LIVRO-DENÚNCIA

As relações perigosas da imprensa

Por Luciano Martins Costa em 13/12/2011 na edição 672

Comentário para o programa radiofônico do OI, 13/12/2011

O ruidoso silêncio dos jornais de circulação nacional em torno do livro A privataria tucana, do jornalista Amaury Ribeiro Jr., diz muito sobre o que tem sido, nos últimos anos, o viés político da imprensa brasileira. Mas deixa ainda mais obscuros os escaninhos da relação entre o ex-governador, ex-ministro, ex-prefeito e ex-senador José Serra com a cúpula das empresas de comunicação dos principais centros do país.

Repórteres que acompanham a carreira desse político paulista se habituaram há muito tempo a aceitar como normal sua ascendência sobre as cabeças coroadas da imprensa tradicional. Nunca ocorreu a ninguém – ou se ocorreu, nunca antes qualquer profissional havia enfrentado essa tarefa – vasculhar os segredos dessa estranha relação.

O livro de Ribeiro Jr., pelo menos nos trechos já divulgados em entrevistas que circulam pela internet e reproduzidos por blogs, levanta hipóteses que podem conduzir a conclusões perigosas demais para serem tratadas com leviandade. Talvez seja essa exatamente a razão pela qual os grandes jornais ainda não se dispuseram a entrar no assunto com a dedicação que ele merece.

Silêncio da imprensa

Se é verdade metade do que já se disse sobre a investigação de Ribeiro Jr., deve haver motivos para preocupações em muitas casas de boa reputação. Mais alguns dias e os primeiros compradores terão completado a leitura das 334 páginas do livro, e então o silêncio da chamada grande imprensa será de pouca valia.

Argumentando-se que é apenas a cautela do jornalismo responsável o motivo de tamanha retração – pois seria leviano conceder o aval da imprensa ao livro e seu autor sem uma leitura cuidadosa da obra – ainda assim não se pode escapar de uma comparação com outros livros sobre políticos publicados recentemente.

Não é mistério para as pessoas afeitas ao mister do jornalismo que muitas das resenhas publicadas pela nossa imprensa são produzidas por osmose, sem que os redatores de cadernos de cultura tenham que se dar o trabalho de ler inteiramente a obra analisada. O método é descrito deliciosa e ironicamente pelo escritor Ronaldo Antonelli, ex-redator do jornalismo cultural, em seu romance O crepúsculo das letras.

Foi assim, claramente, que alguns livros sobre políticos ganharam destaque recentemente. Principalmente aqueles escritos por seus desafetos, como foram os casos daqueles que têm como personagem o ex-presidente Lula da Silva.

Se o caso é de esperar que algum bom resenhista termine sua leitura, louvado seja o silêncio da imprensa em torno do livro-bomba de Amaury Ribeiro Jr. Caso contrário, pode-se dizer que se trata do silêncio dos indecentes.

Choque de realidade

Há evidências de que o viés conservador da imprensa nacional se transforma em padecimento mental. A possibilidade de que um livro venha a desfazer a imagem pública de um aliado político parece paralisar as grandes redações.

Mesmo a hipótese de que se trate de uma grande farsa, a esta altura muito improvável, seria motivo para que o tema atiçasse a curiosidade dos editores. Se nem a possibilidade de provar que se trata de uma armação, com a consequente canonização midiática de José Serra, é capaz de mover os grandes jornais, pode-se afirmar que a imprensa precisa de um choque de realidade.

Uma imprensa ruim ainda é melhor que nenhuma imprensa, mas para merecer o respeito da sociedade é preciso algum sinal vital de jornalismo, ainda que tênue. A imobilidade das grandes redações diante de um escândalo potencial como o que representa o livro de Amaury Ribeiro Jr. alimenta de argumentos aqueles que defendem o controle externo da mídia.

A melhor defesa é o esforço pelo jornalismo de qualidade, que inclui banir a prática da lista negra de pautas indigestas.

Leia também

O escândalo do século – L.M.C.

 

Observatório na TV

O Observatório da Imprensa debate na terça-feira (13/12) dois temas correlatos: a questão da classificação indicativa de programas de rádio e televisão e a possível volta da obrigatoriedade do diploma de jornalismo.

A questão do controle da programação por faixas etárias é motivo de ação das emissoras junto ao Supremo Tribunal Federal. A volta do diploma é proposta em projeto de emenda constitucional que tramita no Congresso Nacional.

