PLANETA DIGITAL

A internet e seu desaparecimento adiado

Por Demi Getschko em 17/06/2014 na edição 803

Reproduzido do Estado de S.Paulo, 16/6/2014; intertítulo do OI

Em 2001 me perguntaram qual seria o futuro da internet. Respondi que para a internet ser realmente bem-sucedida, ela deveria “sumir” – no sentido de que se tornaria invisível aos seus usuários. Algo do dia a dia, com o qual contaríamos automaticamente e ao qual não prestaríamos nenhuma atenção específica.

A internet estaria oculta sob as numerosas aplicações bem-sucedidas, da mesma forma que a eletricidade está sob os eletrodomésticos, de forma automática, sorrateira e confiável. Sem saber, estava plagiando o cientista Mark Weiser (autor do conceito de computação ubíqua), que em 1991 havia escrito que “as mais profundas tecnologias são aquelas que desaparecem, que se mesclam ao tecido do dia a dia até dele se tornarem indistinguíveis”.

Há hoje, entretanto, uma “pedra no meio do caminho” do apregoado e saudável desaparecimento da internet. É uma urgência técnica à qual devemos atentar: a migração do IPv4 para o IPv6. Explico: o IPv4 é a versão atual do protocolo básico da rede IP (Internet Protocol), sua língua-mãe. O IPv4 vem com uma numeração que permite “apenas” quatro bilhões de “habitantes” na rede. Pode parecer muito (e talvez parecesse à época, quando os engenheiros Vinton Cerf e Bob Kahn definiram o tamanho e formato do endereço IP), mas é insuficiente para o número de usuários e máquinas da rede de hoje.

A saída é o IPv6. A nova versão do IP terá um número impronunciavelmente maior de elementos conectáveis. O IPv6 permitirá que cada um de nós ligue milhões de equipamentos à rede: será a nova alvorada da internet, agora como a “rede das coisas”. Assim (e esperamos que pela última vez), teremos que prestar atenção técnica à internet e a ela dar o tratamento necessário. Mal comparando, seria como trocar o “padrão de tomadas”.

Vida longa

O estoque de IPv4 destinado às regiões do mundo se esgota. Acabou na Ásia há três anos, e na Europa há um ano e meio. Agora foi a vez da América Latina e Caribe. Como sempre, quem está na “região de conforto” usando IPv4 e sem necessidades expressivas de crescimento não dá atenção a providências que não parecem afetá-lo imediatamente.

Mas aqueles que não prestarem atenção ao fim do IPv4 cometerão um erro que pode custar muito caro, tanto em termos de solidez e crescimento da rede, como em termos de novas aplicações e conexões. Ninguém, ao construir casa nova, usaria tomadas do padrão antigo – seria algo totalmente sem sentido. A internet recria-se a cada instante. Precisa de padrões sólidos e que suportem sua expansão, não de meros adaptadores que prolonguem seu uso sem segurança.

Em suas compras de equipamentos, certifique-se de que eles aceitam IPv6. Fale com seu provedor de acesso sobre a disponibilidade e estimule os serviços que você mais usa na rede para que também sejam acessíveis com o protocolo IPv6. Vida longa à internet!

***

Demi Getschko é personagem central na história da internet no Brasil, já foi diretor de tecnologia da Agência Estado, empresa do Grupo Estado, e por dois períodos diretor da ICANN, entidade americana responsável pela gestão de endereços da web e números IP. Desde 1995, é conselheiro do Comitê Gestor da Internet (CGI.br).

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