COLÔMBIA

Como os jornalistas ajudaram a estabilizar o país

11/09/2012 na edição 711

Tradução: Jô Amado (edição de Larriza Thurler)

Durante muitos anos, a Colômbia era um sinônimo de drogas e estagnação. Hoje significa um país que lutou contra o terrorismo durante anos, que já foi conhecido por suas milícias implacáveis e que, embora ainda conviva com a guerrilha, é tema frequente de discussões mais promissoras. “A mídia global mudou consideravelmente a forma de fazer a cobertura da Colômbia”, escreveram Michael LaRosa e German Mejía em um livro sobre a história do país publicado este ano. “Matérias sobre turismo, restaurantes, tenistas famosos e resenhas favoráveis às obras literárias sugerem a percepção de que a nação andina vem se afastando daquela visão míope, unidimensional, que era marca registrada de avaliações anteriores do país.”

Quanto aos jornalistas nativos e suas percepções, é mais fácil para os repórteres destacarem os aspectos positivos de um país quando não estão sendo assassinados. Durante anos, a Colômbia era um país em que um jornalista morria a cada dois meses. Cesar Gaviria, presidente de 1990 a 1994, viu conhecidos – e até mesmo sua irmã - morrerem assassinados por motivos políticos. Antes de vencer a eleição em 1990, três outros candidatos foram assassinados, um deles seu colega. No entanto, ele dá muito crédito aos jornalistas colombianos por terem enfrentado os riscos em seu trabalho. “Os jornalistas enfrentam todos os riscos. Muitos foram mortos, mas o país não foi intimidado”, disse ele, em agosto.

Investimento em segurança

O Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) divulga que, desde 1992, pelo menos 43 jornalistas foram assassinados na Colômbia por motivos relacionados a seu trabalho. Dezenas de outros jornalistas morreram durante esse período por motivos não confirmados, embora em muitos casos, em circunstâncias pouco claras. Em seu “Índice de Impunidade”, o CPJ critica a Colômbia por não levar os assassinos de jornalistas à justiça, mas os casos abandonados de muitos repórteres assassinados diminuem pelas mesmas razões que a guerrilha sobrevive: muitas partes do país são montanhosas e escarpadas e têm armas de fogo em abundância, fugindo às regras da lei de Bogotá.

Atualmente, no entanto, uma carreira de jornalista já não é um atestado de desejo de morte. A violência esporádica contra repórteres ainda existe – a radialista Elida Parra Alonso foi sequestrada de sua casa pela guerrilha no dia 24 de julho, na região a nordeste de Arauca, sendo libertada no dia 13 de agosto – mas jornalistas assassinados são muito menos frequentes na Colômbia de hoje.

Melhorias nas condições de trabalho dos repórteres acompanharam o ritmo geral em que o país avançou nos últimos anos: turismo, investimentos estrangeiros e o padrão de vida estão crescendo. A Colômbia realiza eleições nacionais regularmente e a transferência pacífica do poder. No ano passado, o presidente americano Barack Obama assinou um acordo de livre comércio com a Colômbia. A aceleração do país como Estado moderno é atribuída, em parte, à impopularidade das Farc e a um investimento considerável em segurança nacional. O país destina 6% de seu Produto Interno Bruto (PIB) à segurança. Já o México, por exemplo, contribui com menos de 2%. No papel, a Colômbia tem uma constituição que protege os direitos civis há décadas – em 1991, foi abolida a pena de morte, o governo foi separado oficialmente da Igreja católica e foi valorizada a liberdade de expressão. Mas sempre, e com frequência, o jornalismo merece parte do crédito.

Momento promissor

Roberto Pombo é o editor-chefe de El Tiempo, o jornal de maior circulação da Colômbia e um dos mais famosos da América Latina. Todos os dias, ele sai em seu carro blindado, assim como sua família, pois ele continua sendo um alvo para assassinato. Alguns de seus repórteres mais conhecidos também usam carros blindados. “Se você comparar a situação atual da Colômbia para jornalistas”, disse Pombo em seu escritório em Bogotá, “com aquela de 10, 15, 20 anos atrás... tudo mudou. Agora trabalhamos melhor, com segurança.” E seu jornal vai muito bem. El Tiempo tem uma circulação de 400 mil exemplares aos domingos e 250 mil nos dias úteis, além de contar com 9 milhões de visitas únicas por mês a seu website.

A Colômbia é um país que é definido, por meio da história, por uma geografia isolada. Os Andes dividem a nação. O que a une são os meios de comunicação e um forte sistema de vias de transporte. Gaviria credita esta união ao rádio. Foi o rádio que anunciou à maioria dos colombianos o assassinato do narcotraficante Pablo Escobar, em 1993, quando Gaviria era presidente. O assassinato foi um momento de comoção para o país, comparável ao de Bin Laden. Para conseguir as melhores e mais rápidas notícias sobre a Colômbia, Gaviria liga o rádio.

Mas outros tipos de jornalismo também unem o país. O falecido jornalista e historiador Eduardo Lemaitre dizia que “três coisas deram a este país de países uma nação com princípios comuns e permitem que exista como uma unidade singular: a Constituição de 1886, o rio Magdalena e a televisão”.

Um redator da revista The New Yorker disse, em 2010, que “a Colômbia é um daqueles países em que os nativos ficam agradecidos por serem visitados”. Nem tanto assim. Entre 2000 e 2009, o número de visitantes estrangeiros à Colômbia aumentou 133%. O mesmo redator da New Yorker reconheceu que a capacidade do país de atrair escritores e visitantes estrangeiros “é um sinal de que o progresso é possível em países que já foram considerados mortos”. Os jornalistas já foram vítimas de matadores profissionais na Colômbia. Atualmente, ainda enfrentam perigos, até graves, mas fazem parte de um momento mais promissor do país. Informações de Justin D. Martin [Columbia Journalism Review, 28/8/12]

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