DOIS FILMES SOBRE FILMES

A metáfora é o jornalismo

Por Alberto Dines em 21/02/2012 na edição 682

 

O Festival de Cinema que os grandes estúdios de Hollywood geralmente oferecem antes da cerimônia da entrega dos Oscar neste ano nos brinda com duas obras excepcionais – uma com 10 indicações, outra com 11 – inspiradas no mesmo tema.

O artista e Hugo (título americano) são metafilmes – cinema sobre o cinema. Também podem ser entendidos como metáforas sobre as demais artes. Inclusive o jornalismo. Ambos têm a ver com o impacto das novas tecnologias e, apesar da enorme diferença de formatos, estilos e relatos, fazem a mesma aposta na qualidade do conteúdo, no poder da reinvenção, na perenidade da criação artística independente das circunstâncias e das tecnologias empregadas.

O artista foi filmado em preto & branco, sem diálogos falados, apenas escritos, dentro do ritmo e paradigmas do cinema mudo, e focaliza o exato momento (fim dos anos 1920) em que a introdução dos talkies – os filmes falados – transformou radicalmente a cinematografia.

Hugo retrocede no tempo, vai à gênese do cinema, focaliza o seu criador, o mágico e ilusionista Georges Méliès, servindo-se do que há de mais moderno para contar a sua fábula sobre a máquina e o homem: cores deslumbrantes, efeitos especiais, 3D.

Há quanto tempo?

Os críticos de cinema, obviamente, examinam as obras per se, como espetáculo, sua obrigação é levar o leitor à sala de cinema e proporcionar-lhe os elementos subjetivos para tornar inesquecível a experiência. Alguns aproximam os dois filmes, a tentação é irrecusável, legítima.

Mas não é apenas o cinema que está em pauta nessas duas maravilhosas exibições da arte cinematográfica. O díptico foi montado casualmente, não houve combinação entre as produtoras, mas a aproximação é inevitável.

Também as conclusões: a indústria cinematográfica mundial – nela incluindo todos os segmentos profissionais – acredita no negócio, aposta no negócio, e mesmo como negócio consegue enxergar a sua porção de arte. O cinema vem sendo ameaçado há meio século, sobretudo pelos avanços técnicos da TV (agora perigosamente associada à internet). O que se convencionou chamar de “modelo de negócio” foi refeito meia dúzia de vezes, mas a indústria gosta do que faz. Adora filmes. E faz filmes que fazem gostar de filmes. Com qualquer tecnologia, plataforma, gênero e forma de produção.

Não é o que acontece com os comandantes atuais da indústria jornalística mundial. Na sua maioria, eles têm problemas com o jornalismo. As gerações anteriores divinizam a imprensa, fizeram dela uma entidade mítica, mas à medida que foram obrigados a fazer concessões, não a reconhecem mais, até a repudiam. Os primeiros a anunciar o fim dos jornais impressos – portanto, o fim do jornalismo como o conhecemos há 400 anos – foram os seus proprietários. E o fizeram até com uma ponta de euforia.

Há quanto tempo não aparece nos EUA ou Europa um jornal/revista primoroso, voltado para o leitor adulto? Não se sonha mais com o jornalismo perfeito, todos se satisfazem com as sobras.

O cinema é querido por aqueles que o fazem. Bem amado, nota-se. A indústria jornalística tornou-se mal-amada. E não esconde.

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 Gerson Chagas
 Enviado em: 21/02/2012 16:55:41
Dines, suas considerações são primorosas. Seja qual for a tecnologia utilizada, o que deve prevalecer sempre é o talento, estético , técnico ou retórico. Pena que , de forma geral, tais atributos tenham sido sufocados pela brutal maquinação que visa somente ao lucro , desmedido e despudorado. No caso do jornalismo, tal fato beirando o paroxismo.
 Ricardo Oliveira
 Enviado em: 24/02/2012 15:59:37
Pelo conjunto de seus artigos, posso afirmar que o nobre observador considera o jornalismo como ofício, e não como profissão.
 Agliberto Correia
 Enviado em: 24/02/2012 20:19:24
Podemos incluir, caro Dines, mais um elemento e daí resultar num tríptico: a Educação. As chamadas redes sociais, miniblogs e twitters da vida restringem em muito o salutar hábito da boa leitura e da bela escrita - daí a expressão beletrista. Hoje, de forma crescente, se lê menos e se escreve ainda menos. Pode-se observar os comentários de vídeos do YouTube e outros portais onde o internauta é convidado a opinar da aproximação surreal da escrita à fala inundade de gírias. A imprensa sofre porquanto o público é mal alfabetizado. As escolas, por exemplo, não são dotadas de assinaturas de jornais. Não existe mais hemerotecas nas Salas de Leitura desde o ensino fundamental ! Professores não são vistos mais lendo e sim acessando orkut e facebook em seus notebooks, postando " scraps " e difundindo pirâmides de orações à anjos da Guarda e pps com mensagens do tipo " fazei o que vos posto mas não o que eu faço ". No cinema o público é bombardeado por propaganda subliminar e gratuita e num jornal, não. Por isso, a função do Observatório da Imprensa ser ímpar e fundamental nesses dias de caos. Por isso, subvertendo Saint-Exupèry n' O Pequeno Príncipe: " (... ) o e$$encial é invisível para os olhos. " Com os cifrões, mesmo. Afinal, " Pecunia gratia pecunia ".

Alberto Dines

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