O DESATINO DA RAPAZIADA

Entre dois séculos

Por José Castello em 26/06/2012 na edição 700

Reproduzido do Suplemento Literário de Minas Gerais, edição especial “Reflexões sobre o jornalismo cultural”, Belo Horizonte, 2012; intertítulos do OI

Algumas impressões me assombram durante a releitura de O desatino da rapaziada, a magnífica crônica de Humberto Werneck (Companhia das Letras, 1992). Elas me obrigam, por contraste, a pensar, com indisfarçável incômodo, no século solitário em que vivemos. Elas o iluminam melhor, lhe emprestando uma forte – ainda que brutal – nitidez. Reafirmam a ideia de que é impossível contemplar o presente sem considerar a mancha do passado. Reafirmam a ideia de que o presente, mesmo não passando de uma ilusão, é tudo o que temos.

Lição que só um homem com alma de cronista, como Werneck, consegue nos transmitir. Seu livro é uma estranha crônica do passado – já que, mais que reconstruir uma geração perdida, ela realça, por contraste, o vazio de nosso presente. É uma crônica, em consequência, que nos enche de vitalidade – uma aposta certeira na parceria apaixonada, no valor da intimidade e da aventura.

Em seu livro, Werneck faz um inventário de uma geração fabulosa de escritores que, no meio século que vai de 1920 a 1970, agitou a vida de Belo Horizonte. Eram tempos em que os escritores andavam em bandos, cresciam juntos e compartilhavam os mesmos sonhos. Sabemos bem o quanto a maior parte dos poucos grupos literários de hoje se afunda na mágoa, na inveja, no ressentimento. Naquele tempo, não. Os jovens não se uniam para resmungar do passado, mas para curtir a aventura do futuro. E, mais ainda, para festejar, numa grande fuzarca, as delícias do presente.

Literatura, uma atitude

Vou, por precaução, ao Aurélio, que define fuzarca como “farra, folia, pândega, troça”. Mas também – e aqui começam meus problemas – como “desordem, bagunça, confusão”. Werneck não podia ter escolhido palavra melhor para sintetizar o paradoxal espírito de grupo que moveu os jovens escritores mineiros da primeira metade do século 20. Há, nele, uma ponta de heroísmo, na medida em que assinala um estado contraditório em que bem e mal não se distinguem com nitidez, e de certo modo se completam.

O exemplo mais emblemático desses farristas é, como define Werneck, copiando uma máxima de Otto, o “quarteto de um íntimo apocalipse”, formado por Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, Paulo Mendes Campos e o próprio Otto Lara Resende. Infernal quarteto, que soube misturar não só jornalismo e literatura, mas literatura e existência; e isso com um despudor e uma ferocidade que hoje, talvez, se assemelhassem ao fanatismo. Foram jovens fanáticos pelo desejo de viver intensamente. E ainda mais: de fazer da escrita um pedaço da vida.

Fixo-me neste célebre quarteto porque nele se encontra não sei se o coração, mas os nervos do livro de Werneck. O século 21, com todos os seus avanços e libertações, já não estimula uma relação tão íntima entre quatro homens. Quatro jovens perdidos em um tempo em que a literatura e o jornalismo guardavam uma proximidade feroz. Tempos em que os jovens cultivavam os grandes mestres, como foi para os quatro o jornalista e crítico João Etienne Filho.

Etienne era só poucos anos mais velho que os quatro. Um homem que dedicou 34 anos de sua vida de jornalista a O Diário, publicação que sobreviveu até a década de 1970. Mas o lugar de transmissão era mais íntimo: o quarto do João Etienne em uma pensão da rua Timbiras, em Belo Horizonte. Otto e Paulo já se conheciam de São João del-Rey, onde o primeiro estudava no Instituto Padre Machado e o outro no Colégio Santo Antônio, e dividiram a paixão pelo basquete. Sabino era o único dos quatro que já tinha um livro publicado, mas isso não o aumentava, nem o diminuía.

Foram quatro irmãos, que bebiam com fervor não só fartas doses de White Horse, mas as lições de Etienne. Werneck rememora, nesse ponto, uma tocante lembrança de Sabino a respeito do mestre: “Ele me ensinou a ler com os cotovelos na mesa, quer dizer, ler até o fim, estudando, destrinchando, e não por mera distração, numa poltrona”. A leitura e a literatura eram uma questão de vida ou morte. Eram, ainda, um veículo de desnudamento da vaidade e da hipocrisia. Os amigos gostavam de uma expressão, “pegar no banho”, que Sabino explicou assim: “Você pega o outro numa circunstância em que ele não pudesse tirar o corpo fora, tinha que ler e opinar”. A literatura deixa de ser uma diversão, e se torna uma atitude. Há que ter coragem para escrever.

Imagem inspiradora

Os quatro arrastaram até o fim de suas vidas essa visão masculina e áspera da escrita. Primeiro morreu Hélio, em 1988, de um súbito ataque cardíaco. Paulo, derrubado pelo álcool, faleceu em 91. No ano seguinte, Otto. Último sobrevivente de um quarteto que marcou a literatura brasileira – e cuja história, ainda que atravessada pela fantasia, se guarda no romance O encontro marcado, de Sabino –, ele faleceu em 2004. Quase um século depois dessas aventuras de juventude, a imagem dos quatro cavaleiros se persiste. E se agiganta.

Em um tempo de escritores solitários, escondidos nas telas de seus computadores. Em um tempo em que a parceria entre homens é feita mais de brutalidade e do deboche do que de um afeto profundo – ainda que zombeteiro. Em um tempo em que a literatura se tornou produto de aeroporto, que logo vai para a lata do lixo. Em um século vazio, como o 21, é estimulante relembrar as figuras desses quatro rapazes. Carregando o apocalipse dentro de si, como definiu Otto, eles transportavam também a paixão pela vida. Embora não perdessem a chance de uma boa piada, e fossem quase sempre um quarteto de três – em que o quarto, ausente, era vítima do escárnio e do doce deboche –, os quatro escritores se tornaram os protagonistas de um século em que Minas fervia.

Gente importante como Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda colaborou com os jornais por onde eles passaram. Através deles, formou-se um certo espírito mineiro – entre a fuzarca e a melancolia – que, para quem tem a sorte de conhecê-lo de perto, como eu, caracteriza também o espírito inquieto de Humberto Werneck.

Nas páginas dedicadas às fotografias, aparece um impressionante flagrante de Fernando Sabino e Hélio Pellegrino, caminhando juntos, de terno e gravata, pela avenida Afonso Pena dos anos 1940. O tempo – ou a precariedade da máquina – tratou de rasgar no peito de Sabino, bem na altura do coração, um borrão de luz. Ele, de uma forma mais discreta, se duplica no peito de Helio. Sempre me impressionei com essa foto, porque ela ilustra o grande rombo – de inquietação, de dúvida, mas também de fogo e fervor – que os quatro cavaleiros carregavam no peito. Não é por acaso que sua imagem se perpetua e, ainda hoje, nos serve de inspiração. Nas mãos de um cronista sensível como Werneck, ela se transforma em uma espécie de vaticínio. Ou retomamos as lições que os quatro nos legaram, ou afundamos na apatia. Quanto à literatura, se falharmos nisso, ela será só um item a mais nas listas de supermercado.

***

[José Castello é jornalista, biógrafo, crítico literário, cronista e romancista; autor, entre outros, de A literatura na poltrona (2007)]

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