SEMINÁRIO EM LONDRINA

A ética jornalística em debate

Por Rogério Christofoletti em 10/04/2006 na edição 376

Já era hora de os órgãos de classe dos jornalistas promoverem um evento para discutir amplamente a ética na profissão. Isso se deu entre os dias 31 de março e 1º de abril, em Londrina (PR), com o 1º Seminário Nacional de Ética em Jornalismo, realizado pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e pelo sindicato local.

Na pauta alguns dos principais temas que rondam o fazer jornalístico – uso de câmeras ocultas, o dever de informar e a formação ética nas escolas de comunicação. Mas o seminário também foi o início do processo de revisão do Código de Ética da categoria, cuja versão atual está completando 20 anos.

Meses atrás, a Fenaj fez um chamado aos sindicatos para que encaminhassem sugestões para a reformulação do documento. Poucos atenderam ao pedido a tempo, e outras propostas foram apresentadas no meio do seminário, em cima da hora, o que tumultuou um pouco a sistematização dos trabalhos.

Com diversos pontos díspares, não se chegou a uma nova versão consensual do código. Uma comissão foi formada para reordenar as informações e reapresentar as propostas em julho, durante o Congresso Nacional dos Jornalistas, em Ouro Preto (MG). O evento deve definir um novo código de ética para os jornalistas. Será o quarto código da categoria, após o de 1949, o de 1968 e o de 1986.

Conflito de interesses

A discussão mais palpitante do Seminário Nacional de Ética em Jornalismo se deu justamente sobre um ponto do atual código de ética. O jornalista Eugenio Bucci, presidente da Radiobrás e um dos palestrantes do evento, identificou o que considera uma impostura à sociedade. "Nosso código de ética repousa sobre um conflito dos interesses. Jornalistas versus assessores de imprensa. Somos autores dessa impostura porque passamos às pessoas que eles têm os mesmos valores e que são o mesmo ofício. Isso desinforma a sociedade".

O posicionamento de Bucci, cristalino à mesa, colide com o da Fenaj, que advoga uma sinonímia entre as funções. Para além de conceitual, este entendimento tem razões corporativas – afinal, 60% das vagas ocupadas por jornalistas estão nas assessorias.

Bucci sabia da posição de Fenaj. A federação também conhecia a opinião do jornalista, e mesmo assim o convidou para a discussão.

Público

A exemplo de outros eventos que envolvem jornalistas, o seminário reuniu mais estudantes que profissionais. Entre os mais de 300 participantes, a maior parte era de alunos dos cursos de comunicação do interior do Paraná e de delegados sindicais. Profissionais de redação e de assessorias eram escassos. Essa tendência é um problema de organização dos eventos ou de desarticulação da categoria? A pensar...

A voz da vítima

Outro ponto alto do evento de Londrina foi o painel que discutiu erros jornalísticos, deslizes éticos e a espetacularização da notícia. Não pelos debates que a mesa incitou, nem pelos seus palestrantes, mas pela presença de duas vítimas de erros da imprensa.

A jornalista Vania Mara Welte fez um minucioso relato do caso das "Bruxas de Guaratuba", que incriminou duas mulheres no interior do Paraná por suposto envolvimento com seqüestro, tortura, mutilação e morte de um menino de 5 anos num ritual de magia negra. O caso chacoalhou a mídia local em 1992 e resultou na condenação e prisão por sete anos das duas acusadas, Celina e Beatriz Abagee.

A jornalista detalhou a sucessão de erros no processo e vícios na condução. Mas o que tomou o público de assalto não foi a proporção e o desenho de um crime de imprensa, mas sim a presença das vítimas no evento. Celina e Beatriz foram à mesa e, para um auditório lotado, contaram a sua versão do caso, as violências a que foram submetidas e as conseqüências em suas vidas. Um depoimento arrepiante, emocionante, aterrorizador.

Que liberdade?

A Fenaj aproveitou a ocasião e apresentou o seu Relatório sobre Liberdade de Imprensa 2005. O levantamento é resultado de uma pesquisa em todos os estados brasileiros, na tentativa de oferecer um perfil das violências a que foram submetidos os jornalistas no ano passado. De acordo com o presidente da entidade, Sergio Murillo de Andrade, esta é uma versão preliminar do relatório, pois "espera-se que, com essa divulgação, as pessoas se motivem e novos casos sejam denunciados".

O documento descreve 64 casos de violência com base em informações em sites e boletins eletrônicos e nos relatos de sindicatos filiados. Destrinchados, os números apontam para 21 agressões físicas e verbais, dois assassinatos, duas prisões, sete atentados, dois desrespeitos a sigilo de fonte, um caso de lesão corporal em cobertura de risco, seis ameaças, seis episódios de censura e 17 assédios judiciais.

O estado de São Paulo foi o que mais registrou casos de violência – 12. Em 79% dos casos, as vítimas são homens, e são os homens os maiores agressores também, respondendo por 65% das ocorrências. Quatro em cada dez casos são ocasionados por políticos ou seguindo motivações políticas.

Segunda edição

Bem organizado, o evento reuniu alguns dos nomes mais proeminentes no debate sobre a ética jornalística. Estavam por lá Bernardo Kucinski, Eugenio Bucci, Carlos Alberto Di Franco e Francisco José Karam, entre outros. Os debates foram concorridos e a sensação geral foi bastante positiva. Satisfeito com os resultados, o Sindicato dos Jornalistas de Londrina já anunciou um segundo Seminário Nacional de Ética no Jornalismo, em 2008.

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 RITA DE CÁSSIA TIRADENTES REIS
 Enviado em: 13/04/2006 19:52:14

Um conselho de ética se faz imperativo nesse momento, vemos a classe jornalística tão importante para a democratização e manutenção dessa democracia, na verdade incipiente nesse pais, vitimada pelo descrédito da população. Até que ponto o Jornalista não é responsável pelo que escreve? Até que ponto o Jornalista não tem o dever de confirmar primeiro a notícia antes de publicá-la? Até que ponto a "linha editorial" é mais importante que a verdade? O jornalismo informativo deve ser bem diferenciado do formativo e isso deve constar, pois a confusão entre esses leva, muitas vezes, a idéia deturpada da verdade, onde a verdade de um pode e deve ser colocada, mas não de forma a tentar somente manobrar com os fatos, a fim de gerar pseudas verdades. O jornalismo pode e até deve ser opinativo, mas nunca partir de pressupostos falsos para gerar uma mentira, ou uma meia verdade. Posso não gostar de algo, mas tenho que respeitar a opinião contrária, isso é ética de vida mas, muitas vezes desrespeitado por quem tem a pena na mão.

Sou botafoguense mas, ao opinar, é importante que, se eu for parcial, o leitor saiba que eu sou. Como o botafoguense Saldanha e o tricolor Nélson Rodrigues, senão eu estarei sendo leviano. Para que o bom jornalista, o jornalista íntegro seja respeitado e a profissão retorne a ser MAIS DIGNA, urge um conselho punitivo dos maus e salvaguarda dos bons. UM MAU JORNALISTA CAUSA MAIS MAL DO QUE UM MAU MÉDICO, DO QUE UM ADVOGADO RUIM, OU DO QUE UM PROFESSOR ANALFABETO.

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