DESCRIMINALIZAÇÃO DA MACONHA
A festa interrompida
Por Luciano Martins Costa em 16/09/2011 na edição 659
Comentário para o programa radiofônico do OI, 16/9/2011
Nos dois jornais paulistas de circulação nacional, reportagens sobre a festa proibida pela reitoria da Pontifícia Universidade Católica trazem à tona algumas questões que costumam ser tratadas pela imprensa com muita superficialidade. Uma delas é a autonomia da universidade, tema que anda fora de moda mas volta ao debate quando, por exemplo, um crime em território acadêmico levanta a conveniência ou admissibilidade da presença ostensiva da polícia no campus. Outra questão, que ressurge no caso da PUC-SP, é a da descriminalização da maconha, tema da festa proibida pelo reitor Dirceu de Melo nesta sexta-feira, 16.
A questão da autonomia do campus universitário e da administração do ensino acadêmico era tema comum de discussões durante o período da ditadura militar, quando as invasões e detenções de alunos e professores eram rotina. A mais ruidosa delas ocorreu em 22 de setembro de 1977, quando o então secretário da Segurança Pública paulista, durante o governo de Paulo Egydio Martins, coronel Antonio Erasmo Dias, comandou a ocupação do campus da rua Monte Alegre, no bairro de Perdizes, com extrema violência, para impedir a realização de um congresso que pretendia refundar a proscrita União Brasileira de Estudantes. Na mesma ápoca, a polícia manteve durante dias um cerco aos territórios da PUC, da Universidade de São Paulo e da Fundação Getulio Vargas para impedir encontros de estudantes.
Alguns líderes do 1º Festival da Cultura Canábica, em protesto contra a proibição da festa pelo reitor Dirceu de Melo, sacam o argumento da autonomia e do direito de celebrar qualquer coisa.
Nos jornais, o Estado de S.Paulo oferece mais espaço à polêmica do que a Folha, reproduzindo manifestações de ambos os lados e informando que o hábito das festas às sexta-feiras, que transforma o bairro de Perdizes numa imensa e ruidosa “balada”, está com os dias contados.
A Folha publica texto de um colaborador, no qual se destaca um aviso dos organizadores para que os participantes não levem drogas, pois haveria policiais no evento, e informa que não seria distribuida a “matéria-prima essencial” ao movimento pela descriminalização da maconha.
Uma pauta ausente
Os jornais certamente planejaram enviar repórteres para a rua Monte Alegre no horário previsto da festa, para conferir se as medidas tomadas pela reitoria vão assegurar uma noite de sono aos moradores da região ou se, insistindo na realização do encontro, a concentração de alguns milhares de estudantes pode gerar conflitos. Segundo os jornais, pelo menos 6 mil alunos haviam confirmado presença.
Mas, muito além do episódio em si, faz falta na imprensa um mergulho mais criterioso no que se transformou o movimento estudantil depois da redemocratização. Há evidências de que a inviolabilidade do território acadêmico tem sido utilizada para finalidades menos nobres. As festas de recepção de calouros se transformaram em festivais de iniciação ao alcoolismo, com patrocínio de distribuidoras de bebidas. A indústria aproveitou a ampliação do mercado para criar novos produtos, como as bebidas à base de vodca diluida em refrigerante, muito do gosto feminino.
Dessa forma, sob o incentivo de centros acadêmicos e associações atléticas, vai-se consolidando o uso do álcool entre os jovens. As drogas seguem o mesmo percurso, e em muitas universidades não há razões para campanhas pela descriminalização da maconha, porque o uso é livre e aberto.
O campus da PUC já foi ocupado, anos atrás, por traficantes, que atuavam livremente nos corredores e chegaram a interromper aulas. A Folha de S. Paulo chegou a publicar reportagem demonstrando que as autoridades acadêmicas de muitas universidades paulistas não tinham políticas para a prevenção do alcoolismo ou da adição a drogas.
A atitude do reitor da PUC, recebida com certo distanciamento pelos dois jornais mais importantes de São Paulo, merece uma análise mais profunda. É sabido que os jovens ingressam muito cedo nas universidades, e há indicações de que, excessivamente protegidos na adolescência, muitos não sabem como agir diante da ampla liberdade que encontram no ambiente universitário.
