TELEJORNALISMO EM CLOSE

A audiência do JN caiu. A da TV também

Por Paulo José Cunha em 11/01/2011 na edição 624

Sim, a audiência do Jornal Nacional está caindo. No ano de 2.010 teve a sua maior queda no Ibope – 24% – em relação a 2.000. Naquela época, o JN registrava 39,2 pontos. Agora, 29,8. E o que isso significa?

Vamos começar pela "explicação" dos apocalípticos. A primeira é a de que a gestão Ali Kamel/William Bonner seria desastrosa a ponto de empurrar o mais importante telenoticioso da América Latina para o ralo da audiência. A crítica é sempre feita em comparação com a gestão Armando Nogueira (não dá para fazer par com Cid Moreira, que era apenas o apresentador e não o editor, como acontece hoje com Bonner). Dizem que o JN ficou mais sisudo e que por isso a audiência teria migrado para atrações mais populares, como o CQC, que dão tratamento jocoso à informação e batem nos políticos sem dó, para deleite da moçada. Outra explicação seria o alinhamento do JN com os setores mais conservadores, mantendo sua posição em fidelidade às suas origens oficialescas, lá em 1969, quando foi ao ar pela primeira vez. Eram tempos de AI-5. E durante anos o JN serviu de linha auxiliar da ditadura.

Nenhuma das explicações é convincente. A primeira não se sustenta diante da simples lembrança de que, no tempo de Armando Nogueira/Cid Moreira, o JN surgiu nos moldes dos melhores telejornais norte-americanos e concorreu com produtos de qualidade nitidamente inferior, trazendo o frescor da novidade a uma área até então dominada pelas agências de publicidade. Elas é que produziam os principais telejornais, que inclusive levavam os nomes dos anunciantes. Aliás, esta foi a única característica que o JN manteve (o nome Jornal Nacional deveu-se ao Banco Nacional, seu primeiro patrocinador). Naquela época, Armando Nogueira/Alice Maria/Cid Moreira/Sérgio Chapelin/Walter Clark nadavam de braçada. Até porque o JN fazia parte do esforço de integração nacional empreendido pelos militares, que ofereciam amplo prestígio à emissora de dr. Roberto. Mas o mundo gira e a Lusitana roda. Hoje o mundo é outro.

Uma crise irreversível e estrutural

A segunda explicação igualmente não resiste (apesar do episódio da bolinha de papel no Serra, editorializado como "atentado" no JN, versão dilapidada pelos blogueiros que analisaram o vídeo frame a frame e obrigaram a Globo a sumir com o assunto). Lembre-se que Lula, ao assumir seu primeiro mandato, estava na bancada do JN ao ser anunciado o resultado da eleição. E a Globo quase ostensivamente manifestou seu regozijo em vários momentos dos governos lulistas. O mundo gira etc.

O que explica mesmo a queda de audiência do JN chama-se internet. Minha filha tem 18 anos, estuda Cinema e História e não assiste ao JN. Informa-se pelos sites e blogs. Ela e um pedaço grande da torcida do Flamengo. O nome disso é fu-tu-ro. Ou presente, se quiser. A queda de audiência do JN guarda relação direta com a queda de audiência da televisão como um todo, em escala planetária. A cada dia, a TV abre mais espaço para os blogs, os sites, os facebooks e os twitters da vida. O ibope ainda mede audiência dos televisores, não mede audiência dos... computadores!, meio pelo qual muita gente assiste hoje à TV. O certo é que não é o JN que está perdendo audiência, é a TV que está enfrentando sua pior crise. Uma crise irreversível e estrutural. Ainda bem. O nome disso é fu-tu-ro. Ou presente, se quiser.

***

Jornalista e professor

ATENÇÃO: Será necessário validar a publicação do seu comentário clicando no link enviado em seguida ao endereço de e-mail que você informou. Só as mensagens autorizadas serão publicadas. Este procedimento será feito apenas uma vez para cada endereço de e-mail utilizado.

