CASO ADRIANO

A autodesmontagem, ao vivo e em cores

Por Fátima Lacerda em 11/09/2012 na edição 711

A lista de vitórias é igualmente longa e remota. Algumas delas: melhor jogador da Copa América de 2004 e da Copa das Confederações na Alemanha, em 2005. O que se vê há meses em incontáveis coletivas, imagens, reportagens é o bagaço de um ex-craque de futebol, conivente e inativo frente ao seu linchamento público, ao autodesmonte frente às câmeras. 

Mas Adriano não está sozinho nessa empreitada oportunista e leviana. Ele conta com o apoio incondicional da mídia e dos dirigentes de um clube (também correndo atrás de tempos de glória) com perigo de cair para a Segunda Divisão e com uma presidente, Patrícia Amorim, abrindo seu caminho a bala para a reeleição – como fez quando se deixou influenciar por Ronaldinho Gaúcho e fez rolar a cabeça de Wanderley Luxemburgo).

Flamengo nota 10 

Nos anos 1979-80, eu era aluna da Escolinha de Ginástica Olímpica do Flamengo, a melhor do Rio na época. Enquanto treinava nos aparelhos, torcedores de todas as idades e dos mais diferentes clubes rodeavam o campo para ver Zico, Júnior e aquela turma toda suando a camisa, dando tudo pelo clube. Bastava uma pausa no treino da ginástica para todos nós corrermos para ver as câmeras de TV e o burburinho em torno daqueles craques que veríamos em 1982 jogando magistralmente na Copa do Mundo na Espanha.

O “Disque Dentinho”

Os anos passaram e mudaram os protagonistas. Em passado recente, torcedores cansados com a conivência da diretoria do clube com o comportamento irregular de Ronaldinho Gaúcho, criaram por iniciativa própria o ”Disque Dentinho”, um número a ser chamado sempre que algum torcedor do Flamengo encontrasse o jogador na balada, e logo publicar nas redes sociais.

No blog do Milton Neves foi divulgado no fim de semana: “O Flamengo ‘premiou’ o Imperador com sua primeira folga desde que retornou ao time da Gávea”. Esse tipo de atitude em cima do muro instiga o próprio jogador a driblar as regras (para inglês ver) estipuladas pelo clube. Também a cláusula no contrato de Adriano que permite três faltas mostra uma ingenuidade oportunista por parte da direção do clube. Quem chega atrasado para compromissos, não faz isso uma única e nem para na terceira.

O comentarista esportivo da rádio MPB FM, Jorge Eduardo, comentou que Adriano já teria consumido duas de suas três vidas no Flamengo. Só resta mais uma, concluiu. O discurso midiático no “caso Adriano” se assemelha ao horário da xepa. Vale tudo.

A falta de uma política coerente também no âmbito de novas contratações levou o Flamengo a ser desacreditado pela própria torcida, aquela que deveria ser a parceira número 1 do clube – como pratica há anos, de forma exemplar, o Bayern de Munique, que através de blogs, fórum de debates e reuniões com os representantes das torcidas, está sempre antenado com os torcedores e sócios do clube.

Na mídia alemã, é praxe notícias sobre jogadores brasileiros da Bundesliga que frequentemente voltam atrasados de suas férias no Brasil. O valor da multa é tradicionalmente alto, sem falar nas represálias da diretoria e da pressão da mídia. Esses três elementos, juntos, se mostram o melhor corretivo.

O lucro dos parceiros

Notas da imprensa que revidam notas da assessoria do ex-jogador viraram rotina. A informação pela não-informação, o dito pelo não dito. Adriano teve folga dada pelo Flamengo? Tirou folga por conta própria? Ninguém sabe ao certo.

Cenas de um Adriano desfigurado, arrependido depois de ter faltado a mais um treino, a mais um dia de fisioterapia, são bem-vindos porque asseguram audiência, a venda de jornais e uma explosão de comentários nas redes sociais. Todos os envolvidos apostam num lucro de curto prazo: o empresário de Adriano, sua assessoria, a mídia, a diretoria do Clube de Regatas Flamengo.

Mesmo atestando todo o equívoco na estrutura na diretoria do clube, é Adriano o principal responsável pelos capítulos deprimentes dessa novela. O que se viu na última coletiva foi um ex-jogador sozinho no meio de um monte de carniceiros, entre eles os consumidores dessas notícias – voyeurs que assistem de camarote à desgraça alheia. 

Não se pode esperar ética da mídia sensacionalista que acompanha cada passo de Adriano. Muito menos da diretoria do clube, mas sim do nosso comportamento como consumidores daquilo que nos é vendido como informação. Nunca tivemos tanto acesso a todos os tipos de notícias e nunca fomos tão superficiais em analisá-las e digeri-las. Só uma mudança de paradigmas em nosso comportamento poderá em evitar linchamentos públicos de famosos, muitos deles resultando em tragédias.

Diz o ex-craque Franz Beckenbauer, que é praticante ativo do budismo: “Existe uma vida depois do futebol”. Tomara que essa frase chegue ao Imperador. Quem sabe, assim, ainda reste um final de segundo tempo para aquele que realmente importa: Adriano Leite Ribeiro.

***

[Fátima Lacerda é jornalista freelance, formada em Letras, RJ, e gestão cultural em Berlim, onde está radicada desde 1988]

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