CASO WILLIAM WAACK

De interlocutor a “informante”

Por Marina Amaral e Natalia Viana em 10/11/2011 na edição 667

Fomos surpreendidas pela polêmica gerada por uma “notícia” publicada em um blog e reproduzida em grandes portais da internet de que o jornalista William Waack, da TV Globo, seria “informante” da embaixada americana – revelação que estaria dentre os documentos diplomáticos obtidos no ano passado pelo WikiLeaks. A notícia se espalhou pela internet, com grande repercussão nas redes sociais e no twitter. Chegou até mesmo ao site americano HuffingtonPost.

Alguns veículos reportaram ainda que Natalia Viana, uma das diretoras da Pública, como “representante do WikiLeaks no Brasil” teria confirmado tal informação. Dois equívocos: a jornalista Natalia Viana, não é, nem nunca foi, representante do WikiLeaks no Brasil. E não concordamos de modo algum que os documentos do WikiLeaks qualifiquem Waack como “informante” dos americanos.

Esclarecendo o primeiro ponto: em um trabalho voluntário para o WikiLeaks – organização que desafiou o jornalismo com sua exigência radical de transparência –, Natalia Viana foi responsável pela publicação e distribuição dos documentos diplomáticos referentes ao país, cujo conteúdo foi parcialmente relatado pelos jornais O Globo e Folha de S. Paulo,de novembro de 2010 a fevereiro deste ano.

Ao fundar a Pública, o primeiro centro de jornalismo investigativo do país, em abril deste ano, fechamos uma parceria com o WikiLeaks para trabalhar jornalisticamente com documentos obtidos pela organização de Julian Assange. Entre junho e agosto publicamos mais de 50 reportagens com base em documentos não publicados pela imprensa.

Cultivar fontes

Em meio a documentos utilizados como base para uma reportagem que tratava da relação entre a mídia brasileira e a missão diplomática americana, havia, de fato, três documentos que citavam William Waack como interlocutor de representantes dos EUA em três ocasiões: duas vezes com o cônsul americano em São Paulo, e uma vez com o embaixador Thomas Shannon.

Em setembro de 2009, em um encontro com o cônsul na presença de Sérgio Fausto, à época diretor do Instituto Fernando Henrique Cardoso (iFHC), Waack transmitiu uma versão, que circulava à época, de que os então governadores de São Paulo, José Serra, e de Minas Gerais, Aécio Neves, teriam acertado uma “chapa puro-sangue” do PSDB para disputar a presidência com Dilma Rousseff. O que, como sabemos hoje, jamais se concretizou.

Ao embaixador Thomas Shannon, em fevereiro de 2010, Waack teria dito que, em um fórum com empresários, Aécio Neves teria se mostrado “o mais carismático”, Ciro Gomes “o mais forte”, Serra “claramente competente” e Dilma “a menos coerente”. Waack é classificado pelo embaixador como “crítico ferrenho” do governo Lula. 

Em nenhuma passagem dos documentos se pede que a fonte (Waack) seja protegida – sinalizada pela observação de “please protect” (favor proteger) – que, nos documentos diplomáticos dos EUA, indicam fontes que passam informações relevantes, de bastidores ou internas. Há uma passagem dúbia em que se pode pensar que Waack é chamado de “insider”, mas nada na conversa aponta para o fato de ele ser mais do que um jornalista com algumas especulações sobre o futuro da disputa eleitoral.  

O simples fato de um político, jornalista ou empresário ir até à embaixada ou ao consulado americano não significa que ele seja considerado um informante pelos diplomatas dos EUA. Como sabem diplomatas e jornalistas, representantes estrangeiros se reúnem o tempo todo com pessoas do país para se informar, sentir o que pensam determinados setores, para afinar sua visão sobre a política ou a economia do país; é esse o seu trabalho. Do mesmo modo, não se pode criticar políticos ou jornalistas por se aproximarem dos diplomatas, também com o objetivo de buscar informações ou cultivar fontes que possam trazer novidades sobre as relações bilaterais.

Convicções políticas

Waack foi apenas um dos jornalistas que conversaram com diplomatas americanos. Outros nomes – como Fernando Rodrigues, presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) ou Leonardo Sakamoto, jornalista que cobre e luta contra o trabalho escravo no país (e que é conselheiro da Pública) – também são citados nos documentos do WikiLeaks em conversas com diplomatas americanos. 

