MÍDIA & PRECONCEITO
Uma certa rádio e os valores da comunicação
Por Alex Contin em 11/10/2011 na edição 663
Há algumas semanas, um colega de classe da Unicamp, de Campinas, me chamou no bate-papo para me mostrar um áudio gravado de uma rádio de Limeira (SP) que circula pela internet. Ele logo se mostrou indignado com o conteúdo da conversa e perguntou se eu conhecia as pessoas que estavam se manifestando naquele áudio. Trata-se de um diálogo entre donos de uma rádio local que opinavam de forma preconceituosa sobre a aprovação do primeiro casamento homossexual em Limeira. O assunto é polêmico para algumas pessoas e ao mesmo tempo um bom tema de debate.
Pela segunda vez, estou tendo aulas de Ciências Sociais. A primeira foi na graduação de Jornalismo e agora na graduação de Ciências Econômicas, com um foco mais voltado para a economia. A estrutura dessa aula na Unicamp é analisar o pensamento dos sociólogos considerados, como um professor definiu, a tríade da sociologia: Émile Durkheim, Max Weber e Karl Marx.
Finalizamos as discussões sobre os estudos do primeiro autor e, para ter base para isto, estudamos en passant trechos de Bauman e Rosanvallon. O que interessa disso tudo para este assunto são os conceitos de grupos sociais, valores e a estrutura da sociedade. Estruturo meu texto na minha opinião como jornalista tentando tatear o conhecimento adquirido nesse primeiro bimestre de aula.
Qual seu grupo?
Quando alguém pergunta minha religião, respondo “católico não praticante”. Como fui educado nesta religião, passei a apreciar e a ter fé em alguns elementos dela, porém há alguns anos não frequento as missas dominicais. Sou contra um padre – ou pastor, estendendo a crítica a outras religiões – dar sua opinião ferrenha sobre o que os fiéis devem considerar para suas vidas pessoais, mas como é provado, isso é inerte na nossa sociedade.
Se me perguntar onde eu moro, onde trabalho, o que estudo, com quem ando... muitas pessoas já me dirão quem sou. Estamos, como é defendido por Bauman, sempre inseridos em grupos sociais. O grupo dos católicos, dos estudantes de economia, dos jornalistas etc. Isso é fruto da socialização do indivíduo e, mais ainda, produto de valores sociais que praticamente regem nossa vida.
A religião, por exemplo, é considerada por Durkheim como um fator de coesão social. Ou seja, ela garante o equilíbrio e a paz na sociedade por pregar valores que são seguidos pelos integrantes deste grupo. Outros grupos menores também têm seus valores, regras e normas baseados na identificação de qualidade e defeitos que se complementam ou se repelem em relação a outros grupos. Cada grupo controla seus indivíduos por meio da coerção social, estabelecendo penas aos transgressores, aos chamados outsiders, como definiu Durkheim.
Portanto, com a revisão de alguns conceitos básicos dos primeiros meses de Ciências Sociais, é possível questionar o leitor: qual o seu grupo social? Você nasceu e foi criado com quais valores? Frequentou quais ambientes e fez amizades com quais tipos de pessoas? Refletindo sobre isso, cada um consegue encontrar, de maneira clara e direta ou indiretamente, quais são suas raízes e o que a sociedade na qual está inserido reza como certo ou errado.
Opinião? Claro, pode opinar...
Eu avaliaria o grupo social onde nasci, Limeira, como uma união de pessoas um tanto quanto tradicionalistas e conservadoras (com raras exceções inteligentes). Ainda acrescentaria que são pessoas pouco otimistas – afinal, quem nunca ouviu a seguinte frase: “Abriu um McDonalds na cidade? Vamos ver quanto tempo vai durar...” Além dessa baixa autoestima, os limeirenses com os quais convivi me pareceram extremamente bairristas e com uma forte tendência a se manterem fechados para as novidades da sociedade. Para esse ponto, vou usar uma citação de Durkheim, do livro Da divisão social do trabalho: “Quanto mais obscura uma consciência, mais refratária à mudança porque não vê depressa o bastante que é necessário mudar, nem em que sentido é preciso mudar” (página 17).
Por obscura, eu desenharia um limeirense que não se preocupa com o debate social, que se abstém de avaliar quais são os melhores investimentos para a educação em sua cidade e que é facilmente ludibriado pelos políticos carismáticos que se usam de obras populares para mostrar serviço e garantir votos e mais votos e, claro, um belo salário por quatro anos.
Não tiro o direito de ninguém expor sua opinião, mas algumas pessoas deveriam pensar melhor em como expõem essa opinião. O áudio que está circulando na internet começa com a discussão sobre a liberação do primeiro casamento homossexual de Limeira e que, se eu não estou enganado, foi de uma pessoa que admiro muito, uma psicóloga conhecida na cidade (a “aeromoça de Santos Dumont”, como a apelidei). O problema na opinião dessas duas pessoas é a forma como se referem a um “conhecido” da equipe chamando-o de todos os termos pejorativos possíveis que se podem usar para conversar com um homossexual e o uso de um veículo de comunicação para a disseminação de uma opinião sem nenhum embasamento e preconceituosa.
