DÉCIO PIGNATARI (1927-2012)

Expoente da poesia concreta

Por OG em 04/12/2012 na edição 723

Reproduzido de O Globo, 3/12/2012; intertítulos do OI; título original “Expoente da poesia concreta, aos 85 anos”

Publicada há 60 anos, em 1952, a primeira edição da revista Noigandres, considerada o marco inicial da poesia concreta no Brasil, trazia na capa três assinaturas: a dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos e a de Décio Pignatari. Editada pelo trio ao longo de dez anos, a revista se afirmou como um importante polo de produção e reflexão sobre a poesia de vanguarda, e Pignatari, como uma das vozes centrais no amplo debate sobre os rumos do concretismo que se estendeu pelos anos seguintes.

Poeta, ensaísta, tradutor, dramaturgo e professor, Pignatari teve atuação decisiva tanto na demarcação das bases teóricas da poesia concreta quanto na expressão prática de suas teses, criando algumas das obras mais simbólicas do movimento. Um de seus poemas mais conhecidos desmonta sucessivamente os elementos do slogan “beba coca cola”, obtendo os versos “babe cola/ beba cola/ babe cola caco/ caco/ cola/ cloaca”, numa construção cujo sentido final depende da disposição gráfica e espacial das palavras.

Em parceria com os irmãos Campos, com quem formou a base do grupo Noigandres, Pignatari publicou textos críticos, como o livro Teoria da poesia concreta (1965), e manifestos. Em um dos mais significativos, intitulado “Plano-Piloto para poesia concreta”, o poema concreto é apresentado como “um objeto em e por si mesmo, não um intérprete de objetos exteriores e/ou sensações mais ou menos subjetivas”, e a poesia concreta é definida como “uma responsabilidade integral perante a linguagem”. Para isso, propunha o manifesto, a palavra devia ser pensada em suas diversas dimensões: “som, forma visual, carga semântica”.

“Talentoso, inteligente e irreverente”

Pignatari nasceu em Jundiaí (SP), em 1927. Publicou os primeiros poemas em 1949, na Revista Brasileira de Poesia, e lançou o primeiro livro, Carrosel, no ano seguinte. Formou-se em Direito pela Universidade de São Paulo (USP), em 1953, e depois disso viveu por dois anos na Europa, período em que manteve intensa correspondência com os irmãos Campos.

De volta ao Brasil, foi um dos organizadores da Exposição Nacional de Arte Concreta, realizada em 1956 no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Na época, definiu o evento como “o primeiro encontro nacional das artes de vanguarda realizado no país, tanto no que se refere às artes visuais quanto à poesia concreta”. A ascendência do grupo paulista sobre a exposição marcou o início da ruptura com os representantes do movimento no Rio de Janeiro, como Ferreira Gullar, Amilcar de Castro, Lygia Clark, Lygia Pape e Reynaldo Jardim, que em 1959 assinaram o “Manifesto Neoconcreto”, formalizando seu afastamento.

Ontem [domingo, 2/12], Gullar reconheceu a contribuição de Pignatari para a poesia concreta: “Décio era um homem muito talentoso, muito inteligente e com espírito inovador e irreverente. Ele introduziu a crítica política na poesia concreta, que por definição era uma poesia não ideológica, não engajada. Com o rompimento nos afastamos, embora não fôssemos inimigos, eventualmente nos encontramos. Lamento muito sua morte”, disse Gullar.

“Por onde Décio passou, não nasceu mais grama”

O poeta e crítico Eduardo Sterzi, professor da Unicamp, destacou, além da poesia de Pignatari, sua obra ensaística: “Ele foi um dos maiores ensaístas da língua portuguesa, como podemos ver em livros como Contracomunicação, Semiótica & Literatura ou Errâncias. Essa faceta de sua obra está infelizmente esquecida, desvalorizada. Note-se, ainda, que o seu pensamento nunca se restringiu aos limites da arte e da literatura, abarcando também política, design, futebol e o que mais aparecesse. Nisso se mostrou fiel como poucos às lições de inventividade, liberdade, coragem e generosidade de Oswald de Andrade, provavelmente o escritor do passado a quem se sentia mais afim.”

O cineasta Ivan Cardoso lembrou a convivência com o amigo e contou que chegaram a planejar um filme juntos: “Foi o homem mais inteligente que conheci. Por onde Décio passou, não nasceu mais grama. Sabia de tudo. Com citações em inglês e francês que dava gosto de ouvir. Na última vez que o vi, combinei que faria um filme com ele. Tinha até título: A morte da Poesia – O mundo que não existe mais. Ele me dizia que eu estava falando de uma gente que não existia mais.”

Décio Pignatari morreu no domingo (2/12) pela manhã, aos 85 anos, no Hospital Universitário da USP, onde estava internado desde 30 de novembro. O poeta, que sofria de Alzheimer, teve insuficiência respiratória e pneumonia aspirativa.

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