LÍNGUA & LINGUAGEM

Entre o plural e a pluralidade

Por Gabriel Perissé em 31/05/2011 na edição 644

A polêmica artificial em torno do livro didático Por uma vida melhor continua. Cada vez mais artificial.

Apesar de já terem surgido entrevistas e artigos esclarecedores, por vezes nos mesmos jornais e canais que abrigaram críticas apocalípticas, as caras de escândalo e os discursos em defesa do “bom português” reapareceram nesta última semana. Destaco dois exemplos.

Na revista Veja (1º/6/ 2011), entrevista com o professor Evanildo Bechara, membro da Academia Brasileira de Letras. De novo, pretende-se dar como certo que os autores do livro em questão cometeram o crime de ensinar aos alunos a falar e escrever de modo contrário à norma culta, com a intenção malévola de manter esses alunos na ignorância, impedindo-os de crescer humana e profissionalmente. Palavras de Bechara:

“Para conquistar um bom lugar no mercado de trabalho o pré-requisito principal é que elas [as pessoas] não saiam por aí dizendo ‘Nós pega o peixe’, versão ensinada no livro distribuído às escolas pelo Ministério da Educação.”

Pontos comuns

É provável que o eminente gramático, tanto quanto os humoristas do CQC que desceram a lenha na chamada “cartilha do MEC”, não tenha lido na íntegra o capítulo do livro em que se toca a questão da concordância entre palavras. O capítulo está disponível aqui, no site da Editora Global. Quem não teve tempo ou paciência para ler as 17 páginas das quais se retirou a frase do contexto, deveria fazê-lo agora para perceber com que seriedade e responsabilidade os autores abordaram o assunto.

Vejamos um trecho elucidativo:

“Na variedade popular [...] é comum a concordância funcionar de outra forma. Há ocorrências como:

Nós pega o peixe.

“nós à1.ª pessoa, plural

“pega à3.ª pessoa, singular

Os menino pega o peixe.

“menino à3.ª pessoa, ideia de plural (por causa do “os”)

“pega à3.ª pessoa, singular

“Nos dois exemplos, apesar de o verbo estar no singular, quem ouve a frase sabe que há mais de uma pessoa envolvida na ação de pegar o peixe. Mais uma vez, é importante que o falante de português domine as duas variedades e escolha a que julgar adequada à sua situação de fala.”

As duas variantes são a popular e a culta. No mesmo capítulo, explica-se que a norma culta deve, sim, ser ensinada na escola. Talvez o motivo pelo qual deva ser ensinada, segundo esses autores, incomode a quem discorda dos pressupostos da sociolinguística, ou a quem identifica no texto um “ranço ideológico de esquerda”. No entanto, está escrito ali, sem tirar nem pôr, que a norma culta deve ser ensinada, conhecida e praticada:

“Como a linguagem possibilita acesso a muitas situações sociais, a escola deve se preocupar em apresentar a norma culta aos estudantes, para que eles tenham mais uma variedade à sua disposição, a fim de empregá-la quando for necessário.”

A norma culta é uma variante entre outras. É adequada em determinados momentos e lugares. Pode ser dispensável ou até inconveniente em outros lugares e momentos. Eis, em poucas palavras, o ensinamento linguístico presente no livro didático, ensinamento que tanto incomoda gramáticos como Bechara.

Na própria gramática normativa, no entanto, encontram-se sinais de flexibilidade. A distinção inegociável entre certo e errado pode dar lugar, por um instante, à aceitação de formas divergentes. No caso da concordância, para permanecermos no tema, os gramáticos compreendem a lógica interna de formas como “era tudo flores” e “eram tudo flores”, “passará o céu e a terra” e “passarão o céu e a terra” etc. Compreendem essas possibilidades e as abençoam com tranquilidade.

Sei que se trata de coisas diferentes, mas a intenção é mostrar que linguistas e gramáticos, variacionistas e normativistas podem encontrar pontos em comum, quando deparam com a realidade viva de um idioma.

A gramática extrapolada

O acadêmico Evanildo Bechara reage como normativista. Já o articulista do Estado de S.Paulo Carlos Alberto Di Franco reage como defensor da verdade absoluta, em seu artigo “MEC não quer ensinar” (30/05/2011). Sua visão/versão dos fatos é a seguinte:

“Recentemente, a imprensa noticiou que, para evitar discriminações, o Ministério da Educação (MEC) quer renunciar ao dever de ensinar. Por exemplo, entende que pode promover o preconceito a explicação em sala de aula de que a concordância entre artigo e substantivo é uma norma da língua portuguesa. Dessa forma, o MEC aconselha a relativizar. Segundo o Ministério, a expressão ‘os carro’ também seria correta. A sociedade, quando se deu conta do que o MEC estava propondo, foi unânime na sua indignação. Afinal, a oportunidade de aprender bem a sua língua deve ser um direito de todos.”

