CAMPUS PARTY
Evento corre perigo
Por Rogério Christofoletti em 25/01/2011 na edição 626
Como nos três anos anteriores, a Campus Party Brasil conseguiu reunir milhares de aficionados por tecnologia, gerou mídia para as empresas do setor, movimentou um pouquinho as redações com pautas leves e popularizou o evento. Mas não parece ter ido além disso. Pelo menos foi o que percebi daqui, a 550 quilômetros. Sim, não fui a Campus Party este ano e acompanhei o evento pela mídia convencional e pelas redes sociais.
O que eu quero dizer? Quero dizer que, a exemplo do Fórum Social Mundial, a Campus Party Brasil corre perigo. Não de acabar ou de se desintegrar. Mas de se acomodar a ser apenas um evento, apenas um happening (empresto a palavra de Beth Saad). É claro que o FSM e a CP são ocasiões muito distintas em formato, alcance e propósito. Enquanto o FSM se propõe apresentar alternativas para uma alternativa global, principalmente no que tange aspectos econômicos, políticos e sociais, a CP é mais uma festa tecnológica, restrita aos países que a realizam. O FSM quer pensar e construir um novo mundo. A CP não necessariamente. Mas como posso compará-los?
Lucro e vitalidade
Aproximo os dois eventos por considerá-los bastante importantes e oportunos. É realmente relevante debater soluções para os problemas da humanidade num momento de consumo exacerbado, de inchaço populacional, de impactos ambientais altamente agressivos, de injustiça social e de desequilíbrio econômico. Mas também é importante trocar experiências sobre tecnologia, apontar tendências de uso/apropriação de equipamentos e sistemas, debater impactos na sociabilidade e na comunicabilidade em tempos como os nossos. Daí que acho que a Campus Party – e o FSM – não podem se resumir a eventos que juntam tribos.
Há algum tempo, os organizadores do Fórum Social Mundial são cobrados pela mídia e por outros setores a apresentar resultados mais palpáveis das discussões. Questiona-se para onde o FSM leva; pergunta-se que "outro mundo possível" é este. Apesar de incômodas, essas perguntas são importantes, inclusive para que os organizadores revejam a trajetória do evento e trabalhem para que ele se mantenha importante e oportuno.
O mesmo vale para a Campus Party. Para onde ela vai? Para que direções aponta? O que é a Campus Party hoje além de uma ocasião geradora de mídia para as empresas de telefonia? Tem sido um momento de prospecção de talentos, de inovações, de empreendedorismo efetivo e influente? Ou, mudando um pouco o discurso, o que a Campus Party Brasil quer ser daqui a cinco anos?
É preciso se reinventar.
Eu sei que a CP é uma desconferência, um encontro mais informal e com propósitos mais amistosos. Isso por parte dos participantes. Não dos patrocinadores. Eles não querem apenas a amizade e a admiração dos milhares de nerds e geeks. Eles querem fidelizar suas marcas, querem ampliar seus públicos consumidores, querem se descolar dos concorrentes e se fixar no imaginário dos consumidores, de maneira que isso resulte em lucros e vitalidade empresarial. Os organizadores da Campus Party querem o que com o evento? Não sei dizer, mas gostaria muito de saber.
Nerds no poder
Diferente de há vinte anos, hoje, ser nerd é estar de alguma forma na moda. Há uma popularização do estilo geek de ser. Desktops, notebooks, netbooks, palmtops, smartphones, Iphones, Ipads e outras traquitanas estão se disseminando e facilitando usos variados. Eventos como a Campus Party são bem-vindos, mas não podem se limitar a ser vitrines; precisam ser arenas e laboratórios. Vitrines funcionam apenas como instigadoras do consumo; arenas permitem a discussão e o debate; laboratórios incentivam a busca de soluções.
A Campus Party pode mais do que simplesmente reforçar o estereótipo de seus participantes – sujeitos sem vida social, afundados em seus computadores -, pode mais do que gerar imagens curiosas – como os computadores tunados – e pode mais do que criar mídia espontânea para construtores de máquinas e provedores de acesso. Se esta é a idade do conhecimento, se vivemos nas sociedades da informação, se os nerds estão no poder, se a tecnologia é uma determinante na distinção entre as civilizações do momento, penso que não é muito esperar mais do principal evento tecnológico do país...
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| Rogerio Christofoletti |
| Enviado em: 25/01/2011 11:45:20 |
| Nicolau, achei ótima essa imagem: o sujeito usa camiseta do Che sem se perguntar se outro mundo é possível e isso não passa de cosplay. Ótimo! |
| André Vésper |
| Enviado em: 25/01/2011 10:47:34 |
| Realmente deu pra perceber que você não estava lá... A questão é que os grupos que se formam para discutir alternativas de desenvolvimento não recebem a mesma mídia. A grande mídia vai preferir mostrar as modelos divulgando o novo iPad e as pessoas fantasiadas com roupas de animes e jogos do que falar sobre novos sistemas e linguagens que o leitor comum provavelmente não compreenderá. Sinceramente, achei a crítica um pouco descabida. |
| Nicolau Werneck |
| Enviado em: 25/01/2011 11:13:22 |
| Bom artigo, mas parece que o autor deseja ver uma consequência, um efeito significativo e direto sair de uma das edições destas reuniões. Acho que o papel delas não é esse. Ambos eventos servem mais para que jovens visitantes afirmem suas ideias, amadureçam a identidade de CPtysta ou FSMlista. O importante é fazer jovens interessados nestes assuntos interagirem entre si e com as personalidades convidadas. As consequências a serem colhidas são o que estes jovens farãono futuro. Queria aproveitar para abordar um assunto relacionado. Hoje em dia ser nerd está na moda, mas tenho visto a figura ser muito deturpada, e o pior, o preconceito que estas pessoas sempre sofreram permanece. Não nos esqueçamos que estas palavras são antes de mais nada ofensas feitas pelos "jocks" e "winners". Outro dia ouvi na universidade esta frase, a respeito de um filme ou coisa assim: "ah, é nerd mas é legal". Estamos na era do "é nerd mas é legal". Temo jamais vermos uma verdadeira dissolução da ideia de que certas coisas "são nerd", e que às vezes algo nerd não é legal. Mais do que a tolerância, almejo é o fim da rotulação. O correlato no FSM é o lance do "comunista-chic". Pessoas andam aí com camiseta do Che só pelo look rebelde, sem se perguntar se outro mundo é possível. É só cosplay. Se o CP e FSM conseguirem permanecer _verídicos_, true, estarão ajudando muito. |
| Felipe Braga |
| Enviado em: 27/01/2011 15:47:48 |
| O autor conhece o FISL (fisl.softwarelivre.org)? Já participei dos dois eventos (FISL e CP), e acho o FISL um evento politicamente muito mais relevante que a CP (comercialmente, claro, é o inverso: questão de moda :P) |
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