JORNALISMO POLÍTICO

A entrevista de FHC à The Economist

Por Luciano Martins Costa em 24/01/2012 na edição 678

Comentário para o programa radiofônico do OI, 24/1/2012

Uma intervenção do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em entrevista ao site da revista britânica The Economist, adiciona uma dose mais forte de tempero ao processo político brasileiro, que neste ano leva os eleitores às urnas para a escolha dos futuros prefeitos municipais.

Interessante observar que a manifestação do ex-presidente e dirigente honorário do PSDB é publicada exatamente no dia em que se anuncia o índice recorde de popularidade da atual presidente da República, Dilma Rousseff.

Não trata diretamente das eleições municipais, que movimentam as forças partidárias e estimulam ações mais ou menos precipitadas de governantes, mas da sucessão da presidente, marcada para 2014.

Fernando Henrique Cardoso toma partido, pela primeira vez em público, em favor do senador mineiro Aécio Neves e pela primeira vez diz o que pensa do ex-governador paulista José Serra, que se considera candidato natural, por direito divino, à presidência da República.

Análise da derrota

Mas não trata apenas disso. Na longa entrevista, fala da herança colonial portuguesa, da formação do Brasil contemporâneo após a redemocratização e oferece sua visão do confronto entre as duas principais forças partidárias, representadas pelo PT e o PSDB. A entrevista completa, em inglês, pode ser lida e assistida no site da Economist.

Afirma, ainda, que a oposição está presa a uma armadilha. Ele entende que, como a sensação geral de bem-estar beneficia o governo do PT, a saída da oposição será baseada em ideias não-econômicas, como justiça, segurança pessoal, republicanismo versus corrupção, respeito à lei, qualidade de vida.

Em seguida, conta que havia sonhado com o ex-presidente Lula, e que ambos haviam feito uma proposta conjunta de consenso nacional, em torno de questões como energia, educação, criação de infraestrutura, convergências de interesses entre iniciativa privada e governo e como obter um acordo na área ambiental.

No original, a entrevista é muito mais interessante do que a versão escolhida pelos jornais brasileiros. Fernando Henrique Cardoso só entrou na questão eleitoral quando provocado pelo entrevistador, após afirmar que, embora em termos eleitorais PT e PSDB sejam antagônicos, na prática há muitos pontos de convergência.

Ao entrar na análise da derrota de seu partido na última disputa presidencial, ele acusou José Serra de ter sido arrogante e por isso acabou isolado até mesmo dentro do PSDB.

O ponto de ruptura

A divergência profunda entre Fernando Henrique Cardoso e José Serra transparece mais claramente a partir desse ponto, embora o ex-presidente, conhecido por sua habilidade com as palavras, tenha usado expressões muito cuidadosas.

Ele afirma que o PSDB perdeu uma eleição considerada ganha em 2010 – tinha ampla vantagem nas pesquisas, no início da campanha, e acabou perdendo para uma candidata que nunca havia enfrentado as urnas. E responsabiliza diretamente José Serra, acusando-o de repelir alianças e centralizar as decisões.

Perguntado se, em outra circunstância, seu partido poderia ter vencido, ele responde que sim, mas não com Serra. Este foi o ponto que interessou aos jornais brasileiros, a julgar pelo fato de que os principais destaques escolhidos para repercussão tratam do futuro do PSDB na visão de Fernando Henrique Cardoso.

Na sua opinião, o partido tem que se unir para tentar reconquistar o poder federal em 2014. Ele diz claramente preferir que Serra não insista em nova candidatura, descarta o governador paulista Geraldo Alckmin e afirma explicitamente que o candidato óbvio de seu partido é Aécio Neves.

A partir daí, revela que Serra nunca foi sua primeira escolha. Ele preferia ter tido como candidato a sucessor o ex-governador Mario Covas, que veio a falecer em 2001, um ano antes da eleição de 2002.

O trecho escolhido pelos jornais brasileiros é a parte final da entrevista e não necessariamente o mais interessante. Além disso, traz implicações importantes que a imprensa nacional omite de seus leitores. Uma delas é que a manifestação do ex-presidente marca o ponto de ruptura com José Serra, explicitando uma tensão entre ambos que nunca havia se tornado pública de modo tão contundente.

Serra foi, durante muitos anos, confidente da falecida ex-primeira-dama Ruth Cardoso, e detentor de informações domésticas que não são confortáveis para Fernando Henrique Cardoso. Além disso, enquanto teve grande influência no PSDB, ele desprezou a herança do ex-presidente, rejeitando até mesmo o fato de ter feito parte do governo a partir de 1995.

Fernando Henrique oficializa o apoio do núcleo histórico do PSDB à provável candidatura de Aécio Neves em 2014. Isolado, José Serra terá que apostar no PSD, partido criado pelo prefeito Gilberto Kassab, e entrar na disputa presidencial como uma terceira via.

Resta observar como a imprensa brasileira passa a tratar esses personagens a partir desses sinais.

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 José de Almeida Bispo
 Enviado em: 24/01/2012 10:58:28
Aécio em 2014? Pra quê se ele pode esperar até 2018? Se o avô dele esperou 50 anos pra ser presidente da República, porque ele não pode esperar 32? Por que correr atrás de uma presidência e ficar na mão dos tucanos paulistas? E ainda enfrentar desnecessariamente a máquina petista? Se a direita quer voltar a comandar o poder central é melhor abrir mão do golpismo e começar a trabalhar um projeto de país que convença o povo.
 André Dantas
 Enviado em: 24/01/2012 13:41:48
Ainda há muita água para rolar debaixo da ponte antes da eleição presidencial. Certamente os movimentos começaram, mas jogar para escanteio um ego do tamanho do de Serra pode trazer enormes problemas aos tucanos. Serra é um cadáver político, mas vai sair de cena espalhando muita farofa no ninho tucano. Os métodos usados por Serra para ser o candidato único da direita nas eleições são antigos e conhecidos e não acredito que ele esteja ficando mais elegante...
 Zé da Silva
 Enviado em: 25/01/2012 11:14:58
A declaração do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é o atestado de óbito político do Serra. Acontece que Serra pode ter morrido politicamente mas esqueceu de deitar. Enterrar Serra não vai ser fácil. Ele ainda vai assombrar muita gente. O neto de Tancredo, com seu telhado de vidro, não perde por esperar...

Luciano Martins Costa

luciano@revistaadiante.com.br

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