Isenção jornalística e credibilidade
Se não bastasse essa lista de xingamentos, os radialistas ainda usam argumentos ridículos e arcaicos para justificar seu posicionamento contrário ao casamento homossexual. Um deles disse que Deus fez o homem e a mulher com o encaixe perfeito e isso não deveria ser contrariado. Claro que, na minha posição de comunicador, estou melhorando a frase pífia usado por um deles, mas a argumentação seguiu mais ou menos neste sentido, além de dizerem, claro, que não deveria ser dada voz à minoria e deixar os costumes da forma como estavam. A meu ver, isso é um claro e explícito reflexo de como tradicionalistas e conservadores os limeirenses são.
Ser contra o casamento homossexual é um posicionamento pessoal, cabe a cada um, dentro de seu círculo de amizades e dentro de sua família, discutir esse assunto. Assim como ser preconceituoso ou nazista... – você pode ser, desde que não manifeste, ofenda ou mate ninguém. Agora, tornar essa discussão pública de um jeito que denigre ainda mais a imagem aqueles que acreditam que essa conquista é um direito justo e tardio, é no mínimo irresponsável e imaturo.
Cabe aqui um questionamento da responsabilidade dos veículos de comunicação. Não tenho conhecimento de pesquisas quantitativas de ouvintes de rádio em Limeira, mas acredito que esse número seja expressivo simplesmente avaliando a aparente estrutura financeira das empresas de comunicação da cidade. Portanto, com tal importância vêm certas responsabilidades. O comunicador, especialmente o jornalista, deve ser um mediador de opiniões. Quando se fala em isenção jornalística, independência e credibilidade, está em discussão (quase que de forma utópica) a capacidade de o jornalista avaliar os fatos e expor ao seu público as versões da verdade e da opinião para que o público consiga, sozinho, formular sua própria opinião e se posicionar.
Responsabilidade muito grande
Com certeza, o programa daquela rádio não deve ter uma base jornalística (até porque se tivesse estariam só lendo notícia dos jornais impressos, recolhendo reclamações de ouvintes por telefone e fazendo críticas às autoridades públicas, como é de praxe na cidade). Porém, esse fato não deveria ser usado como justificativa para a liberdade de usar palavras tão grosseiras e emitir opiniões tão preconceituosas e sem nenhuma argumentação convincente. Se quisessem discutir o tema, deveriam ter convidado o casal que recebeu o aval para firmar a relação conjugal e algum profissional que pudesse confrontar a opinião deles (ou delas) de forma civilizada e inteligente.
Vale aqui mais uma frase de Durkheim para reflexão: “As vias de comunicação determinam de maneira imperiosa o sentido em que se fazem as migrações interiores e as trocas, e mesmo até a intensidade de tais migrações etc.”. Este é um trecho de um livro no qual o sociólogo francês explica o que é fato social. Aí ele explica que as vias de comunicação têm um forte poder sobre como os valores são trocados dentro da sociedade.
Este debate chega a um fim óbvio: os meios de comunicação têm, sim, uma responsabilidade muito grande para com o público. Afinal, que adolescente ou jovem não foi influenciado por alguma moda lançada pela Globo? Ou que dona de casa não procurou aquele copo que aparece na novela para decorar sua mesa de jantar?
Valores ultrapassados
A responsabilidade dos meios de comunicação, quer sejam eles gigantescos, imperiais, ou minúsculos, locais e do interior do estado, deveria ser repensada. Qual é o objetivo da sua rádio? Para que ela serve além de tocar música o dia inteiro? Se você abrir um espaço para algum comunicador conversar com seus ouvintes, qual a responsabilidade dele? O que ele tem a acrescentar para a vida dessas pessoas que fazem questão de ligar o rádio para ouvir, nem que seja de forma desatenciosa?
E seu jornal e seu programa de televisão? Têm algum objetivo ético e moral? Há alguma filosofia que ultrapasse a simples crítica política do partido da situação? Sua coluna semanal é só para ficar criticando a roupa da primeira dama, o choro da vereadora, ou você tem realmente algo a acrescentar para seus leitores? As notícias que são publicadas nas suas páginas impressas e eletrônicas trazem discussões atuais que mostram todos os lados do fato, ou você é incapaz de pensar o jornalismo como uma ferramenta que forma opinião do seu leitor e tenta levar a ele o esclarecimento necessário para ele ter uma qualidade de vida melhor? Você escreve textos curtos pressupondo que seu leitor nunca vai ler um texto bem elaborado independente do tamanho que ele ocupe nas páginas, ou prefere cortar todo o conteúdo que valorize o debate em detrimento do anunciante que leva dinheiro para a empresa?
Às vezes, é preciso parar e refletir sobre qual o seu papel no mundo e se você está aqui para olhar diretamente para o seu umbigo com uma consciência totalmente obscura, ou se você consegue levantar a cabeça e olhar que a sociedade evolui e precisa de pessoas inteligentes e pensantes para ajudar a população a enxergar que alguns valores estão ultrapassados e que mantê-los pode até ser considerado um crime (vide o preconceito)...
***
[Alex Contin é jornalista e graduando em Ciências Econômicas pela Unicamp]
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