OS SABERES DA PROFISSÃO

Para que servem as faculdades de Jornalismo?

Por Fernando Evangelista em 11/10/2011 na edição 663

Reproduzido do blog Notas de Rodapé, 4/10/2011; intertítulos do OI

Eu estava na lanchonete da faculdade, entre uma aula e outra, tomando um café e lendo uma revista. O menino aproximou-se, sentou na minha frente e me perguntou:

“Você estuda aqui?”

Balancei a cabeça, negativamente.

“O que você faz?”

O menino deveria ter uns 11, 12 anos.

“Sou professor de Jornalismo”, respondi.

“E o que se ensina no curso de Jornalismo?”

Falei das disciplinas de redação, rádio, TV, fotografia, teoria da...

“Entendi”, ele interrompeu, “mas o que o aluno aprende no curso?”

O moleque tinha um quê de arrogante.

“Por que você quer saber? Você lá tem idade para prestar vestibular?”

“Sou curioso”, respondeu.

Quando eu ia explicar, com paciência e educação, ele se levantou, disse que precisava ir e se foi. Mas a pergunta ficou: o que se aprende no curso de Jornalismo?

Obrigatória, deveria ser a formação humanística

Poderia ter respondido que, basicamente, se aprendem técnicas, teorias e ética. E, com isso – entre outras coisas –, aprende-se a produzir textos jornalísticos. Escrever ainda é a base da profissão. Porém, boa parte das 470 faculdades de Jornalismo espalhadas pelo Brasil não alcança esse objetivo. Elas estão falhando vergonhosamente.

É o que afirma pesquisa realizada pelo Núcleo Brasileiro de Estágios (Nube), com 10 mil candidatos de diferentes cursos universitários, entre 1º de janeiro e 31 de agosto deste ano. O teste consistia em escrever um ditado de 30 palavras, permitindo até seis erros. Os estudantes de Engenharia obtiveram os melhores resultados, com “apenas” 12,5% de reprovação. Os estudantes de Comunicação Social, incluindo os de Jornalismo, ficaram nas últimas posições, com uma reprovação de 65,3%. Se isso não é o fundo do poço, alguém diga o que é.

Seria ingênuo jogar toda a responsabilidade nas faculdades de Comunicação. Esse resultado é também consequência de um ensino fundamental muito precário. Entretanto, surge uma dúvida a partir dessa pesquisa: se as faculdades não podem mudar esse quadro, se não conseguem ensinar a base da profissão aos alunos, por que elas continuam existindo? Continuavam existindo, principalmente, por causa do diploma – que deixou de ser obrigatório para o exercício da profissão. Obrigatório, para a profissão, deveria ser uma sólida formação humanística. É isso que torna a faculdade imprescindível.

A concentração é uma iniquidade

Infelizmente, de maneira geral, os cursos estão estruturados como um campo de treinamento para o mercado, “o último estágio da evolução humana”. Para entrar no mercado, dizem os manuais, é preciso seguir as regras, e não importa se elas são, algumas vezes, injustas, hipócritas e burras. Há alguns anos, durante debate numa escola de Comunicação, uma estudante afirmou: “Estou na faculdade para ter um diploma e fazer contatos”, opinião compartilhada por boa parte da plateia. O objetivo da estudante, compreensível, torna-se preocupante porque evidencia que o ato de aprender – talvez o ato mais sublime do ser humano e a razão de ser de todas as escolas – não era uma prioridade, ou melhor, nem era importante.

Como também não é importante, pelo que parece, debater a democratização da informação num país onde a mídia é controlada por algumas famílias. A base da democracia é uma imprensa livre e competente. A pluralidade de ideias, estimulada pelo jornalismo, é o motor que faz a democracia caminhar e evoluir. Porém, não existe pluralidade quando há um monopólio dos meios de comunicação. O Sul do país é um exemplo emblemático: a Rede Brasil Sul (RBS), a mais antiga afiliada da Rede Globo, possui 20 emissoras de TV, 24 emissoras de rádio, oito jornais, além de mais de uma dezena de produtos de plataforma digital.

Essa concentração é uma iniquidade. Todavia, os cursos de Jornalismo, com honrosas exceções, estão empenhados em treinar os estudantes para serem aceitos nessa engrenagem. E é melhor para eles, segundo essa concepção, nem saber o quão prejudicial ela é para a sociedade.

A curiosidade estimula a sensibilidade

Não tenho solução para o desafio que se impõe às faculdades de Jornalismo atualmente e, se a tivesse, abriria a minha própria. Mas tenho algumas ideias com relação às práticas pedagógicas, que não dependem diretamente da estrutura institucional. Essa prática se sustenta em quatro saberes: procurar, ver, ouvir e contar (irei detalhá-los num próximo texto). O fundamento de todos esses saberes é a curiosidade. Por isso, acredito que a grande missão do professor é “provocar curiosidade”, o primeiro passo de uma reflexão crítica. Como lembra Rubem Alves, é necessário que o estudante veja no professor alguém curioso, a começar por aquilo que o próprio aluno diz e faz.

