FOLHA DE S. PAULO

Suzana Singer

11/12/2012 na edição 724

“O que você faria?”, copyright Folha de S. Paulo, São Paulo (SP), 9/12/2012

“A imagem de um homem prestes a morrer atropelado por um trem de metrô está rendendo uma grande discussão sobre ética jornalística no mundo. O fotógrafo não deveria ter ajudado o homem em vez de ficar clicando? Faz sentido publicar uma imagem tão trágica?

Tudo aconteceu em 22 segundos. Na noite de segunda-feira passada, na estação de Times Square, em Nova York, um homem parecia discutir com um mendigo na plataforma. De repente, houve uma espécie de suspiro coletivo. Ki-Suck Han, 58, tinha sido empurrado pelo mendigo para os trilhos.

O fotógrafo freelancer R. Umar Abbasi estava lá, esperando a condução para cumprir uma pauta. Viu Han caído e começou a clicar. O trem se aproximava. A vítima tentou sair, mas não deu tempo.

A foto foi a capa do tabloide 'New York Post' no dia seguinte, com a manchete, de extremo mau gosto, 'CONDENADO', seguida de 'Este homem está prestes a morrer'.

Choveram críticas à atuação do fotógrafo e do jornal. Abbasi foi a um programa de TV para se explicar. Disse que não estava preocupado em fotografar o acidente, apenas usava o flash para chamar a atenção do condutor do trem. Desfiou outras justificativas: não teria dado tempo de ajudar Han, teve medo de ser empurrado também, não teria forças para puxá-lo.

Havia outras pessoas na estação, mas ninguém se mexeu.

A polêmica lembra a que envolveu a famosa fotografia da criança famélica espreitada por um abutre, tirada no Sudão em 1993. A imagem premiada, símbolo da luta contra a fome, tornou-se motivo de orgulho e tormenta para seu autor.

Kevin Carter era um dos quatro membros do Clube do Bangue-Bangue, apelido que a trupe de destemidos fotógrafos recebeu por seu trabalho na África do Sul, no período violentíssimo entre a libertação de Nelson Mandela (1990) e sua eleição para presidente (1994). O grupo registrou toda sorte de tragédias e ganhou fama internacional.

Questionado sobre por que não ajudara a criança moribunda, Carter deu diferentes versões: disse que não era preciso porque havia um centro de distribuição de alimentos perto dali, que enxotou o abutre, que ela se levantou sozinha... Um ano depois de ter produzido a imagem, Carter, que tinha vários problemas, inclusive com drogas, matou-se.

Como regra geral, repórteres e fotógrafos não devem intervir nos acontecimentos. O papel deles é registrar os fatos, o que não é pouco, principalmente em situações extremas como guerras e epidemias.

Mas existe, é claro, a linha da solidariedade humana, o momento quando se age por instinto para tentar salvar quem está ali.

Colega de Carter no Bangue-Bangue, João Silva estava no Afeganistão em 1994, quando ouviu uma explosão. Viu emergir da poeira um pai carregando o filho ferido. Em vez de clicar, correu para ajudar. A criança morreu no hospital.

Fotografar teria levado segundos, não mudaria o destino do garotinho e poderia ter rendido uma cena que comovesse o mundo. 'Eram imagens de guerra muito boas, mas decidi não bater. Nunca tinha feito isso. Mas a morte da criança acabou tornando meio sem sentido o gesto humanitário', escreveu o fotógrafo no livro 'O Clube do Bangue-Bangue' (Companhia das Letras, infelizmente fora de catálogo).

Casos extremos como o de Nova York ou do Sudão alimentam a imagem de frieza da imprensa, de jornalistas como 'eunucos éticos', nas palavras de David Carr, colunista de mídia do 'New York Times'.

Diante da imagem arrepiante do homem sem esperanças nos trilhos, a reação usual é apontar culpados: não apenas o sujeito que provocou o acidente, mas aquele que registrou tudo e ainda quem teve o sangue-frio de publicar. A foto incomoda porque transporta o leitor até a cena e o faz se perguntar 'eu teria me arriscado a ajudar o homem?'

A melhor opinião veio de um 'herói do metrô de Nova York'. Em 2009, o ator Chad Lindsey pulou da plataforma para retirar um homem que tinha caído na linha do trem. Em vez de condenar a atitude do fotógrafo, Chad lembrou o medo que aqueles trilhos provocam e disse: 'Você nunca sabe como suas pernas vão reagir até serem testadas'.”

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 Márcio Fossari
 Enviado em: 13/12/2012 14:05:07
Com certeza, por infelicidade ou fatalidade o fotógrafo presente naquele momento teve a mesma atitude de todos os demais, com a diferença da câmera fotográfica, não vi as fotos, mas por trabalhar com pessoas e assistir seus momentos de morte acredito ser o pior registro de um ser humano, não há justificativa para perceber um fato tão grave e não tentar agir, realmente uma pena, o mundo globalizado realmente tem algo em comum, a GLOBALIZAÇÃO OU UNIVERSALIDADE do "isso não é comigo", e apesar de referir-se a prestar auxilio com seus flashes soa a justificativa absurda. Em muitos momentos estamos diante da morte de nossos graves pacientes, mas com certeza jamais tive a insensatez de registrar um momento destes, ACREDITO QUE DEVAMOS REJEITAR PESSOAS COM ATITUDES DESHUMANAS OU BÁRBARAS, QUE NOS REMOTAM A TEMPOS ANTIGOS, BIZARROS DA CIVILIZAÇÃO, PRECISAMOS RENOVAR NOSSOS INTERESSES EM AUXILIAR E GLOBALIZAR DE VERDADE O AMOR ENTRE OS POVOS.

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