FOTOJORNALISMO

Tempos de incômodos desafios

Por Rafael Schoenherr em 11/09/2012 na edição 711

A exposição “Tempos Incômodos”, do fotógrafo alemão Michael Ruetz, mereceria melhor circulação pelo país e alguma repercussão nas redações e escolas de Jornalismo. O trabalho deixou a galeria da Caixa Cultural, em Curitiba, no dia 12 de agosto, após oportuna agenda do Goethe Institute. Por ironia, as 43 fotos estiveram a apenas uma quadra de distância da ocupação estudantil do prédio da reitoria da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em greve há mais de 100 dias. Manifestações de rua e mobilizações estudantis dos fins dos anos 60 motivam boa parte das imagens que, indiretamente, sugerem reanálise da capacidade do fotojornalismo em projetar um olhar sobre o singular período contemporâneo de amplas reivindicações de diversos setores organizados – sem esquecer, a um só tempo, do detalhe e do contexto.

A fotografia de Ruetz consegue envolver diferentes leitores ou testemunhas desse incômodo entre 1967 e 1975. O trabalho documenta a história recente alemã, explora um tipo particular de fotojornalismo, registra movimentos contraculturais, a cultura estudantil e, acima de tudo, flagra manifestações de rua. Tal como em uma das imagens mais divulgadas da exposição (de um protesto contra a poluição sonora causada por aviões), a rua vira reflexo dos manifestantes. A principal impressão que fica é de um fotógrafo muito próximo dos movimentos, tanto na rua quanto num auditório lotado de uma (nova!) universidade alemã – em uma das ocasiões, o filósofo Herbert Marcuse aparece em meio à multidão. No lugar de um plano geral da revolta, têm-se as expressões ou fragmentos da marcha, com atenção especial para as mãos dos manifestantes – em braços erguidos numa votação ou braços dados contra a polícia.

O rosto da revolução

Por meio dessas estratégias, o fotógrafo transforma-se em jornalista ao contar a história a partir de sujeitos e situações particulares. Como bem destacam Klaus Staeck e Johannes Odenthal, da Academia de Artes de Berlim, trata-se de pensar o indivíduo em movimentos coletivos, num misto de biografia e história. Ruetz seria capaz de fotografar a expressão subjetiva mesclada à mediação objetiva dos conflitos em jogo – personagem sujeitos da história e assujeitados (como no retrato de um sobrevivente dos campos de concentração).

Deriva desse momento sessentista, de questionamento da autoridade, a renovação cultural expressiva da ocupação das ruas, tal como o happening, registrado em uma das imagens. Em outro momento de sensível captura, um estudante lê um livro, sentado, aos pés de um grupo de policiais que o observam com curiosidade. Uma das melhores fotos da exposição, ao lado da imagem flagrante de um policial que tenta escapar da câmera de Ruetz e cobre o rosto para não ser fotografado. Ao contrário dos manifestantes, o policial não mostra as mãos, cobertas por luvas, numa espécie de dupla camuflagem.

Por paródia, o indivíduo só vai se deixar apagar nas fotos do discurso de um general para uma plateia de rostos anônimos – insinuando uma espécie de incomunicabilidade bem afeita aos tempos midiatizados. Compõe esse conjunto a famosa foto de um cachorro que passa em frente às tropas, num ligeiro artifício de carnavalização ou subversão temporária da autoridade militar projetada pela lente do fotógrafo alemão. Apenas nesse momento é que a câmera distancia-se da realidade, quase num exercício distanciado de humor, pode-se dizer.

Nos demais momentos, as fotos nos devolvem aquilo que Michael Löwy diz ser a grande contribuição da fotografia, ao nos permitir conhecer o rosto e as feições da revolução.

***

[Rafael Schoenherr é jornalista e professor do curso de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa]

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