TRANSPARÊNCIA & ISONOMIA

A imprensa também é uma corregedoria

Por Alberto Dines em 07/02/2012 na edição 680

 

A sociedade respirou aliviada, a imprensa exultou: a decisão foi suada, sofrida, apertada (6 a 5), mas o colegiado do Supremo Tribunal Federal manteve o poder do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para investigar e punir magistrados sem depender das corregedorias dos tribunais locais.

O Estado de Direito recuperou todas as suas prerrogativas, sobretudo aquelas que dizem respeito à isonomia e à transparência. Todos os cidadãos voltam a gozar de idêntica proteção e obrigações. Em matéria de privilégios institucionais apenas os legisladores mantêm o direito de ser julgados pelos pares, cláusula fundamental da estrutura republicana.

Foi uma vitória da corregedora nacional de Justiça, a ministra Eliana Calmon, que enfrentou com galhardia e serenidade o corporativismo enfurecido das associações de magistrados apoiadas ostensivamente por alguns ministros da Suprema Corte.

Bom começo

Foi também uma vitória da mídia, em especial da impressa, sobretudo dos jornais que se empenharam com rara determinação. Fica definitivamente ultrapassado o capítulo da emasculação do nosso jornalismo pela prepotência togada. A bandeira da transparência foi finalmente hasteada pelos principais veículos do país e, com isso, tornou-se público o seu compromisso com o combate à impunidade.

O Conselho Nacional de Justiça é um contrapoder. Tal como a imprensa, é parte essencial do sistema de freios e contrapesos (checks & balances) que garante o funcionamento da democracia.

A complexidade da cobertura do Judiciário exige conhecimento especializado; mais do que isso, exige persistência, teimosia. A própria decisão do STF ainda pode ser reformada caso outra ação ou outra liminar tente contorná-la. A criatividade nessa matéria é ilimitada. Sobretudo numa estrutura cartorial como a nossa.

Por outro lado, o cidadão brasileiro começa aos poucos a se familiarizar com alguns aspectos do cipoal jurídico-forense. Quer mais, quer entender o que está por trás do dialeto bacharelesco que a mídia despeja em cima dele.

O ano começou bem em matéria de visibilidade, translucidez, participação, cidadania. Poderá terminar ainda melhor se a imprensa capacitar-se da sua função corregedora, saneadora e assumir-se como instituição autônoma, permanente. O smartphone, para isso, é insuficiente.

Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade e a pluralidade de idéias e de pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem a intolerância ou o crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Mensagens que não atendam a essas normas serão deletadas - e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.

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 Ibsen Marques
 Enviado em: 07/02/2012 10:57:44
Pois é, é isso que me preocupa. A imprensa foi tão combativa no caso que fico me perguntando qual interesse escuso estaria por trás disso? Sim, porque nehuma ação anterior de nossa imprensa corrobora esse ar de independência reportado pelo Dines. Como diz o dito popular: Gato escaldado tem medo de água fria!
 Ana Lucia Amaral
 Enviado em: 07/02/2012 12:47:26
Concordo, Dines, que a imprensa trabalhou bem.Todavia, em muitas matérias, se percebe que o profissional foi na conversa de alguém.Tem que ouvir todos os lados e correntes, concordo.Mas ao fim e ao cabo, deve apresentar ao público leitor uma depuração do declarado, uma análise mais cuidadosa.Só abrir o microfone ao entrevistado, e transcrever/degravar é apenas uma parte. Antes da instalação da constituinte, em programa chamado "Vamos sair da crise", o jornalista Gilberto Dimenstein declarou que o Poder Judiciário era o buraco negro, mais apropriado do que "a caixa preta" usado por Lula e repetido por muitos. Não dá ainda para a sociedade cantar vitória. A imprensa tem que se manter vigilante acompanhando os processos que no STF ainda atacam o CNJ. O juridiquês ainda é forte e é preciso consultar quem entende, e não quem quer captar clientela.
 Teócrito Abritta
 Enviado em: 08/02/2012 11:36:19
Indubitavelmente a votação no Supremo foi uma vitória da imprensa e dos milhares de cidadãos brasileiros que manifestaram sua indignação contra tribunais, diríamos, no mínimo omissos. Mas apenas uma pequena vitória, posto que este é o país do desrespeito às leis e à Democracia, como vemos na greve de policiais na Bahia, onde um general com missão de cumprir a lei, simplesmente confraterniza com aqueles que a desrespeitam com violência criminosa. Outros desrespeitos ás leis vem justamente do Tribunal de Justiça de São Paulo, onde num verdadeiro clima de insurgência, durante a posse do seu novo presidente foram feitos ataques ao CNJ, numa flagrante quebra da hierarquia judiciária e para agravar com a presença de dois membros do Supremo e presidente do CNJ. Preocupante também é a portaria que podem ler no link abaixo. Se outras categorias profissionais organizarem comissões de segurança, não acabaríamos em um paraíso de milícias ilegais? http://www.migalhas.com.br/Quentes/17,MI149228,31047-TJ+SP+cria+comissao+de+seguranca+pessoal+e+de+defesa+das
 rodrigo aguiar
 Enviado em: 08/02/2012 15:26:44
Olha, quando vejo um ministro como Gilmar Mendes esbravejar a favor da autonomia do CNJ nas investigações a magistrados, fico com um pé atrás. Eu que, a princípio, sempre concordei com o procedimento. De certa foma, pensando numa improvável -mas possível- "teoria conspiratória" parece que estamos assistindo a uma concentração de decisões. Se, neste momento, os casos envolvem corrupção (chaga sensível ao público), quem garante que, no futuro, este órgão, centralizado e de mais fácil controle, não passe a julgar magistrados que derem decisões contra gente graúda? Graúda daquelas que só nosso país consegue produzir?
 Cristiana Castro
 Enviado em: 08/02/2012 22:24:09
O interesse escuso, Ibsen, e concordo com vc, plenamente, são os julgamentos do ficha-limpa e do Mensalão. A Imprensa está chantageando o Judiciário que está ficando acuado. A imprensa nativa só chegou aonde chegou com a cumplicidade do Judiciário. O Ficha-Limpa e o Mensalão são grandes demais, até para o Judiciário; esticaram a corda demais e a situação é a seguinte, se o Judiciário acusa as duas falácias midiáticas, o resto de credibilidade da grande imprensa ( se é que ainda existe alguma ), vai pro espaço. Por outro lado, se, pressionado pela mídia o judiciário ceder, vai pro espaço o Estado Democrático de Direito. Decisão fácil para os barões midiáticos e suicida para os membros do STF.
 fábio de oliveira ribeiro
 Enviado em: 10/02/2012 10:27:42
O corporativismo togado foi derrotado. Agora poderemos poderemos reformar o mais obscuro poder republicano. Republicano? A bem da verdade alguns juízes, aqueles que foram derrotados, agem como se ainda estivéssemos nos tempos da monarquia: eles, os juízes, os aristocratas acima da Lei e nós, os gentios, submetidos à lei e ao arbítrio deles. "Coitadinhos"... abaixo da Lei terão que remoer seus ódios pelos cantos, defender seus privilégios odiosos aos prantos. Mas ninguém mais dará atenção "especial" para eles, como deveria ser desde a proclamação da República.
 Webston Moura
 Enviado em: 10/02/2012 19:21:46
Caro Dines, o Observatório da Imprensa, meio que eu adoro, está passando ao largo disso: http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=64233. Vale investigar e discutir. Forte abraço!

Alberto Dines

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