Existem muitas maneiras de desenvolver a curiosidade e a mais prazerosa que conheço é por meio da leitura. A boa leitura pode propiciar, além do prazer imenso, novas perspectivas de ver e de entender o mundo. O leitor é, em essência, um curioso e será, provavelmente, questionador e crítico. A curiosidade, de alguma forma, estimula a sensibilidade. Quem está questionando e se questionando sobre as coisas à sua volta, torna-se sensível a este mundo. Não é, lógico, um passo automático, mas um passo possível.

Um ditado sem erros grosseiros

Além disso, é preciso estimular a ruptura dos padrões para que os alunos escrevam sem amarras, sem manuais, tentando encontrar seus próprios caminhos – indicando a eles textos jornalísticos inteligentes e criativos, que revelem as infinitas possibilidades de se contar uma história.

Uma das funções do jornalismo, até que se prove o contrário, é contar uma história real e contá-la bem, com precisão, honestidade e, se possível, com algum charme, tentando alcançar “a melhor versão possível da verdade”, como ensinou Carl Bernstein. (A propósito, muitos estudantes concluem o curso sem saber quem é Carl Bernstein.)

Hoje, dois anos depois, gostaria de reencontrar aquele “menino da lanchonete”. Se ele mantiver a curiosidade, terá plenas condições de se tornar um bom jornalista, se assim o quiser. Mas, cá entre nós, se for esperto, fará coisa mais interessante na vida. Talvez ele faça algum curso de exatas e possa escrever, sem erros grosseiros, um ditado de 30 palavras.

***

[Fernando Evangelista é jornalista]

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 Gerson Chagas
 Enviado em: 13/10/2011 14:34:06
Se pensarmos na tremenda defasagem cultural e instrumental dos alunos, aliada às amarras corporativas, realmente, o questionamento do petiz sagaz é mais que pertinente. E, se formos pensar mais detidamente, por conta do volume de ananases publicados, bem que poderia ser acrescentada a pergunta : "Para que serve , hoje, o jornalismo ?"
 Thaísa Anzelucy Lobo
 Enviado em: 13/10/2011 17:25:06
Infelizmente não é só na faculdade de jornalismo que existem alunos que estudam para ter um diploma. Estudei jornalismo, muitos falavam você vai se arrepender, mas não foi o que aconteceu.Talvez por sorte, tive professores que cobravam muito mais que um texto impecável quanto a ortografia, eles exigiam indagações, críticas ao atual sistema politico, economico, cultural etc. O objetivo era: formar cidadãos qualificados para estimular o pensamento, o raciocínio, a cidadania com base na informação. Sorte a minha? Não sei, arrogante não sou, mas tenho certeza de que se não fosse a passagem pela faculdade de jornalismo não teria tanta sede pelo conhecimento, pela comunicação quanto tenho hoje! No mais, existem professores e professores, alunos e alunos, profissionais e profissionais.
 Carlos Homci
 Enviado em: 13/10/2011 17:34:32
Caramba Fernando, a situação tá mesmo por demais complicada,obter o diploma é relamente importante para quem quer entrar no mercado porém, o conhecimento humanistico e social é a base do crescimento humano, mas para mim seja como for, mesmo essas fracas universidades, vêm a reforçar a democrácia, tão importante para o existencialismo de um povo. Minha opinião. Grato
 Marcelo Andrade
 Enviado em: 13/10/2011 17:34:42
Você mencionou uma dose de "charme". Então a pergunta é até que ponto se ensina o jornalismo e até que ponto suas características são inatas. Cultura geral e toda a teoria de rádio, tevê, das diversas mídias sem dúvida são importantes. Mas será que acima de tudo não se ressalta a essência da comunicação? Responder aos o-que/quem/quando/como/onde/por-que do fato? Já me deparei com jornalistas jovens e graduados incompetentes de dar uma simples notícia no rádio, como se não se preocupassem em como a essência da informação será assimilada pelo ouvinte. Sob este ponto de vista, a falha me parece maior do que apenas o sistema educacional. Talvez esteja na sociedade como um todo que muitas vezes nem se dá conta do que seja uma informação de qualidade.
 elvis mascarenhas
 Enviado em: 14/10/2011 01:44:52
É a mais pura verdade. sei o quanto sofro por ainda não ter um bom texto. sou estudante de jornalismo e mal conseguir ler 10% dos livros que "dizem" falar sobre jornalismo. acho que alguns dos meu professores deveriam me incentivar mais e serem mais pratica, do que só teoria.

Fernando Evangelista

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