Não se está dizendo aqui que as liberdades devem ser tolhidas. Mas o fato de um reitor ter que proibir uma festa para restabelecer alguma ordem no campus indica que alguma coisa andou fora de controle por muito tempo.
O Brasil vai bem economicamente, a sociedade celebra a redução da pobreza e as perspectivas de desenvolvimento são concretas. Mas o país ainda tem imensos desafios sociais e institucionais pela frente, entre os quais a má qualidade da educação. O fato de estudantes se mobilizarem apenas para defender o uso de drogas deveria estar provocando comichões nos pauteiros dos jornais.
Ou será que a imprensa prefere assim?
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| Leonardo Blecher |
| Enviado em: 16/09/2011 12:22:48 |
| "O fato de estudantes se mobilizarem apenas para defender o uso de drogas deveria estar provocando comichões nos pauteiros dos jornais." Será que os estudantes não se mobilizam por outras causas ou a imprensa prefere as pautas mais polêmicas? Os estudantes da PUC fizeram há poucas semanas um ato dentro do TUCA, durante a celebração dos 65 anos da PUC - que, diga-se de passagem, encontra-se sucateada - pelo investimento de 10% do PIB brasileiro na educação, algum jornal noticiou este fato? |
| Felipe Braga |
| Enviado em: 16/09/2011 12:51:17 |
| noite não, tarde (o evento á às 16h): http://catracalivre.folha.uol.com.br/2011/09/1%C2%BA-festival-de-cultura-canabica-discute-a-legalizacao-da-maconha/ |
| Ricardo Pereira |
| Enviado em: 16/09/2011 13:38:48 |
| Pra mim, o equivoco está em fazer a festa dentro da puc. Acho que o tal reitor até aceitaria um simposio sobre o assunto, por ter um vies mais academico. Mas festa? Nem que fosse uma festa rastafari, nao rolaria. Por outro lado, nao adianta ficar escondendo a nudez do rei. A hipocrisia como é tratado o assunto mostra somente a carolice explicita de uma universidade catolica. Vai ver o reitor ficou com medo de ser excomungado. Mas nao vai escapar dos xingamentos.... |
| Leonardo Lima |
| Enviado em: 17/09/2011 10:26:19 |
| Autonomia universitária, pertence somente ao reitor ou é um instituto do qual deve participar toda a comunidade? Aliás, é exagerada a cobertura pontual e descontextualizada que muitos órgãos de imprensa fazem sobre as universidades, lá aparecendo só quando acontecem coisas dignas de caricaturas, tal qual o caso Geise Arruda, por exemplo. A imprensa foge à discussão sobre o financiamento da educação, e, quando aparece um forfé digno de telenovelas, lá estarão os paparazzi da desgraça humana para mais uma vez rotularem toda uma comunidade, ainda que os membros dessa comunidade sejam muito diferentes. O que se quer é rotular, não se quer o esclarecimento. É certo que há muito consumo de bebida nas universidades, mas isso já vem desde os séculos passados, diga-se a verdade. A cultura universitária desafia a que o estudante teste os seus limites, logo, expulsar a discussão de uma pauta como essa, a da cultura canábica, é mais uma tentativa que o conservadorismo mais ultrapassado tentar se estabelecer, à força e sem propôr alternativas plausíveis. O Reitor que me perdoe, mas essa foi sim uma verdadeira atitude cafona: fechar a universidade prejudica quem quer estudar, e também quem quer fazer festas. Agora, também é preciso que o pessoal faça menos barulho nessas festas. |
| José de Almeida Bispo |
| Enviado em: 17/09/2011 11:58:59 |
| Pois é! Só a mídia (majoritariamente do PIG) é que não enxerga a plenitude da liberdade de opinião em que vivemos, tentando criar axiomas contra os governantes federais atuais e aliados, de falta de liberdade. Os estudantes não estão nas ruas por outros motivos que não o do verdadeiramente objeto proibido porque, mesmo lendo/assitindo o PIG, não conseguem enxergar perigo à institucionalidade como durante o governo apoiado pelo PIG em 1968; e a corrupção que ora vê no Governo "Federal" - que é o único por quem o PIG se interessa - vê muito maior nos governos aliados do PIG nos estados. |
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