COBERTURA ESPORTIVA
A doença infantil do jornalismo
Por Luciano Martins Costa em 18/07/2011 na edição 650
Comentário para o programa radiofônico do OI, 18/7/2011
“Incompetência histórica” e “Vexame” são algumas das expressões colhidas nas primeiras páginas dos jornais brasileiros de segunda-feira (18/7), depois que a seleção de futebol do Brasil foi eliminada nas quartas de final da Copa América.
Na capa do caderno de Esportes do Globo, uma pesada ironia. “É tetra!”, grita o título, em letras garrafais, como se diz no jargão da imprensa, referindo-se à coincidência de datas – em 17 de julho de 1994, o Brasil ganhava nos Estados Unidos seu quarto título mundial – em 17 de julho de 2011, a seleção era eliminada após perder quatro pênaltis contra o Paraguai na Copa América.
Corrupção e abusos
A ironia e as pesadas críticas à incapacidade de fazer gols demonstrada pela atual geração, endeusada por seu talento, podem surpreender quem se dispõe a analisar a mídia com alguma objetividade.
Em condições normais de jornalismo independente, a imprensa sempre manteve um olho no desempenho dos craques que representam a renovação do selecionado, após o fracasso na Copa de 2010, e outro olho nas irregularidades que brotam da Confederação Brasileira de Futebol.
Os atrasos e outros problemas na construção da infraestrutura para a Copa de 2014 têm sido fiscalizados com olhar vigilante pelos jornalistas. Mas bastou a bola rolar que desaparece todo senso crítico, a imprensa esquece completamente seu papel e o jornalismo vira torcida rasgada.
Se, como disse o controverso jornalista Nelson Rodrigues, “a Seleção é a pátria de chuteiras”, pode-se afirmar que o futebol é a doença infantil do jornalismo brasileiro. Como no ensaio publicado por Vladimir Illich Lenin em 1920 – no qual criticava a esquerda alemã por tentar isolar os dirigentes partidários das massas operárias, acreditando que as massas saberiam buscar seus objetivos – também a imprensa esportiva brasileira finge que o futebol pode vencer tudo só com o talento e a torcida, apesar dos problemas com a estrutura dirigente das instituições futebolísticas.
Por trás da cobertura jornalística desenrrolam-as as disputas por poder e pelas gordas parcelas de publicidade que os anunciantes despejam na mídia – e esse é o mundo real do futebol.
Ignorar a corrupção e os abusos envolvidos na organização dos campeonatos é comportamento infantil, que se revela também nas reações iradas quando a vitória não vem.
“Imprensa muito vagabunda”
O presidente da Confederação Brasileira de Futebol, Ricardo Teixeira, deixou claro e transparente, em entrevista publicada na edição de julho da revista piauí, que ele conserva o poder absoluto na CBF e que não tem o menor respeito pela imprensa.
“A imprensa brasileira é muito vagabunda”, declarou, com uma sinceridade e clareza raras no noticiário.
Além disso, afirmou que é ele quem manda e que, na Copa de 2014, pode fazer “a maldade mais elástica, mais impensável, mais maquiavélica: não dar credencial, proibir acesso, mudar horário de jogo”. Completou o raciocínio com uma frase que é um primor de realismo. “E sabe o que vai acontecer? Nada”, afirmou.
Quase sobrehumano em sua prepotência, o todo-poderoso dirigente da CBF escancara uma realidade que a imprensa não tem coragem de explicitar: quem manda no futebol é ele. Se quiser, pode recusar-se a atender o interesse da Rede Globo, que condiciona os contratos de transmissão das partidas ao horário mais conveniente, após os capítulos da novela de maior audiência – causando prejuizos de milhões de reais em publicidade.
A ameaça de não fornecer credenciais para determinados jornalistas e empresas de mídia tem endereços muito conhecidos: a emissora britânica BBC, que produziu um documentário sobre a corrupção no futebol, a Rede Record, que reproduziu a reportagem, e jornalistas que costumam criticar sua gestão e seus desmandos na CBF, como o colunista Juca Kfouri.
Ao dizer que considera a imprensa brasileira “muito vagabunda”, Teixeira disse também que as denúncias não o incomodam. “Só vou ficar preocupado quando sair no Jornal Nacional”, declarou.
A entrevista à piauí foi publicada na primeira semana de julho. As repercussões se limitaram a poucas declarações de jornalistas esportivos, praticamente restritas à internet. Citada diretamente, a Globo não se manifestou.
Nos próximos dias, certamente os ruidosos analistas vão falar muito da imaturidade dos jovens craques que até ontem eram a salvação da pátria. Vão colocar em dúvida a permanência do técnico da seleção, criticar os gramados argentinos e citar muita numerologia.
E a imprensa brasileira, como um todo, estará justificando as palavras de Ricardo Teixeira.
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| Newton Alberto Chaves da Silveira |
| Enviado em: 18/07/2011 21:28:17 |
| Boa Noite, Luciano! Coitado do povo brasileiro, que não reage ao imperialismo da CBF, dos corruptos e de parte da imprensa (ou será imprensinha-inclusive a Rede Globo) que não reage à alcunha (imprensa vagabunda) cravada por Ricardo Teixeira. Por que será que aquela outra parte da imprensa, que não se julga vagabunda, não se manifesta? Será támbém, que somente aqueles citados por você, Luciano, que são desafetos do RT, é que compoem a nossa correta, ética e merecedora do nome de IMPRENSA E MÍDIA BRASILEIRA?. Grande abraço. |
| Ney José Pereira |
| Enviado em: 19/07/2011 08:21:00 |
| Pô, respeitem as doenças e quem as tem!. Pô, respeitem os infantis!. Não precisam respeitar nem o futebol nem o jornalismo. O "jornalismo esportivo" nem deve ser respeitado!. Tanto o "jornalismo esportivo" quanto o futebol devem ser... desrespeitados!. É necessário debochar muito tanto do futebol quanto do "jornalismo esportivo"!. Mas, as doenças e os infantis não devem ser discriminados por preconceitos contra eles [as doenças e os infantis]!. |
| Antero Greco |
| Enviado em: 19/07/2011 14:34:43 |
| Luciano, como vai? Há muito tempo estou na tão criticada crônica esportiva, em jornal, na tevê e mais recentemente também na internet. Posso afirmar, sem medo de errar: é difícil ir contra a corrente. O público cobra postura firme do comentarista, mas só se for para falar mal de um time, de um jogador, de um técnico. Aí as discussões são intensas. Quando tocamos em temas importantes, como desmandos de dirigentes, superfaturamento em obras em praças esportivas, corrupção, ou falamos para poucos, ou caímos no vazio, ou somos rotulados como "chatos, impertinentes, antipatriotas". Tente mostrar o absurdo que se está a gastar para Copa e Olímpiada e será xingado, será visto como bairrista, como alguém que tem complexo de vira-lata e por aí vai. Tente questionar de onde o Corinthians, por exemplo, vai tirar R$ 180 milhões (pouco mais, pouco menos) para investir em Tevez, e será esculhambado. Esses assuntos incomodam um povo que tem adormecida sua capacidade de indignação. Qualquer absurdo, por aqui, agora soa como normal. Para alegria de cartolas que se eternizam no poder, para tranquilidade de políticos. Mas resistimos, nos guetos dos meios de comunicação nos quais isso ainda é possível. Abraço. Antero Greco |
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