FUTURO DA IMPRENSA

Ensaio virtual prevê caos noticioso em 2014

Por Carlos Castilho em 14/12/2004 na edição 307

O prognóstico expresso no título foi feito pelos autores de um ensaio do tipo pensata, distribuído pela web, antecipando um cenário caótico na informação e no jornalismo mundial daqui a dez anos.

O tom do programa de oito minutos de duração produzido por dois norte-americanos em Flash (um software para animações virtuais) é tão realista que não foram poucos os editores de blogs jornalísticos que acabaram traídos pela apresentação, achando que se tratava de um fato verídico.

O documentário, chamado EPIC 2014 (http://chalksidewalk.com/epic/), foi produzido por Robin Sloan e Matt Thompson, ambos com menos de 30 anos e vinculados ao Instituto Poynter (na Flórida), um dos mais respeitados centros de estudos sobre jornalismo online nos Estados Unidos.

Segundo os dois nerds (fanáticos por internet), o mundo virtual da informação começará, já em 2005, a ser cada vez mais manipulado por três grandes empresas: Microsoft (softwares), Google (gerenciamento de informações na web) e Amazon (a maior loja virtual do mundo).

"Nós fomos simplesmente juntando fatos e nos demos conta de que o futuro parecia tornar-se cada vez mais real. Por outro lado, pouca gente na imprensa está refletindo sobre este processo. Exageramos um pouco, para fazer as pessoas pensar", admitiu Robin Sloan (http://robinsloan.com/) em entrevista ao Observatório, via correio eletrônico.

Pela ilegalidade do monstrengo

A narrativa e os efeitos visuais desenvolvidos por Robin e Matt mostram ao espectador como as três megacorporações da web vão aos poucos assumindo um controle cada vez maior das informações fornecidas ao público.

A Google e a Amazon, prevêem os autores, acabariam se fundindo, por volta de 2009, numa giga-empresa, a Googlezon, que passaria a ter o maior banco de dados sobre informações pessoais já criado na história da humanidade. A Microsoft contra-atacaria desenvolvendo um sofisticadíssimo sistema de produção personalizada de notícias para atender os interesses de cada individuo.

Mas a ficção de Robin e Matt vai ainda mais longe. Para ambos, a Googlezon cobre a aposta da empresa de Bill Gates lançando o EPIC (Evolving Personalized Information Construct – sistema dinâmico de informação personalizada), capaz de interpretar o que as pessoas desejam ou necessitam em matéria de informação e atender sua demanda. Em suma, um Big Brother interativo e inteligente.

Em 2014, um mês depois do lançamento do EPIC, o The New York Times chega à conclusão que a ousadia foi longe demais e resolve contra-atacar pedindo que a Suprema Corte de Justiça dos Estados Unidos declare ilegal o monstrengo criado pelo Googlezon, acusado de violação de direitos autorais.

Perplexidade e desorientação

O roteiro do documentário/ficção prevê a derrota da Senhora Cinzenta (Gray Lady), apelido carinhoso dos nova-iorquinos ao jornal que se transformou numa referência não só da cidade mas de várias gerações de jornalistas no mundo inteiro. The New York Times joga a toalha e melancolicamente se transforma numa newsletter impressa para milionários e aposentados.

Os fatos escolhidos pelos autores do documentário-ficção podem não ser os mais verossímeis como, por exemplo, a fusão entre Google e Amazon – um evento que os especialistas no mercado de empresas de informática acham muito pouco provável, mesmo a longo prazo.

Mas o processo esboçado pela seqüência de eventos foi levado a sério por muitos viciados em internet, como os quase dois mil internautas que trocaram mensagens sobre o EPIC 2014 nas páginas da revista online Slashdot (http://slashdot.org) especializada em tecnologia ou as mais de 130 mensagens postadas no site Technorati (http://technorati.com), especializado em buscas entre blogs.

O tema foi também um dos quatro mais discutidos no site Metafilter (http://metafilter.org/mefi/37142), no qual surgiu até um grupo de brasileiros interessados no futuro da imprensa.

O documentário/ficção evita fazer qualquer proposta alternativa, limitando-se a deixar no ar a pergunta: não haveria um outro caminho possível? Mas, pelo teor das discussões online, já dá para perceber que há uma enorme perplexidade e desorientação entre os internautas sobre o que pode acontecer com a informação e o jornalismo nos próximos 10 anos.

[O programa EPIC 2014 pode ser assistido sem problemas por quem tem banda larga. Para a conexão discada, talvez seja necessário um pouco de paciência.]

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Carlos Castilho

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