Nome   Sobrenome
 
     
E-mail   Profissão
 
     
Cidade   Estado
 
     
Comentário    

1400
   
Preencha o campo abaixo com os caracteres da imagem para confirmar seu comentário, depois clique em enviar.
Recarregar imagem
   
   



Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade e a pluralidade de ideias e de pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem a intolerância ou o crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Mensagens que não atendam a essas normas serão deletadas - e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.

 

 Paulo Chaimsohn
 Enviado em: 12/01/2011 23:09:57
Da minha parte, há tempos não vejo este lixo eletronico porque é tendencioso, mediocre, rançoso e chato. E tenho 50 anos.
 Gerson Chagas
 Enviado em: 15/01/2011 13:43:34
Concordo plenamente com o Paulo, pois se é inegável a fragmentação da audiência por conta do advento da internet, e a esta obviamente vinculada a parcela mais jovem da audiência, a queda livre do "noticioso" se dá principalmente por conta de sua histórica linha editorial hipócrita , fascista e reacionária. E william bonner , por conta de sua nauseante declaração, na qual comparou o espectador do jn a Hommer Simpson, será devidamente amaldiçoado , vindo a ser transformado em personagem de HQ . E vale dizer que perfil e situação similares aplicam-se a revista veja, seu congênere impresso. A derrocada de ambos, embora ainda leve algum tempo, é por demais saudável ao ideário democrático. E para complementar : tenho 48 anos.
 J Fernando Oliveira
 Enviado em: 17/01/2011 12:02:11
Era o jornal que eu sempre assistia. Mas, como bem citado pelos comentaristas anteriores, a manipulação da notícia (agora, facilmente descoberta) me afastou deste jornal. A última manipulação foi colocar imagens de uma reunião ministerial descontraída, após as imagens da tragédia do Rio, como se fosse a reunião sobre este problema. Não dá para assistir um Jornal Nacional que edita notícias desta forma. A internet realmente tirou muitos espectadores do jornal, eu inclusive, mas a manipulação é o que afastou os mais velhos (nem todos, claro).
 Cristiana Castro
 Enviado em: 18/01/2011 02:34:35
Tb concordo com o autor; aqui em casa,ninguém mais assiste TV, não é só o JN, a TV fica desligada ( a menos que alguém vá ver algum filme ). Ainda assim, acredito que o JN meteu o pé na jaca, dava prá aguentar mais um pouquinho, com ajuda de aparelhos, mas dava... Ainda assistimos ( os mais velhos ), o Canal Livre, o OI, o 3 a 1, Roda-Viva ( nem que seja para reclamar ), etc... A m..... é que a Globo ficou de um jeito que não dá nem prá ver pra reclamar depois. Eu via JN, TODOS OS DIAS ( fazendo respiração cachorrinho mas, via ), agora não dá. Não é culpa dessa dupla aí, não, pq os outros eram tão ruins ou piores, só que não havia opção. A Globo não tem jornalistas ( com J maiúsculo ) e isso é muito estranho;os caras só sabem falar de ginástica, plástica, moda e câncer; um saco! É melhor ficar bravo que nem siri na lata e xingar a gente do que posar de galã de telenovela. Se a gente reclamar muito, periga, acordar com o Luciano Huck e a Angélica ou o Serginho Groismann e a Xuxa, apresentando o JN. Tá brabo... E a gente, pagando...

Paulo José Cunha

WIKILEAKS

O mundo de pernas para o ar

Paulo José Cunha | Edição nº 621 | 21/12/2010 | 0 comentários

REGULAÇÃO EM DEBATE

Da arte de forçar a barra

Paulo José Cunha | Edição nº 619 | 07/12/2010 | 0 comentários

MÍDIA RADIOFÔNICA

Laranja é veneno, sabia?

Paulo José Cunha | Edição nº 618 | 30/11/2010 | 0 comentários

TELEJORNALISMO EM CLOSE

Seja terrorista, jogue um livro na TV

Paulo José Cunha | Edição nº 615 | 09/11/2010 | 0 comentários

TELEJORNALISMO EM CLOSE

Debates são notícias e não eventos de outra emissora

Paulo José Cunha | Edição nº 612 | 19/10/2010 | 0 comentários

Ver todos os textos desse autor