Participam do programa, no estúdio com Alberto Dines, os jornalistas e professores Venício Lima e Muniz Sodré. Por meio de entrevistas gravadas, contribuem o jurista Célio Borja, a educadora Regina de Assis, os jornalistas e sindicalistas Celso Schroder e Ricardo Pedreira, e Veet Vivarta, secretário executivo da Agência Nacional dos Direitos da Infância.

O Observatório da Imprensa vai ao ar a partir das 22 horas, ao vivo, pela TV Brasil. Em São Paulo pelo canal 4 da Net e 116 da Sky.

Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade e a pluralidade de idéias e de pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem a intolerância ou o crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Mensagens que não atendam a essas normas serão deletadas - e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.

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 Elaine Pinto
 Enviado em: 13/12/2011 08:51:48
É realmente significativo o silêncio sepulcral da grande mídia em torno do livro. Não sei quando foi a última vez que um livro que vendeu, só na primeira semana, 15 mil exemplares foi tão solenemente ignorado pelos jornalões e demais órgãos de imprensa. Um fenômeno.
 Luciano Prado
 Enviado em: 13/12/2011 10:53:21
Houve época em que esse Observatório também andou emudecendo. Raros os artigos que de forma contundente contestavam os métodos da velha imprensa brasileira. De uns tempos para cá, este espaço tem mudado e muitos dos senhores jornalistas que frequentam este espaço perderam de vez o temor da crítica aos métodos dos barões a velha imprensa. Mesmo Alberto Dines que sempre foi um dissimulado em relação aos malfeitos da velha imprensa tem colocado as manguinhas de fora e colaborado em alguma medida para que a imprensa volte ao caminho do qual nunca deveria ter saído. É por isso que sou um otimista com relação ao futuro da imprensa. Porque jornalistas estão perdendo o medo de criticar seus pares e as redações comprometidas com a ilegalidade e a imoralidade. Ainda falta muito. Os senhores patrões têm a boca enorme, não conseguem fazer jornalismo se subordinando aos fatos. Interesses escusos têm pautado o que eles chamam de jornalismo. Mas trincheira têm sido montadas de modo a não permitir o avanço dessa indecência.
 Ricardo Oliveira
 Enviado em: 13/12/2011 11:13:31
Quando o ex-presidente Fernando Collor voltou à política, conseguiu uma vaga no Senado. Em seu primeiro discurso como Senador, inevitavelmente abordou questões relativas aos processos de impedimento do exrcício da presidência - político - e corrupção - jurídico. Nenhum veículo da velha mídia comentou o discurso do então Senador, talvez por vergonha, talvez por medo, talvez por auto-censura, talvez ... É sabido que a velha mídia teve papael significativo na eleição de Collor como também no processo de impedimento. Agora temos o caso da maior roubalheira no país no período republicano, a privataria tucana. Mais uma vez a velha mídia, em grupo ou em quadrilha, nada produz sobre o assunto. Talvez vergonha, talvez medo, talvez auto-censura, talvez... Também é sabido que essa mesma mídia teve papel significativo nas eleições de FHC,como também na existência de segundo turno em 2006 e 2010, além das inúmeras tentativas de sangrar o governo como o caso da "escandalosa" corrupção de oito reais, valor pago por uma tapioca para um ministro. A Presidenta Dilma sempre afirma que prefere o barulho da mídia ao silêncio da censura, referindo-se a liberdade de imprensa. Assistimos agora, de forma inequívoca, uma auto -censura , organizada, nos principais veículos de mídia. Como fica a liberdade de imprensa e o direito do cidadão a ser corretamente informado ? A regulação da mídia é urgente.
 michael cruz
 Enviado em: 13/12/2011 11:51:40
