WILSON MARTINS (1921-2010)

Crítico é atacado depois de morto

Por Deonisio da Silva em 27/04/2010 na edição 587

Quando o escritor Josué Montello morreu, fui procurado para falar (mal) dele. Em entrevista a Geneton Moraes Neto, no Jornal do Brasil, e em artigos assinados no Estado de S. Paulo, eu tinha feito várias ressalvas, não apenas à sua obra, mas à sua atuação como personalidade literária que era. Josué Montello respondera-me em grandes jornais, eu dera a tréplica no Verve, pequeno jornal editado por uma equipe presidida por Ricardo Oiticica, em Niterói (RJ).

Há quase trinta anos mantenho coluna semanal no Primeira Página, pequeno jornal de São Carlos (SP). Acredito muito nos pequenos jornais. Eles completam as falhas geológicas dos grandes. E a imprensa do período, ainda mais agora com os mecanismos de busca, jamais será a de um jornal apenas, como já foi no passado.

Ao me negar a falar de Josué Montello depois que ele morreu, comentei a advertência que, na Odisséia, Ulisses faz à Ericléia, que se alegra com o massacre dos pretendentes, popularizada pela seguinte expressão do latim vulgar: "De mortuis nil nisi bene" (Dos mortos nada, a não ser o bem).

Escrevera aqueles artigos e dera aquelas declarações a Geneton Moraes Neto quando eu tinha 35 anos! Hoje, aos 61, diria tudo o que disse de modo diferente. O outono nos ensina a moderação, mas fazer o quê? Pedro Nava definiu a experiência como um automóvel com os faróis virados para trás. Quer dizer, de pouco serve, pois o percurso já foi feito.

Sem espaços

Flora Süssekind, professora altamente qualificada, não deve desconhecer a recomendação que da literatura migrou para a vida cotidiana, mas perpetrou várias indelicadezas e equívocos no caderno "Prosa&Verso" de O Globo (24/4/2010). Não apenas com o que disse, mas com o que costuma silenciar, pois ela deve conhecer a qualidade de livros e autores que omite em suas pesquisas. Como disse Eduardo Portella, "o silêncio é aquilo que se diz naquilo que se cala".

O pior de tudo é que jamais discordou de Wilson Martins quando ele era vivo. Em cima de seu caixão, com o profissional morto, ela, não só desanca sua obra, como ainda fala mal de quem falou bem do crítico, aí incluídos referências da crítica literária, como é o caso de Alcir Pécora e Miguel Sanches Neto, comentaristas de inegável qualidade. Qual foi o erro dos dois? Discordar dela?

Destaco trecho do que escrevi na coluna de Augusto Nunes na Veja on-line, no dia seguinte ao falecimento do crítico:

"Wilson Martins dizia: `não comento autores, comento livros´. Fez a história da literatura brasileira de 1500 a 2009, acompanhando os lançamentos e garimpando neles o que achava relevante. Antonio Candido data sua história de nossas letras na segunda metade do século XVIII e vem até 1930. E nas universidades só ele é citado. Há décadas. Wilson Martins integra a multidão de esquecidos para que poucos possam aparecer louvados pelos mesmos de sempre".

A militância política dos professores não pode ser exercida em sala de aula. Ali há programas, ementas, objetivos e bibliografias bem definidos a cumprir. Sejam pagos por escolas públicas ou privadas, os mestres estão submetidos a hierarquias baseadas em relações de saber, não de poder, e precisam ministrar aos alunos um ensino de qualidade. Aqueles que substituem ações docentes por proselitismo estão traindo os alunos. Não é esta a única razão do notório fracasso escolar, mas é uma força considerável no rebaixamento da qualidade de ensino. O artigo de Flora Süssekind logo estará sendo citado e multiplicado em universidades para ajudar a deformar nossos cursos de Letras. A mídia vem sistematicamente negando espaço a quem faz literatura de qualidade, aí incluída a crítica, naturalmente, e por isso enseja a consagração de mediocridades.