Nada mais normal. Culpar um jornalista por ter conversado com um embaixador é como punir um mecânico por estar com as mãos sujas de graxa. 

O fato de alguém ir ou não à embaixada só é notícia se o conteúdo da conversa é importante – uma informação de bastidor sobre o governo, por exemplo – ou se a própria visita à embaixada for algo que o público em geral jamais imaginaria.   

É o caso, por exemplo, do ex-ministro da Defesa Nelson Jobim, que segundo os documentos compartilhava abertamente com os americanos a antipatia em relação ao “antiamericanismo” do Itamaraty; não hesitou em contar que Evo Morales teria tido um tumor no nariz; e passou informações sobre a compra dos caças, de interesse comercial dos EUA, e sobre parcerias militares com outros países no combate ao narcotráfico.

Do mesmo modo, o ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu criticou Lula e o PT em um encontro com o ex-assessor do Departamento de Estado americano Bill Perry, isentando-se de responsabilidade pelo esquema que ficou conhecido como mensalão; e o ex-deputado Luiz Eduardo Greenhalgh, do PT, notório crítico da atuação americana e advogado de diversos integrantes do MST, contou bastidores do PT e do MST ao cônsul americano em São Paulo. 

Já William Waack apenas transmitiu suas opiniões – a favor do PSDB e contra o PT – e arriscou palpites políticos em suas conversas com os diplomatas americanos. Talvez a preferência do jornalista da Globo pelo partido tucano seja algo não muito claro para o público que o assiste todo dia na televisão. Aqui, a polêmica é outra, e bem mais interessante: será que os jornalistas deveriam ser mais claros sobre as suas convicções políticas quando debatem o assunto diante do público? Infelizmente, todo o alvoroço que se fez sobre o caso jamais tocou nesse assunto.     

Aos fatos

Neste caso, como tem acontecido com uma velocidade impressionante, uma “notícia” mal apurada foi reproduzida por diversos veículos, na pressa de produzir mais, e não melhor.   

Não há nada de novo no ar. Todos os documentos diplomáticos do WikiLeaks referentes ao Brasil estão disponíveis ao público desde julho deste ano. Dica da Pública: basta acessar o site www.cablesearchnet.orge buscar por palavra-chave para formar sua própria opinião sobre assunto.  

Para nós, jornalistas, passado o vendaval de notícias, não seria má ideia se debruçar sobre esses ricos documentos que ainda escondem muitas histórias de interesse público e servem como ponto de partida para investigações relevantes. Ou será que já esquecemos as revelações sobre a prisão de suspeitos de terrorismo sob acusação de narcotráfico para “não levantar suspeitas”? Ou que 30 oficiais da DEA americana foram transferidos para o Brasil depois de expulsos da Bolívia por espionagem?

É hora, como dizemos na agência Pública, de deixar a polêmica vazia de lado e buscar os fatos.

 

Leia também

A melhor defesa é o ataque – Mauro Malin

Ferozes sem causa – Carlos Brickmann

Oximoro, a nova droga – Claudio Julio Tognolli

***

[Marina Amaral e Natalia Viana são coordenadoras da agência Pública de jornalismo investigativo]

Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade e a pluralidade de idéias e de pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem a intolerância ou o crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Mensagens que não atendam a essas normas serão deletadas - e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.

ATENÇÃO: Será necessário validar a publicação do seu comentário clicando no link enviado em seguida ao endereço de e-mail que você informou. Só as mensagens autorizadas serão publicadas. Este procedimento será feito apenas uma vez para cada endereço de e-mail utilizado.

Nome

  Sobrenome
 
     
E-mail   Profissão
 
     
Cidade   Estado
 
     
Comentário   Confirme o código da imagem

1400
 
Recarregar imagem
   
   
   

 

