SAN FRANCISCO PANORAMA

De volta para o futuro

Por Maria Rita Reis em 03/07/2012 na edição 701

Reproduzido do Suplemento Literário de Minas Gerais, edição especial “Reflexões sobre o jornalismo cultural”, Belo Horizonte, 2012; intertítulo do OI

Na Timothy McSweeney’s, uma pequena editora da cidade costeira de São Francisco (EUA), nasceu o protótipo do jornal do século 21. Com uma única edição de 320 páginas repletas de conteúdo original, o San Francisco Panorama foi uma carta aberta a todos que teorizam, avalizam e profetizam o fim da mídia impressa.

Lapidado durante cinco meses com a ajuda de diversos repórteres, designers e fotógrafos, o jornal do futuro se esgotou em poucas horas provando que existe um público ávido para este tipo de publicação. Os apocalípticos dos cabos de fibra ótica ainda não podem bradar pelos blogs da rede o fim do jornal impresso.

Dave Eggers é o homem à frente da editora e da experiência jornalística que instigou as pessoas a pensarem, de uma nova maneira, sobre uma mídia antiga. Apaixonado por jornais, o escritor e ex-jornalista é descrito como a sensação literária da nova safra, e é comparado a Bono Vox por seus trabalhos sociais, sempre ligados ao ensino da língua.

A impressão que se tem ao entrar no site da McSweeney’s é que Eggers nunca passou por um bloqueio criativo; cada publicação da editora parece o sonho de consumo do leitor convicto. Figuram na lista revistas como a The Believer, que oferece críticas literárias positivas (dando sempre o benefício da dúvida para obra e escritor quando preciso), a Wolphin, revista DVD de raros curtas cinematográficos, entre livros e outras preciosidades.

Na apresentação das publicações feita no site da editora fica evidente a preocupação em não inibir escritores com números limitados de páginas e caracteres, algo que Eggers critica na crise do jornalismo atual. Tamanho para desenvolver e aprofundar é fundamental, e tudo isso envolto em uma diagramação inusitada, divertida e atraente, parece ser a marca registrada da McSweeney’s. Com o San Francisco Panorama não foi diferente.

Novas possibilidades

Para compor este jornal de edição única, sem copyright sobre o formato, Eggers e sua equipe pesquisaram jornais do mundo inteiro. Olharam, inclusive, para o que havia sido produzido no passado. O resultado foi um jornal que seus artífices gostariam de receber todos os dias à porta de casa: lindo, informativo, divertido e singular.

O jornal foi divido em 112 páginas de 38 por 56 centímetros, coloridas de margem a margem com seções de notícias, artes, esportes, quadrinhos e gastronomia, um segmento de 96 folhas dedicado aos livros, uma revista com mais 112 páginas, além de pôsteres removíveis.

A estética do jornal chama atenção pelas luxuosas páginas graficamente impecáveis, e isso faz toda a diferença. A diagramação do San Francisco Panorama vai muito além de tornar a leitura mais fácil e aprazível, seus infográficos transbordam a função de simplesmente tornar a transmissão da notícia mais clara. É informação de qualidade entregue da forma impressa mais instigante e inventiva de que já se teve notícia.

O investimento estético, conjugado com o conteúdo significativo e muitas vezes inesperado que se encontra nas páginas do San Francisco Panorama, faz o objetivo da McSweeney’s ser atingido: o leitor acredita que impresso e online podem competir, cada mídia se valendo de características próprias, que tornam a coexistência possível.

A reconstrução de Bay Bridge, símbolo da cidade de São Francisco, é alvo de uma matéria investigativa realizada pelo ganhador do Pulitzer, Robert Porterfield, que averigua o estouro do orçamento e a realização de práticas questionáveis. Outras matérias investigativas completam a seção regional do jornal, reforçando a importância de uma cobertura da cidade produzida com afinco, advogada por Eggers em entrevista ao The Guardian.

A editoria internacional ficou por conta de freelancers que já estavam de passagem marcada para os lugares que cobriram. Isto barateou o custo da reportagem e conservou a originalidade do material, ao evitar a uniformidade promovida pelos serviços de agências de notícias. Essa é uma das fórmulas que Dave Eggers oferece para combater a crise de frescor que aflige o jornalismo impresso.

Sempre em estilo literário as notícias cobrem a cidade e o mundo, mas o jornal também se preocupa em entreter o leitor, ultrapassando o conceito de infotainment (mistura bizarra entre informação e entretenimento que se constitui tendência no jornalismo). Stephen King, o mestre do terror, escreve sobre sua paixão, o baseball, e faz um relato completo da World Series. As páginas de quadrinhos têm histórias inéditas que preenchem cada centímetro de 16 folhas com personagens coloridos e vibrantes.

Mais do que uma ode ao impresso com toda a sua beleza e singularidade de conteúdo, o San Francisco Panorama é uma declaração contundente do que pode ser feito quando se explora novas possibilidades. É resultado de amor pelo jornal impresso, do seu tratamento arrojado e do desejo de provar que, longe de caminhar a passos largos para os anais da história, essa mídia tem um potencial imenso para surpreender século 21 afora.

Saiba +

http://www.mcsweeneys.net/

http://www.mcsweeneys.net/articles/a-look-at-the-san-francisco-panorama

Livros publicados por Dave Eggers no Brasil:

>> Uma comovente obra de espantoso talento (A Heartbreaking Work of Staggering Genius), Rocco, 2000

>> Os Monstros (The Wild Things), Companhia das Letras, 2009

>> O que é o quê (What is What: the Biography of Valentino Achank Deng), Cia das Letras, 2008

>> Zeitoun (Zeitoun), Companhia das Letras, 2011

***

[Maria Rita Reis é jornalista]

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