IMPRENSA EM CRISE

Jornais, jornalismo, profecias

Por Nilson Lage em 14/04/2009 na edição 533

O Seattle Post-Intelligencer, fundado em 1863 – "o mais antigo do estado de Washington" –, foi o primeiro grande jornal a desistir, em 17 de março último, da edição em papel, transferindo-se com textos, fotos e vídeos para seu site.

A Hearst Corporation, dona do Post-Intelligencer, faz, com isso, uma experiência-piloto capaz de se multiplicar nas médias cidades americanas (Seattle tem cerca de 600 mil habitantes). Poderá, assim, evitar o que aconteceu com a Kodak ou com as fábricas suíças de relógios: ao pretenderem a coexistência da tecnologia tradicional com a inovadora (câmeras e relógios digitais), perderam fatias expressivas do mercado.

Em pequenas e grandes comunidades, os jornais impressos continuam sendo referência na guerra ideológica. Governos e grupos financeiros de países da Europa Ocidental têm tido êxito na tarefa de impedir a internacionalização da mídia; para isso, investem diretamente na indústria da informação. O Corriere della Sera, por exemplo, o mais conhecido jornal italiano, pertence ao grupo Mediobanca, à Fiat e a outros investidores locais.

Nos EUA, com sua tradição ultimamente não muito honrada de jornalismo objetivo, a disputa é mais nítida. De Nixon a Reagan e aos Bush, o país foi invadido pela News Corporation, do australiano Rupert Murdoch, e pelos dólares do coreano Sun Myung Moon, o Reverendo Moon, da Igreja da Unificação. Hoje, Murdoch, de 78 anos, controla o New York Post, concorrente do New York Times; a Dow Jones & Company (portanto, o Wall Street Journal); e a audiovisual 20th Century Fox (portanto, a Fox News, que concorre com a CNN). Moon, de 89 anos, com seu Washington Times, não teve o mesmo êxito na tentativa de conter o Washington Post, cuja tiragem é sete vezes maior.

Repertório limitado

Murdoch e Moon são capitães de uma imprensa ultraconservadora e, de qualquer ângulo que se analise, tendenciosa. Já o New York Times e o Washington Post, veículos de tradição liberal, enfrentam as dificuldades do empreendimento jornalístico aparentemente com menor suporte financeiro.

Vendas e receita publicitária dos diários caem por toda parte e eles se mostram altamente sensíveis à crise econômica. A médio prazo, irão sobreviver? Muitos acham que não. Um dos argumentos é que não conseguiram até hoje encontrar um estilo que combine conhecimento enciclopédico com a linguagem do dia-a-dia para, apoiados em bancos de dados, no testemunho dos repórteres e nas facilidades atuais de comunicação, ir além do noticiário que os veículos eletrônicos – internet, rádio, televisão – exploraram intensamente na véspera.

Os chamados "jornais populares", que pareceram em dado momento a saída, ocupam-se mais das paixões (eróticas, desportivas) e dos temores (a violência, o sobrenatural) do público minguante dos não-digitalizados. Com repertório limitado de anunciantes (geralmente vendas a varejo, classificados com ofertas de menor custo), seu orçamento é modesto e seu destino incerto, pelo menos nos países do "grupo dos 20", aquele de que se espera a solução de todos os problemas do mundo.

Duração limitada

Redações encolhem; multiplicam-se os free-lancers. Mas são sinais enganadores. Quer os jornais sobrevivam ou não, por 10 ou 100 anos, o jornalismo deverá expandir-se notavelmente, tanto na área institucional (o diálogo direto da fonte com o acionista, consumidor ou usuário) quanto em iniciativas antes temerárias. Por exemplo, a hiper-especialização quanto ao tema ou quanto ao público; a instalação com baixo custo de sistemas de informação – vídeo, som, fotos, textos – em comunidades menores ou com renda limitada (o que, no Brasil, valeria para a interiorização do jornalismo); a comunicação interativa.

O discurso liberal, comum nos EUA (onde os liberais são progressistas, os únicos socialmente aceitos), promete que o jornalismo será desnecessário quando "qualquer um" tiver acesso à internet. É sofisma. O processamento de informação exige dedicação integral, conhecimentos específicos e compromissos com as fontes e os leitores, ouvintes ou espectadores. E o público sabe disso: quem duvida deve consultar estatísticas que indicam onde as pessoas vão buscar informações jornalísticas na internet.

Tirando "fenômenos" de duração limitada – a moça que revela intimidades de alcova, o senhor idoso que filosofa sobre como os tempos mudaram – lá se vão em bandos para os endereços do New York Times, Le Monde, El País, Al Jazeera, Ha´aretz...

***

Jornalista

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 Jose Honorio Cupertino
 Enviado em: 17/04/2009 11:50:04
O fator preponderante na agonia da mídia impressa é a credibilidade. Veja os maiores jornais e revistas do Brasil. São mais panfletos políticos do que noticiosos. Este fenomeno parece acontecer no mundo todo, pois a noticia esta sendo manipulada de acordo os interesses de grupos poderosos. No nosso país, isto salta à vista como demonstra fatos recentes. O banqueiro Daniel Dantas parece ter o controle de Veja e Folha, cujos articulistas defendem os interesses do banqueiro caninamente. Ou alguém duvida qua satanização de Protógenes e De Sanctis tem a ver com a orientação do "boss" tupiniquim? Por outro lado existe o corporativismo mambembe dos jornalistas, achando que ilações prevalecem à verdade, daí tentarem desconstruir um relatório muito bem feito por Protógenes, em que analisacom muita propriedade, com base em escutas e artigos, a conduta da imprensa segundo os interesses de grupos. A utilização destes jornalistas por DD é de uma promiscuidade infame, mormente os da Veja. Se a mídia não voltar a noticiar os fatos como eles são, certos meios tenderão a uma agonia mortal. Restará então a internet, que dada a diversidade de versões, dos prós e dos contras, é possível filtrar e ter alguma coisa próxima da verdade.
 João Luiz Ney
 Enviado em: 14/04/2009 23:11:56
Os "jornais populares" refletem uma situação vergonhosa que se encontra grande parcela da população brasileira, condenada às diferentes formas de exclusão social, digital, econômica e racial. Também reforçam e exploram a retórica ventrilocada da mídia. Abusam dos temas eróticos de gosto duvidoso e da violência. A notícia telegráfica atende aos interesses da exclusão e direciona à opinião superficialmente tendenciosa.

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