 Gonçalo Osório
 Enviado em: 10/11/2011 12:58:36
Prezadas Marina Amaral e Natalia Viana, Seu texto deve ter sido lido com grande interesse pelos advogados do William Waack, que anunciou publicamente o início do processo contra os responsáveis pela calúnia -- e pelo menos a Natalia é citada no Jornal do Brasil como alguém confirmando a "notícia". Quem sabe você, Natáia, escapa do processo. O problema, para quem quer, como vocês, praticar jornalismo investigativo é a falta de precisão nas informações. Até mesmo ao tratar do material primário vocês erram. O Waack foi citado duas vezes em conversas com diplomatas americanos. Na terceira, é a embaixada que comenta uma matéria que ele publicou. Nesse caso, a Eliane Cantanhede seria 5 vezes mais interlocutora dos americanos do que o Waack, pois a embaixada comentou 15 matérias que ela escreveu.
 Dante Caleffi
 Enviado em: 10/11/2011 13:22:28
Quase sinto pena de WW.Imagino o festival sensacionalista que a mídia,sejamos francos, "PIG",faria,se um profissional que não dos seus, fosse mencionado como "informante" das embaixadas de Cuba ou da Autoridade Palestina. Certamente a cabeça de um ministro seria pedida.Como de hábito...
 Maria do Rocio Macedo
 Enviado em: 10/11/2011 13:23:56
Pode até que esse jornalista não seja informante oficial; mas, por todos os seus comentários, indiretamente procura evidenciar matizes neoliberais e total desacordo com os governos petistas; p/esse neoliberal convicto, os rumos da política brasileira, não agradam. Deve informar isso, em seus contatos internacionais, é claro!
 Gonçalo Osório
 Enviado em: 10/11/2011 15:45:36
Esqueci de assinalar anteriormente um aspecto jurídico importante no "caso" Waack, e de consequências sérias. Gostaria de ver o que outros distintos comentaristas tem a dizer. Se entendi bem, o artigo de Marina e Natália transforma os acusadores em acusados. Pois boa parte do que se publicou a respeito do jornalista assumia que "o Wikileaks" havia dito, "o Wikileaks afirmar", "revelara", "apontara", etc. Elas desmentem isso -- e com a autoridade, como assumem no texto, de terem sido as representantes do Wikileaks no Brasil inclusive para a distribuição seletiva de seu material. Ou seja, penso eu, em juízo os acusadores do jornalista terão dificuldades em atribuir as informações "ao Wikileaks". De fato, conforme assinalou aqui um distinto comentarista, não é o caso de se ter pena do jornalista. Mas, sim, de quem ele está processando. Ou, talvez não se deva ter pena dessas pessoas. Quem produz lixo deve ter de contar com a possibilidade de ter de engolí-lo. E muita gente agora está sofrendo de indigestão.
 Ibsen Marques
 Enviado em: 10/11/2011 16:29:45
Se ele é informante ou não eu não saberia informar, mas que sua posição é muito mais clara do que mencionam as jornalistas. É cristalino seu anti-governo assim como o é o do pasquim Veja.
 SILVIO MIGUEL GOMES
 Enviado em: 10/11/2011 16:55:28
Será que os velhos Jornalistas (grandes e conhecidos nomes da imprensa brasileira), iriam lá na embaixada ou consulado, dar "a sua opiniao" para o representante estrangeiro?. Acho que não!
 Geraldo Galvão
 Enviado em: 10/11/2011 19:37:08
A mim não impressionou o fato do W. Waack ter conversado com diplomatas americanos, até ai nada de mais. Mas o que me impressiona, é o fato de deixarem de lado a informação de que ele teria sido plantado na TV Globo para defender interesse dos Yankees. Essa sim uma informação relevante e que tem sido deixada de lado, numa tentativa de fazer cair no esquecimento. Ele não é informante, acho que na verdade trabalha para a CIA, e faz propaganda para os EUA, usando seu espaço na grade de programação da TV Globo.
 José de Almeida Bispo
 Enviado em: 10/11/2011 22:25:35
Meio fora de pauta, mas com um pé dentro do objeto de discussão... a mídia grande mais conhecida como PIG dá mais um tiro no pé, pé que necessitará logo adiante pra se manter de pé: resolver torrar o restinho de respeito que ainda tem entrando no confronto dos estudantes da USP com o governo opusdeisiano de Alckmin ficando, óbvio, ao lado deste descaradamente, dentro do mesmo formato com que dá combate há nove anos aos governos do PT, ou seja, tentando demonizar os estudantes. Não vai dar certo!
 lucio-PB VALTER
 Enviado em: 11/11/2011 00:50:04
