REALENGO, 7/4/2011
Afinal, como se narra a dor?
Por Rogério Christofoletti em 14/04/2011 na edição 637
Os tiros da manhã de quinta-feira (7/4) na zona oeste do Rio de Janeiro sacudiram as atenções da maioria dos brasileiros. Como se estivéssemos em um sono profundo, fomos atirados da cama para perceber uma realidade assustadora e terrível. O resultado aterrador do massacre na escola de Realengo era algo que sempre imputamos aos norte-americanos, um povo tão beligerante que se arma até em supermercados. O resultado do massacre é uma fila de corpos de quem cultivava seu futuro ainda de forma muito adolescente. O resultado é o aparecimento de personagens como o atirador, movido por razões ainda desconhecidas, moldado pela solidão, frustração e pensamentos doentios.
Infelizmente, o país já havia visto adolescentes vitimados pela violência urbana. Desconhecido ainda era o anônimo que encarna o mal e dispara o gatilho não mais a esmo, mas escolhendo suas vítimas, alvejando órgãos vitais, recarregando reiteradamente as armas, disposto a acabar com tudo.
Dúvidas, dúvidas
Os tiros da manhã de quinta-feira em Realengo chacoalharam também as redações brasileiras. Todas as pautas despencaram; equipes se rearticularam para dar conta de uma cobertura difícil, delicada, indigesta. Difícil porque os canos das armas ainda estavam fumegando quando os primeiros repórteres se precipitaram até o local do crime, e porque nem mesmo as autoridades que cuidavam do caso estavam suficientemente informadas do que estaria acontecendo.
Uma cobertura como essas é delicada porque envolve grandes cargas de emoção, porque é fácil deixar-se contagiar por essas emoções e relegar a informação a segundo plano. E tal cobertura é indigesta porque ninguém com alguma sensibilidade humana se satisfaz em cumprir um serviço como este.
É claro que não poderia ser de outra forma. O fato invadiu a rotina das pessoas pela tela da TV, pelos quilômetros de páginas de jornais e revistas, pelo rádio e internet. Tornou-se rapidamente o assunto mais comentado, o principal nas rodas de conversa, no ponto de ônibus, nas salas de aula.
A onipresença do fato nos meios de comunicação dá a ele uma dimensão maior ainda. Então, não é possível escapar de alguns questionamentos:
**
Não está exagerada essa cobertura?**
É possível fazer algo menos dramático e emocional? Como se faz isso?**
Ao abordar parentes e vítimas, como repórteres devem se comportar em momentos tão delicados?**
Os rostos das crianças sobreviventes devem ser mostrados, contrariando os muitos cuidados que recomenda o Estatuto da Criança e do Adolescente?**
Voltar à cena do crime para apresentar o telejornal ao vivo não é fazer sensacionalismo?**
Produzir videoclipes com fotos das vítimas com um fundo musical melancólico não é demasiado?**
Chegar às bancas com uma capa de jornal que mostra asas de anjo em fundo negro não transcende as fronteiras do que é essencialmente informativo?**
É possível que os profissionais de imprensa se blindem emocionalmente para narrar esses fatos? E é esperado que isso aconteça? Em nome do que se faria isso?**
Afinal, como é que se reporta a dor dos outros na mídia?As dúvidas são muitas, mas elas interessam inicialmente a quem está atrás dos microfones. Àqueles que tentam amenizar a ausência de um filho ou se perguntam o porquê de tudo aquilo, a esses restam indagações sobre o sentido da própria continuidade da vida.
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| Desiree moyens |
| Enviado em: 14/04/2011 19:12:19 |
| Li um texto muito bom... Indico http://www.administradores.com.br/informe-se/artigos/quando-morrem-os-inocentes/54018/ Mas algumas coisas me parecem exagero da mídia... Abs Desiree |
| Ricardo Oliveira |
| Enviado em: 15/04/2011 15:45:21 |
| Asas brancas de anjo em fundo negro, ocupando toda a página, foi uma coisa terrível. Fiquei incomodado quando vi a manchete. E ainda tinha o título, não sei se do mesmo jornal das asas Adeus ,crianças" . Esse jornais, aqui do Rio, extra, meia hora , expresso e o dia são jornais populares, o que não justifica tamanha barbaridade nas capas. Aliás, não considero essas coisas jornais, mesmo que vendam e que pessoas se interessem por esses lixos. Nesse momento em que discutimos as barbaridades, de Realengo e da imprensa, sugiro assistir ao filme, "Primeira Página", que trata do dia-a-dia de uma redação e os interesses envolvidos para noticiar os fatos. |
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