Colunas suspensas

Há algo muito mais grave do que ensinar que não houve ou não há literatura brasileira. É fazer de conta que obras e autores do gosto do mestre sejam impostos aos alunos como únicas referências literárias. Naturalmente, o mestre tem seu gosto, que é também uma categoria estética, mas quem experimenta o prato é o cliente, não o garçom. E neste caso, críticos e professores são garçons.

Por melhor crítico que tenha sido Armando Nogueira, quem fez a jogada foi Pelé, foi Garrincha, foi Romário, foi Maradona, não ele. Ele não jogava, ele comentava. Exagerando um pouco, Sartre disse que "os críticos são guardiães de cemitérios". E ademais já não somos poucos os que achamos que é urgente uma revisão em nosso cânone literário, que consagra tantas mediocridades.

Os editores de cadernos literários usam sempre como recurso de argumentação que não há espaço para comentar mais livros ou outros livros, revelar outros autores, sair da geléia geral em que a maioria deles está há muitos anos. Por que, então, dedicar duas páginas inteiras para um solilóquio desses contra Wilson Martins? Não teria sido melhor abrir o mesmo espaço para uma saudável controvérsia?

Wilson Martins e Affonso Romano de Sant´Anna tiveram suas colunas suspensas em O Globo em agosto de 2005. Comentando o afastamento dos dois, escreveu Alberto Dines neste Observatório (8/8/2005):

"A maior empresa de comunicação do país, uma das maiores do mundo, não tem os caraminguás para manter uma instituição que dá à combalida cultura carioca o suporte erudito para o seu renascimento. De diferentes gerações (um é poeta e professor mineiro; o outro ensaísta e professor curitibano) ARS e WM são dois expoentes da cultura brasileira que O Globo oferecia ao seu público no mesmo dia e mesmo caderno".

Pois é. Olhem só para quem ocupou o lugar deles. Os leitores façam as suas comparações!

***

Escritor, professor da Universidade Estácio de Sá e doutor em Letras pela USP; seus livros mais recentes são o romance Goethe e Barrabás e De onde vêm as palavras