Não entendo o alvoroço das duas jornalistas em defender W.Waak, afinal ele tem o poderio da Globo para exercer melhor esse papel. Se isso fosse com o PHA,Azenha, Eduardo Guimaraes, Mauricio Dias entre tantos, ah! aí a coisa tava preta pra eles.
 josé caroli
 Enviado em: 11/11/2011 08:48:49
Uma coisa não entendo. Não temos censura e mesmo assim não se veiculou nada .
 manoel francisco
 Enviado em: 11/11/2011 16:32:48
Me desculpe dear mr Bill Waack, tens provas que és inocente? Sem provas não posso acreditar. Eu o condeno. Sim, para mim, até que proves o contrário, és um espião à serviço da Casa Branca, ou melhor, White House. Não é assim que funciona na organização que trabalhas? Primeiro condena e depois o acusado tem que provar que é inocente. Assim será. Pau que bate em Chico, bate em Francisco.
 Edno Lima
 Enviado em: 12/11/2011 22:13:50
Coitado do Waak, não deve nem estar dormindo direito, preocupado com o mau juízo que os militontos estão fazendo dele.
 Ney José Pereira
 Enviado em: 13/11/2011 13:33:12
Soube dessas "impressões" eleitorais sobre (Serra e Aécio e Ciro e Dilma) pelos "jornais" da época. Esse tal William Waack apenas reproduziu "aos americanos" o que os "jornais" publicaram sobre "impressões" dos (potenciais) candidatos à presidência da República (eleição de 2010). Observação: Esses tais "americanos" não sabem ler jornais brasileiros não?. Esses tais "americanos" precisam que algum jornalista brasileiro lhes contem o que os jornais brasileiros publicam?!.
 Ney José Pereira
 Enviado em: 13/11/2011 13:48:36
A embaixada americana "comentou" 15 "artigos" da folháctica Eliane Cantanhêde?. Pô, é por isso que os states está nessa draga toda, né!. PS. A embaixada americana perdendo tempo com folhácticos "artigos" de... Eliane Cantanhêde!. Pô, esses "diplomatas" americanos residentes no Brasil não têm mais o que fazer não?. E o Tio Sam recebe comentários (via telegrama!!!) de diplomatas sobre... "artigos" de... Eliane Cantanhêde!!!. Pô desse jeito os states vão mesmo à falência!!!.
 Marconio Santos
 Enviado em: 14/11/2011 18:24:04
Quando se tem esse tipo de notícias me preocupo pelo fato de que essas "conversas"de jornalistas com pessoal de alto escalao da embaixada americana. Onde nao se pode culpa-los por informar dados de interesse nacional, por sub-entender que essas "conversas" sao amistosas. Em várias ocasiões nossa soberania tem sido dilacerada. Outra coisa é que se bem devemos ter liberdade de imprensa tambem devemos ter responsabilidade de imprensa.
 Rogério Maestri
 Enviado em: 14/11/2011 21:19:42
Agora entendo porque os USA está com aquele "pequeno problema" que se chama "Occupy Wall Street" os seus serviços de inteligência estão se tornando serviços de "burrícia". Eu se fosse o responsável da CIA para o Brasil trocava de informantes, primeiro porque seus informantes dão informações erradas e segundo, o mais grave, que estas informações são mais fruto do desejo de mentalidades corroídas pelo neo-liberalismo Norte-Americano do que de fatos reais. O que está acontecendo é que os USA está substituindo seus analistas políticos e econômicos por analistas de sistemas. Eles estão confiando na sua espionagem eletrônica e para prospecções do futuro (exemplo: qual seria o resultado das eleições brasileiras) eles estão utilizando os analistas da Globo (isto é uma piada). Em vista das informações "precisas" do WW e da outra menina acho que o Brasil nem precisa serviço de contra-espionagem, pois com as análises precisa (hahahahaha) dessas criaturas a contrainformação já está feita. :)
 Bruno Leonelo Payolla
 Enviado em: 14/11/2011 23:21:25
Waack é uma piada. Os EUA ouvirem o Waack é uma piada ainda maior. E vocês, Marian e Natália, também viraram piada!
 Ezequiel Martins
 Enviado em: 14/11/2011 23:49:15
Ok. O William Waack apenas foi "interlocutor" do embaixador norte-americano. Parece-me que vocês se esforçaram em demonstrar isso. E foram bem sucedidas. Mas, fica uma pulga atrás da nossa orelha. Como, depois deste incidente, este cidadão pretende gozar de neutralidade nos seus comentários políticos? Na minha modesta opinião os seus comentários estão mais do que comprometidos. Se ele baba diante de "porta aviões norte-americanos", onde está o seu grau de isenção ao fazer análises políticas no Brasil? Aliás, clichês do tipo "Serra é competente", não ajudam muito.

Marina Amaral e Natalia Viana

canaldoleitor@ig.com.br