Di Franco evita a verdade, ou a distorce para fortalecer sua argumentação. Extrapola a questão gramatical, vendo relativismo moral onde o que há é consciência dos diferentes modos de falar. Induz o leitor a pensar que o MEC, a começar pelo ministro petista, acabará com a educação brasileira...

Replicando falas de “especialistas” da TV Globo como Alexandre Garcia, Di Franco não leu o capítulo do livro que pretendia criticar. E se porventura leu, não entendeu. Para ficarmos apenas com uma frase: “A sociedade [...] foi unânime na sua indignação”. Na verdade, não houve unanimidade coisa nenhuma. Aliás, boa parte da sociedade (da sociedade real) sequer se comoveu com o assunto. O que tivemos foi a grita exagerada de uma “mídia diferenciada” que está pronta para atirar primeiro e perguntar depois. Ou nem perguntar. Para que perguntar?

Di Franco não quer saber das vozes que, com bom-senso, e baseadas na leitura do famoso capítulo, comunicaram a incômoda verdade – o livro Por uma vida melhor, destinado a turmas de educação de jovens e adultos (EJA), e não a alunos do ensino básico regular, é uma obra adequada e correta como tantas outras que existem, e foi selecionada (Di Franco não sabe ou omite essa outra verdade) por especialistas da área e não por funcionários do MEC.

Enumero alguns nomes que quebram a unanimidade inventada/desejada por Di Franco: na revista CartaCapital (25/05/2011), Maurício Dias; Eliane Brum para a Época, com um texto cheio de sensatez; Ataliba Castilho, que se define como um linguista-gramático, em entrevista esclarecedora; outra boa entrevista, concedida por Cesar Callegari, do Conselho Nacional de Educação, e, no Terra Magazine, o artigo do professor Sirio Possenti.

O fato é que a quase totalidade dos que criticaram o livro em nome da verdade, da educação, do bem e talvez até dos bons costumes, não o leram. Isso sim deveria escandalizar.

