THE NEW YORK TIMES

O paradoxo e os desafios do cargo de ombudsman

11/09/2012 na edição 711

Sobre artigo de Margaret Sullivan, de Nova York (EUA); tradução de Jô Amado

Quando o editor das páginas editoriais doNew York Times, Andrew Rosenthal, telefonou para Margaret Sullivan parabenizando-a por ter sido escolhida como ombudsman, ele terminou com uma piada: “Espero que você me encha de besteiras.” Eis o paradoxo - e um dos desafios – do cargo, escreve Margaret em sua primeira coluna [8/9/12] como ombudsman do NYTimes.

Como quinta pessoa a ocupar o posto, Margaret faz parte tanto da redação do jornal quanto está fora dela. “Sento-me no meio, ao lado dos repórteres especiais e dos editores. No entanto, por definição, devo ficar independente da operação, pois a função do ombudsman é servir como crítica interna do jornal, assim como defender os leitores em questões de integridade jornalística”, escreve.

É difícil encontrar um equilíbrio. Margaret listou como pretende fazê-lo nas próximas semanas e meses:

1. Os leitores em primeiro lugar. O editor público tem um eleitorado considerável, ou pelo menos audiências interessadas. Uma delas, interna. Afinal, é pago pelo NYTimes e a maior parte daquilo que escreve será sobre o jornalismo do NYTimes. Editores públicos que a antecederam, às vezes “cuspiam no prato que comiam” – criticando uma matéria, um repórter ou uma prática – e isso é considerado parte da função. Portanto, se jornalistas ao seu redor olharem para ela de modo enviesado, ela afirma que compreenderá. A outra audiência é o mundo, cada vez maior, de críticos da mídia, que podem trabalhar em outras organizações ou por conta própria; ela lê seus trabalhos e muitas vezes acha que são interessantes e ajudam. Mas o grupo mais importante é o dos leitores do NYTimes. “Considero-os meus verdadeiros empregadores, embora não assinem meu contracheque. E tenho igual lealdade aos leitores do jornal impresso e digital. Na verdade, bati o pé em manter a coluna impressa, apesar do desejo do jornal de tornar o papel do editor público mais orientado para a internet e as mídias sociais”, revela.

2. Incentivar a conversa.Hoje em dia, o jornalismo não é mais uma tarefa de mão única, com as organizações jornalísticas entregando as notícias como Moisés com suas placas de pedra. Embora as reportagens profundas e sólidas – do tipo das que o NYTimes faz melhor – devam continuar a ser o fundamental, há muito que dizer sobre ouvir e incentivar respostas.

Em seu livro Blur, de 2010, os jornalistas Bill Kovach e Tom Rosentiel sugeriram alguns tipos de papéis para os jornalistas na era da internet. Dois deles particularmente intrigantes para um editor público: “agregador inteligente” e “organizador de fóruns”. Margaret está trabalhando com os especialistas na apresentação de notícias para encontrar novas maneiras de tornar a página do ombudsman no site do jornal um fórum para discussão. Ela pretende blogar com frequência e usar veículos como o Twitter para ampliar a abrangência e convidar novas vozes. Pretende, ainda, fazer comentários eventuais sobre jornalismo fora do NYTimes, para fins de comparação e porque acha que irá interessar os leitores.

3. Promover transparência e compreensão.Os leitores sempre se interessam em saber como trabalham as organizações jornalísticas, como e porque tomam determinadas decisões. Ela espera levar os leitores para trás das cortinas e mostrar como funciona o jornalismo do NYTimes. Isso pode envolver, por exemplo, uma reportagem sobre discussões de bastidores sobre o uso controvertido de uma fotografia. Pode envolver falar sobre práticas jornalísticas em evolução.

Em seu primeiro post no blog, na terça-feira passada (4/9), ela trouxe ao debate a verificação da veracidade de informações durante a campanha presidencial, o que gerou uma boa repercussão, de maneira que continuará a explorá-lo. Na coluna da semana que vem, ela abordará o assunto do “falso equilíbrio” em artigos jornalísticos – a prática de ouvir os dois lados de uma discussão sem levar em conta os fatos. Em grande parte, Margaret vê seu trabalho como coletar informação e escrever. Após 13 longos anos como editora do Buffalo News, onde começou como repórter e colunista, ela considera ser ótimo começar a ganhar a vida escrevendo de novo.

Mas nem sempre o trabalho do editor público pode ser visto como escrever. Parte desse importante trabalho é feito tranquilamente, quando Joseph Burgess, seu excelente assessor, e ela respondem às cartas dos leitores – às vezes, trabalhando com o departamento de correções do NYTimes ou com editores de outros departamentos para resolver problemas. Afinal, os leitores merecem ser ouvidos, merecem resposta, merecem compreender o que se passa em seu jornal. Ignorar suas preocupações significa criar problemas.

Pequena contribuição a um grande jornal

A decisão do Times de se abrir a críticas internas – críticas que são tornadas públicas – é um indício claro de seu desejo de manter altos seus padrões. O editor público não se refere a ninguém de dentro da redação, nem mesmo à editora-executiva, Jill Abramson, por quem Margaret tem enorme respeito e que apoia a função do editor público. Essa crítica independente – embora ela acredite que nunca significará “besteiras” – é parte fundamental da integridade da função de editor público.

A ombudsman afirma que pretende ser imparcial, enérgica, corajosa e indulgente. Ela fará o possível para dar uma pequena contribuição a um grande jornal enquanto estiver no cargo - e o fará de maneira que o leitor possa vê-la como informativa, como estímulo à reflexão e envolvente.

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