Mesmo que não haja repercussão alguma na grande mídia e respaldo nos poderes executivo, legislativo e judiciário, o livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr. Já se mostrou um divisor de águas. Primeiro porque tornou visível o poder da internet – blogs e redes sociais - na divulgação de informações, pegando desprevenida até a própria editora. Depois, e aqui vem o pior da política brasileira, porque demonstrou claramente (através de documentação com “fé pública”) que: 1) o silêncio da grande imprensa tipifica sua parcialidade total e envolvimento com os esquemas apontados no livro; 2) cai o manto de competência e honestidade de figurões como FHC e filho, Serra e famiglia, num esquema de lavagem de dinheiro e transações imorais, incluindo arapongagem, nunca antes vistos no país: 3) a falta de ação e conivência do PT tem motivos ( pacto de governabilidade do Lula/Dilma?) 4) há petistas “trabalhando” para a mesma imprensa que os critica; 4) o poder judiciário deixa crimes do colarinho branco correr à solta; 5) para o congresso, com raras exceções como o deputado Protógenes, é melhor nem comentar.
 julio neto
 Enviado em: 13/12/2011 12:46:24
O silencio da mídia é assustador. Mostra falta de respeito com o cidadão que não tem o direito sequer de saber sobre um livro, lê-lo e tirar suas proprias conclusões.
 IVAN LOMEU
 Enviado em: 13/12/2011 15:00:20
Caro Dines, Acompanho e admiro o programa. Lamento que não há nada que retrate a realidade da educação mineira. Foram 112 dias de greve, a maior da história de Minas . O governo ignorou o piso salarial nacional, a grande mídia ignorou completamente a situação. Somente nas bancas de São Paulo que tivemos visibilidade na imprensa, o que causou horror ao governo quando a folha publicou que MG paga 369,00 de piso aos professores, o pior salário do Brasil. Precisamos de Amaury nas Minas.
 Boris E. Dunas
 Enviado em: 13/12/2011 15:05:25
Afinal de contas, é bom ou ruim que a “mídia” (outra terminologia tão cara ao petismo) esteja definhando? Certamente haverá quem defenda que foi esse tal “viés conservador da imprensa nacional” que a deixou em tão maus lençóis. Mas por que existe tanta dificuldade em nomear um único jornalista conservador de fato? Ou um único político que não fuja como o diabo da cruz ao ser anatematizado como “de direita” e corra incontinenti a lamber os pés da [ ] de turno para provar que “não é tão mau assim”? Ou seria ainda esse violento direitismo da imprensa o que a obriga, neste século XXI, a amargar a mesma circulação que tinha há 50 anos, em que pese o crescimento vegetativo da população ter quadruplicado? Controle social? Regulação? Esperem mais um pouquinho que ela se esfarela sozinha por excesso de reacionarismo, caramba! Então a esquerda realizará enfim seu sonho dourado de implantar o Granma verde-amarelho... e rojo.
 cristina marioto
 Enviado em: 13/12/2011 16:30:09
Vivemos em uma ditadura midiatica. Somente vira notícia nos jornais sites dos mesmos, alguns períodicos semanais, o que é do interesse dos seus patrões. Não queria acreditar na teoria da conspirção., alguns meios de comunicação estão seguindo direirinho essa cartilha que é muito perigosa para a democracia do país. Se não fosse alguns Blogs se não fosse a disseminação de informações pela internet com certeza não saberiamos da existência desses documentos comprometedores que é o livro a privataria tucana.
 Ney José Pereira
 Enviado em: 13/12/2011 17:48:35
E ninguém sabe o que é pior (para a população brasileira): Se a privataria tucana ou a estataria petista!!!.
 maria lucia pereira de sampaio
 Enviado em: 13/12/2011 20:37:48
Acho interessante que os opositores aos governos Lula e Dilam, não se deem conta de que o Brasil foi roubado pelo governo FHC! Além disto, saem em defesa do indefensável, enquanto os acusados não se defendem, se fazem de mortos. Vai ser como a campanha das Diretas Já, que a Globo tentou esconder... Não vão conseguir! Parabéns pelo texto.
 Max Suel
 Enviado em: 13/12/2011 21:20:14
É o maior barato: todos falam de um livro que nunca leram nem nunca lerão .... e o citam como se verdade verdadeira fosse, mesmo sem tê-lo lido ... falando nisso: quando o ministro mineiro amigo da presidente Dilma vai responder às perguntas levantadas pelo Globo?
 Ney José Pereira
 Enviado em: 15/12/2011 14:30:26
Por que o tal FHC disse que o tal mensalão é uma "teatralização"?. O tal FHC -além do tal STF -Supremo Teatral Federal- também tem interesse na prescrição do processo do mensalão?. PS. E aqui no Brasil quando não há privataria tucana há estataria petista!. Nunca antes na história deste país se fez tanta corruptaria!. E pior: Corruptaria em nome da democracia!. Se fosse em nome da ditaduria ainda se entenderia!.

Luciano Martins Costa

luciano@revistaadiante.com.br

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