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 Antonio Ricardo Penha
 Enviado em: 28/04/2010 15:18:27
Sempre que necessito de inspiração para escrever meus artigos valho-me deste espaço que aos meus olhos se constitui num grande roteiro. Sempre fui um crítico ferrenho do trabalho daqueles que se dizem críticos. Ou seja, também sou criticado por destilar venenos sobre questões que me parecem inoportunas. Ao ler este artigo sobre Wilson Martins, na verdade sobre as mazelas que recaem em sua cova, lembro com gosto uma de suas frases lida num jornal qualquer. que dizia, quando eu morrer, certamente não terei escritores entre aqueles que vão segurar a alça do caixão. Mas com certeza terei oradores que postularão a oportunidade de dançar sobre a minha cova. Na verdade o crítico Wilson Martins era muito diferente do homem, do leitor e estudioso que morava em si. Arrumou uma gama de amigos da onça, inimigos literários e escritores que ficavam felizes em ser criticados por ele. Ou seja, receber uma consideração deste senhor era quase um "fala mal de mim,mas, falem". Hoje tenho a oportunidade de entender o seu limite, quanto a sua grande virtude de ler as obras dos outros e determinar relevância ou não de serem lidas. O Crítico está enterrado, deixem então que descanse em paz. Respeitem o homem que foi, na sabedoria dos muitos livros que leu oportunizando aos escritores bons ou péssimos, o valor de suas críticas nada democráticas. Não tive essa sorte, mas, quem teve reze pelo crítico.
 Teócrito Abritta
 Enviado em: 29/04/2010 23:56:12
Como creio já ter dito aqui neste Observatório, depois que a “estrela” da crítica literária de um destes “Prosa & Conversa” afirmou ser o livro mais importante lançado neste início de século, a obra de conhecido cantor-compositor-escritor, fica difícil acreditar nestes tais de cadernos literários. Creio serem meros mostruários para empurrar livros, muitos de qualidade duvidosa, sob encomenda de editoras. Nestes tempos de absoluta falta de ética e entorpecimento da cultura, onde poucos, muito poucos, pensam livremente e com honestidade, acabamos nestas farsas. Parabéns ao autor por suas críticas diretas, sem meias palavras.
 Ney José Pereira
 Enviado em: 01/05/2010 22:19:56
Flora Süsse o quê?. Mas, se os literatos são (imortais), então, falemos bem e mal deles (da obra deles)!. Por que falar apenas "bem" dos (i)mortos (das obras do (i)mortos)?. O proselitismo (geralmente prolixo professoral deveria ir mesmo pro lixo). Ninguém "ocupou" o lugar de ARS nem de WM!. O que sei é que antigamente o leitorado acreditava e admirava o que era escrito nos "jornais"!. Atualmente nem há mais leitorado!. PS: Ainda existem "cadernos de literatura"?. Sei que existem "informes publicitários" disfarçados de "matérias jornalísticas" para propagandear os livros editados por empresa do mesmo "grupo empresarial" dos jornais!. Em tempo: Essa tal literatura está muito futebolística!. Ou seja, há muitas fúteis paixões por muito poucas úteis reflexões!.
 Wallace Lima
 Enviado em: 04/05/2010 06:08:29
Vá entender as estranhas razões que levam a crítica especializada a omitir tantos talentos, detratar outros tantos e ajudar a manter sempre tão poucos na crista da onda.. Esse negócio de gosto na arte sempre me deixou inculcado: às vezes parece ter a ver com a natureza de cada um, o contexto socioeconômico, nível cultural e um monte de outros fatores menos evidentes, mas às vezes parece simplesmente não ter explicação, fica difícil determinar ao certo o que faz uma pessoa gostar de Paulo Coelho, e outra, de Clarice Lispector. Esta, num vídeo disponível na Internet, diz, durante uma entrevista, que um professor universitário de literatura lhe confessou já ter lido o seu romance "A paixão segundo G.H." pela quarta vez e não entender do que se trata, ao passo que, para surpresa dela, uma estudante secundarista lhe disse que tinha esse seu romance como seu livro de cabeceira. Você mencionou Affonso Romano de Sant Anna, Deonísio, e lembrei que no livro dele Análise Estrutural de Romances Brasileiros, onde o crítico adverte que talvez não exista literatura brasileira, me parece que, se nesse livro por um lado ele deixa transparecer o seu gosto por obras literárias dissonantes, singulares do ponto de vista estrutural, por outro procura deixar patente a dialética histórico-cultural das obras de estrutura "simples" e de estrutura "complexa", atribuindo-lhes portanto igual importância.
 Wallace Lima
 Enviado em: 04/05/2010 06:11:39
Eu me inclino a acreditar que por vezes um leitor pode estar familiarizado com livros mais simples mas se alguém, sem demonstrar desprezo pelo que esse leitor costuma ler e delicadamente for lhe apresentando outras coisas mais refinadas, esse leitor pode regalar-se desvelando universos novos e até passar a olhar para os livros de que gostava como alguém que começou a saborear pratos finos e depois de um bom tempo se vê diante de uma mesa repleta de comida enlatada e de receitas da vovó Cecília, restando-lhe contudo uma espécie de vínculo afetivo que empresta à "comida" um sabor que ninguém poderá sentir além dele; também pode-se dar que alguém habituado a livros mais densos, bem elaborados, de maior profundidade, de repente faça uma incursão em prateleiras mais simples e se surpreenda, e fique fascinado. Meu negócio é música, mas minha opinião de leitor apaixonado é que a crítica literária deveria recuperar dessa palavra, "crítica", o seu sentido mais nobre, que é o de "análise", análise isenta, ética, porque "desancar", "malhar", isso qualquer leigo está apto a fazer.
 Luiz Paulo Santana
 Enviado em: 05/05/2010 20:45:33
Para ser consumidor não é necessário pensar. Como estamos todos reduzidos à massa de consumir (eis aqui o exato conceito político de "massa", ou seja, algo disforme, ou que se pode amoldar à vontade), não é necessário pensar.

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