NOMEAÇÕES DE DILMA

As encruzilhadas da História

Por Mauro Malin em 25/02/2012 na edição 682

 

Eliane Cantanhêde avalia na edição de sexta-feira (24/2) da Folha de S. Paulo que a nomeação de Eleonora Menicucci para a Secretaria de Políticas para as Mulheres prepara o momento em que será feita a fotografia da presidente Dilma Rousseff para a História. Menicucci, escreve Cantanhêde, é uma mulher de ideias fortes quanto a aborto, relações homoafetivas e investigações sobre a tortura durante a ditadura militar.

A narrativa é plausível, embora não deva escapar a seus destinatários a circunstância de que a imprensa, a “velha mídia”, trata Dilma com uma deferência raramente vista no país. Não cabe aqui discutir a razão de jornais e revistas fazerem vista grossa diante da responsabilidade específica da presidente pelo que acontece em seu governo, principalmente no primeiro escalão.

Essa leniência pode ser contrastada com crítica feita por Luiz Werneck Vianna, no Estado de S.Paulo (14/2), à nomeação de Agnaldo Ribeiro para um ministério de grande importância, o das Cidades, encarregado, como diz o articulista, de “administrar o urbano, dimensão crucial da vida contemporânea”.

Linhagem do agreste paraibano

Agnaldo é neto de um usineiro famoso do agreste paraibano, Aguinaldo Velloso Borges, acusado de ter mandado matar em 1962 o líder camponês João Pedro Teixeira, o cabra marcado para morrer do documentário de Eduardo Coutinho. O mesmo Aguinaldo foi apontado em 1983 como “responsável pelo assassinato sob encomenda de Maria Margarida Alves, símbolo das lutas femininas no País, cultuada na Marcha das Margaridas”, diz Werneck.

Não se trata de culpar o neto pelo avô. Werneck trabalha com o conceito sociológico de capital social: o agora ministro Agnaldo chegou à Câmara dos Deputados, pelo Partido Progressista, como expressão contundente do que há de reacionário na forma de imposição da modernização brasileira.

Processo que deita raízes “no pacto implícito – quando necessário, explicitado – entre as elites modernas e as tradicionais”, desde sempre, passando por Vargas e JK, e pelo regime militar, e que “ora se renova, conquanto de modo velado, nos governos Lula e Dilma Rousseff”, como se renovou no governo de Fernando Henrique Cardoso.

No caso da carreira política de Agnaldo Ribeiro, trata-se dos setores das elites tradicionais “vinculados social e politicamente à história do exclusivo da terra e ao sistema de controle autocrático que ele impôs no hinterland”, especifica Werneck.

O professor da PUC-Rio apoia-se em reportagens de Raphael Di Cunto (Valor, 3/2) e de Fábio Fabrini (Estado, 4/2) para descrever “a projeção na política regional da rede familiar do novo ministro”, cuja mãe é prefeita de Pilar e cuja irmã deputada estadual é candidata à prefeitura de Campina Grande, “sem contar outros membros de sua parentela em posições de comando na vida local e até na prestigiosa Embrapa, ponta de lança da moderna agricultura brasileira”.

Modernidade e atraso de mãos dadas

Werneck vê aí...

“...a mais perfeita tradução da quasímoda articulação, no processo de modernização capitalista do país, entre o moderno e o atraso, e que se vem atualizando por meio da conversão do imenso estoque de capital social, econômico e político do latifúndio tradicional, que se processa no circuito da política e mediante favorecimento da ação estatal, em que seus herdeiros se reciclam para o exercício de papéis modernos, (...) lado obscuro do nosso presidencialismo de coalizão, via escusa em que os porões da nossa história se maquiam e mudam para continuarem em suas posições de mando”.

É preciso esclarecer, como faz Werneck en passant, que Agnaldo Ribeiro respondeu em seu estado a processos por improbidade administrativa.

Sempre haverá quem defenda a decisão presidencial em nome da famosa governabilidade, sem compreender, talvez, que ela pode se tornar palavra oca, ou mesmo perversa, quando perpetua a dominação herdada dos senhores de baraço e cutelo, hoje experts no coronelismo eletrônico, instrumento que veio se somar há algumas décadas às nomeações para cargos públicos e aos negócios propiciados por obras e serviços.

Sem ilusões, cabe torcer para que prevaleça na História a imagem da presidente empenhada na modernização, da chefe política capaz de garantir avanços decisivos no rumo da diminuição da desigualdade social, da consolidação da democracia e da participação crescente dos cidadãos – em detrimento dos acertos “por cima” – nas discussões e decisões que afetam suas vidas e afetarão as de seus descendentes.

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 shirl lima
 Enviado em: 26/02/2012 15:33:50
Uauuuu!!! Ele é assim... tipo Família Sir Ney???
 José Albino
 Enviado em: 27/02/2012 10:58:57
O jornalista Mauro tem toda a razão, assim como o jornalista Luiz Werneck. É preciso que a população de eleitores cobre de seus eleitos uma coerência com relação a alianças espúrias com partidos e legendas espúrias. Alianças como estas marcaram já o primeiro governo eleito pelo povo após a ditadura, cujo presidente sairia depois por impeachment, mas deixou gravado para a história seu vice, que empossou um senhor como ministro da economia, no estilo “governo social” já em voga, assinalando um aliança, e este senhor diplomado em economia pela vida, e empossado durante o vanguardista e impoluto governo herdeiro do impeachment do representante dos usineiros alagoanos, acabou por montar uma chapa na eleição seguinte chamando para vice outro camarada dos usineiros, este agora das moendas de Pernambuco, ex-senador biônico de Geisel, representante legítimo da vanguarda anti corrupção, e assim reinaram por oito consecutivos anos, conforme permitiu a lei então alterada para tal. E a história se repete agora, no governo do quarto presidente eleito após 7 pleitos de eleição direta pós ditadura, indicando que alianças espúrias são males ainda longe de serem combatidos, mas devem ser sempre denunciadas. Sinais de que a política nunca foi o habitat da ética e das boas intenções, das boas alianças. Apesar da lição não ter sido aprendida em 7 eleiç

Mauro Malin

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