucci | Edição nº 695 | 22/05/2012 | 2 comentários
PROFISSÃO PERIGO
Eugênio Bucci | Edição nº 693 | 08/05/2012 | 2 comentários
MÍDIA, DEMÓSTENES & CACHOEIRA
Imprensa livre é imprensa transparente
Eugênio Bucci | Edição nº 691 | 24/04/2012 | 5 comentários
HIDRA MODERNA
Eugênio Bucci | Edição nº 689 | 10/04/2012 | 2 comentários
HISTÓRIA DA IMPRENSA PAULISTA
Eugênio Bucci | Edição nº 687 | 27/03/2012 | 0 comentários
Ver todos os textos desse autor






