CRISE DO CAPITALISMO
Imprensa contorna o debate essencial
Por Luciano Martins Costa em 26/01/2012 na edição 678
Comentário para o programa radiofônico do OI, 26/1/2012
“O capitalismo do século 20 está falhando em atender a sociedade do século 21. Perdemos a bússola moral.” A frase da economista Sharan Burrow, secretária-geral da ITUC, sigla em inglês que representa a Confederação Sindical Internacional, poderia ser mais significativa com uma pequena alteração: “A democracia liberal do século 20 está falhando em atender a sociedade do século 21. Perdemos a bússola moral”.
Sharan Burrow, cuja entidade fala em nome de 175 milhões de trabalhadores afiliados a sindicatos em 151 países, fez a declaração durante a abertura do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, que merece cobertura apenas parcial da imprensa brasileira. Parte da mídia nacional, entre elas o Estado de S.Paulo e a edição online da revista Veja, destacam sua frase na quinta-feira (26/1), mas apenas a imprensa internacional deu o espaço devido à sua reflexão.
Ao lembrar que a crise econômica mundial tirou o emprego de 200 milhões de pessoas em todo o mundo e que 45 milhões de jovens ingressam anualmente no mercado de trabalho e não encontram oportunidades, Burrow propôs uma atualização dos debates sobre o capitalismo sob o ponto de vista moral.
Ampliar o debate
Essa é uma discussão em falta na imprensa. Mesmo quando antigos defensores do liberalismo econômico radical se propõem a rever seus conceitos, como fez recentemente o cientista político americano Francis Fukuyama, os jornais fazem o registro burocraticamente e deixam o assunto de lado.
A declaração da dirigente sindical poderia ser estendida para uma reflexão a respeito da democracia liberal, associada por Fukuyama ao triunfo do capitalismo sobre outras formas de organização da economia.
A grande repercussão do livro que transformou Fukuyama em celebridade instantânea em 1992 – O fim da História e o último homem – não encontra correspondente, duas décadas depois, nos recentes debates sobre a incapacidade do sistema econômico liberal de responder às demandas e desafios da sociedade contemporânea.
Uma ampliação desse debate através da imprensa ajudaria os brasileiros – principalmente aqueles mais educados e influentes – a entender como o recente desenvolvimento do Brasil tem a ver com o fato de o governo Lula da Silva ter enveredado por um caminho oposto ao que indicava o falso consenso que Fukuyama interpretava.
Democracia e moral
Nada a estranhar quanto ao fato de a imprensa brasileira se omitir diante de questões que colocam em xeque suas convicções ideológicas. Relendo o artigo original que deu origem ao livro de Francis Fukuyama, ressalta-se um detalhe que foi atropelado no noticiário que se produziu posteriormente em torno do seu livro famoso.
O texto inicialmente publicado por Fukuyama na revista americana National Interest,em meados de 1989, tinha o seguinte título: “O fim da História?” – assim, com ponto de interrogação no final – e continha uma especulação na qual ele questionava se a decadência do império soviético representaria o fim do conflito ideológico entre capitalismo e comunismo como motor da História.
O ponto de interrogação desapareceu nas citações posteriores e, quando o cientista político americano, animado com a expansão do capitalismo após a queda do regime soviético, se sentiu mais seguro em suas especulações, alguns analistas apressados chegaram a compará-lo a Karl Marx.
Mas a obra de Fukuyama não resistiu ao teste da História. Em menos de duas décadas, o regime de liberdade plena para o capital financeiro produziu a maior crise econômica de que se tem notícia desde o advento do capitalismo. Enquanto isso, economias emergentes que não seguiram a cartilha do consenso liberal de Washington se transformam no último refúgio do capital internacional.
Quando afirmou que o fim da Guerra Fria poderia estar sinalizando também o fim da evolução ideológica da humanidade e “a universalização da democracia liberal ocidental como a forma final do governo humano”, Fukuyama estava atando o sistema econômico ao regime político.
Ao questionar a validade moral do capitalismo do século 20 na sociedade mais complexa, globalizada, hipermediada e diversificada do século 21, a dirigente sindical Sharan Burrow abre uma oportunidade para o debate sobre a evidente incapacidade da democracia liberal de representar os interesses dessa mesma sociedade.
No Brasil, como em outros países, a apropriação do Estado por grupos de interesse econômico disfarçados de partidos políticos, a instrumentalização de instituições fundamentais como a Justiça em favor de meia dúzia de privilegiados, o abuso da força policial na ocultação de problemas sociais – tudo isso é parte da questão que ela levanta.
Mas a imprensa brasileira não parece alcançar essa dimensão da realidade.
Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade e a pluralidade de idéias e de pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem a intolerância ou o crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Mensagens que não atendam a essas normas serão deletadas - e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.
ATENÇÃO: Será necessário validar a publicação do seu comentário clicando no link enviado em seguida ao endereço de e-mail que você informou. Só as mensagens autorizadas serão publicadas. Este procedimento será feito apenas uma vez para cada endereço de e-mail utilizado.
| Boris E. Dunas |
| Enviado em: 26/01/2012 15:42:22 |
| Ah, então é o Estado quem está manietado pelos capitalistas danados, e não o contrário? Sabemos, pois, quem são os atravancadores cruéis dezztepaízz, que tanto atrapalham o noçço impoluto e valoroso guvêrno a implantar de vez o socialismo redentor da humanidade? Ora, então está muito fácil apontar os culpados! Mas... por que será que nunca vi ninguém jamais citar um miserável nome? Já da Justiça em favor de meia dúzia de privilegiados, bem lembrado! Tem aquele ex-funcionário de zoológico agraciado com uma dessas benesses que ficou milionário da noite para o dia, e que nunca ninguém se coçou para investigar e que, aliás, é proibido perguntar, lembra? |
| fabio de souza souza santos |
| Enviado em: 26/01/2012 15:50:11 |
| Até que enfim um texto lúcido sem contaminação partidária. |
| José de Almeida Bispo |
| Enviado em: 28/01/2012 11:53:08 |
| Acreditar no fim da História é acreditar no fim da vida. Isso sem levar em conta que a História natural continuará, com ou sem vida como assim entendida. Fukuyama apenas foi o instrumento dos "estrumentos" para tocar fogo no planeta a troco de um jogo besta e perigoso do "vamos ver quem ganha mais". E a prova de que raciocínio é coisa deveras rara, haja vista que relativamente foram poucas as vozes a questioná-lo no dito meio científico. Quanto à mídia? Quem a paga? Quem mantém o emprego dos repórteres? |
JORNALISMO ONLINE
Luciano Martins Costa | Edição nº 695 | 25/05/2012 | 0 comentários
CÓDIGO FLORESTAL
Luciano Martins Costa | Edição nº 695 | 24/05/2012 | 2 comentários
ONTEM & HOJE
A imprensa e o mercado de escravos
Luciano Martins Costa | Edição nº 695 | 23/05/2012 | 1 comentários
FACEBOOK EM BOLSA
Luciano Martins Costa | Edição nº 695 | 22/05/2012 | 0 comentários
LEITURAS DO ESTADÃO
Luciano Martins Costa | Edição nº 694 | 21/05/2012 | 2 comentários
Ver todos os textos desse autor