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 Boris Dunas
 Enviado em: 03/06/2011 19:26:36
Aos teóricos petistas restou apenas a tentativa de desqualificar as críticas e os críticos de um livro que nem eles mesmos leram. Porque não há defesa para um livro DIDÁTICO que concede ao erro como forma de “jogar pra torcida”, já que a tal “variante popular” o aluno aprende sozinho, na rua. A menos, é claro, que o PT pretenda padronizar também o erro e a ignorância à sua imagem e semelhança: até mesmo para errar será preciso respeitar as formas de erro “aprovadas pelo partido”.
 Silvia Biscalchin
 Enviado em: 04/06/2011 12:14:12
Se fossem dadas ao aluno oportunidades de acesso e de conhecimento da norma culta ele, com certeza, não faria uso das "aberrações" consideradas variantes neste livro! É óbvio que o livro considera que: "a norma culta deve, sim, ser ensinada na escola", nem imagino que pudesse ser contrário. Jéssica Silvano (RJ) - estudante da Faculdade Nacional de Direito da UFRJ diz em seu blog: "É extremamente cômodo para o MEC estimular as crianças a falarem dessa maneira, ao invés de investir em uma educação de qualidade, coisa que não tem sido feita no Brasil há tempos. Afinal, é mais fácil dizer que é certo o que está errado do que corrigir o erro". Penso como ela.
 Maria Cecília de Moraes Rito
 Enviado em: 04/06/2011 20:16:23
Lendo a referida a parte da gramática apressadamente criticada pelo Sr. Di Franco, percebo o quanto essa figura foi infeliz em sua crítica. Não sei bem o que ele quer polemizar, aliás, sei bem. Acredito que o que mais o incomodou se, de fato, ele leu todo o conteúdo, seja a perfeita relação existente entre as estruturas da linguagem com as estruturas sociais feita pelos autores da gramática do MEC. E isso é bem subversivo!. Não é à toa que se intitula “Por uma vida melhor”, pois esclarece libertando consciências. Nela, há uma linguagem fácil, esclarecedora, sem apelar para o populismo, e exemplos concretos que mostram a dinâmica da língua e da vida social que muitos gramáticos parecem não entender. Há, na fala dos autores da gramática do MEC, algo que diz: "Car@ estudante (estudante de escola pública), você NÃO é idiota!", e mais: " tá aqui as armas para mudar sua condição social". Enfim, não é toda gramática que indica Adoniran Barbosa e o Ultraje a Rigor como uma leitura complementar para a vida cotidiana, diga-se crítica também. Acredito que o Sr. Di Franco prefira uma outra gramática: a que promova um sujeito passivo e que não denuncia que também a linguagem é um universo infenso à desigualdade social. Lembro-me agora de um texto de Haroldo de Campos quando este cita Max Bense: " (...) observa-se no diário com que satisfação cada cidadão interpreta a imutabilidade de sua linguagem no sentido da estabilidade do seu mundo. A desconfiança contra os experimentos na esfera inteligível tem, portanto, origens sociais. É a desconfiança da classe, que não gosta de ver em perigo sua hierarquia, seus distintivos, seus emblemas. Nem sequer no domínio da linguagem". (In.: CAMPOS, Haroldo. Metalinguagem & Outras Metas. Coleção Debates. São Paulo:Ed. Perspectiva, 2004, p. 22). Parece mesmo que o que ganha visibilidade é essa “polêmica artificial” e politicamente correta que mistifica o real intento de tais ações. Parece mesmo que somos INÚTEU!.
 Paulo Pereira
 Enviado em: 04/06/2011 20:26:41
“O procedimento consiste na desqualificação de ideias sem o mínimo esforço prévio de compreendê-las. Funciona assim: diante de mero indício de convicções contrárias às minhas, detectados em leitura de viés ou simples ouvir dizer, passo ao ataque para desmoralizar o argumento em questão e os seus autores. É a técnica de atirar primeiro e perguntar depois. A vítima é a qualidade do debate público.” (...) “...no capítulo em questão, a autora busca justamente marcar a diferença entre a norma culta, indispensável na escrita formal, e as variantes populares da língua, admissíveis na linguagem oral. Não se exime ela do ensino das regras.” (...) “Noves fora um certo ranço ideológico, aqui e ali, o livro é de bom nível. Trabalho de gente séria, que merece crédito. E um pouco mais de respeito.”  (Sergio Fausto - Diretor Executivo do iFHC) http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110529/not_imp725367,0.php
 Ibsen Marques
 Enviado em: 05/06/2011 04:27:01
Garanto que todos, mesmo conhecedores e praticantes da norma culta, nos utilizamos de muitas dessas variantes que vem sendo chamadas aberrações - por pessoas que estudam a Linguística como praticada no século XIX - em nosso dia a dia. Agora, vá a uma sala de aulas para analfabetos adultos e diga a eles que a forma como falam é uma aberração. Tenho certeza de que na próxima aula falaria com as paredes. O que posso dizer é que o maior interessado na ignorância do cidadão não é o PT (é só fazer uma visita à história do Brasil),ao contrário, para vencer o ranço das classes prepotentes e de uma midia comprometida com as elites, ele precisa contar com uma classe trabalhadora consciente, capaz de interpretar e avaliar as situações por conta própria. Não é por outro motivo que a Educação, por pior que esteja, supera em muito a que se vivia no passado não muito distante;
 Gerson Chagas
 Enviado em: 05/06/2011 14:44:32
Concordo plenamente com o Sr. Perissé. O livro aborda variantes linguísticas, e em momento algum anatemiza a norma culta, cujo ensino é obrigação da escola. A meu ver, todo esse movimento de indignação inócua deveria ser canalizado para outros eventos, tais como a linguagem rebuscada e hermética utilizada por juristas ; a incompreensível (e frequentemente ilegível), por médicos ; e a deliberadamente ambígua e sorrateira, adotada por instituições bancárias, comércio e empresas. Afinal, à linguagem , enquanto mecanismo pétreo e basilar de promoção da convivência, expressão e libertação humanas, não basta apenas ter sua funcionalidade elucidada nas escolas, mas também ser utilizada com a devida probidade pelos que dela se valem para o cumprimento cidadão de suas atribuições sociais.
 Ana Karla Batista Farias
 Enviado em: 06/06/2011 16:42:45
Deve-se ter uma posição flexível acerca do uso da norma culta. Não se pode relegá-la de vez, posto que todos têm o dever e direito de conhecer o idioma do seu país. No entanto, é preciso bom senso para adaptar a linguagem a cada situação e interlocutor. Afinal, o objetivo último de qualquer conversação é estabelecer uma comunicação entre as pessoas do discurso.

Gabriel Perissé

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